O preço dos erros

O caso iraniano, é mais um exemplo do preço dos erros que se cometem. Um preço com elevados custos humanos.

Se em tempos idos os EUA tivessem dado melhor atenção ao Xá Reza Pahlavi, muito do que se passa agora no Irão, e do que já se passou, ter-se-ia evitado.

 Apesar da sua concepção autocrática, Reza Pahlavi promoveu a modernização do Irão com a laicização do Estado, a igualação de direitos entre homens e mulheres, dinamizou as artes e as mentalidades imprimindo um forte cunho ocidental. O Xá estabeleceu os fundamentos para a estanquicidade do avanço do clero xiita e a delimitação das influências muçulmanas, ao mesmo tempo que travava as influências soviéticas junto da Jordânia e da Síria, de modo a permitir um melhor equilíbrio geopolítico naquela região.

Acontece que Reza Pahlavi quis libertar-se do jugo norte-americano, começando a estabelecer as suas próprias cotações de crude. Porque percebeu que só verdadeiramente autónomo é que poderia construir o Irão moderno e de matriz ocidental que tanto ambicionava. Mas com isso feriu os interesses das companhias petrolíferas norte-americanas, e os EUA fizeram aquilo a que já nos habituaram: deixaram cair quem já não lhes era útil no imediato, sem medir as consequências no médio e longo prazo.

O próprio Kissinger apercebeu-se da importância vital que seria sustentar o Xá, dando-lhe mais e melhor apoio político e militar. Disso deu a devida conta em Washington DC, mas de nada adiantou: como sempre os interesses corporativos do petróleo falaram mais alto. Foi um dos maiores erros de política externa do Presidente Jimmy Carter.

A França, com fortes interesses no mercado do crude soube aproveitar, e após dar exílio político a Khomeini, manteve uma postura no mínimo dúbia que permitiu o regresso em força do xiita.

O resultado está à vista: desde que o khomeinismo se instalou no Irão, o retrocesso civilizacional foi enorme. Sendo que os actos de violência hoje relatados em toda a comunicação social mundial, com especial enfoque na perseguição do governo iraniano aos líderes da oposição, serão mais um capítulo da herança sangrenta e castradora que a vitória xiita representou no rumo do Irão.

Infelizmente, uma das vantagens de se ser super-potência é que os erros são quase sempre pagos pelos outros.

Irão: Um Prenúncio de Morte – 2

Uma obrigação clara: ajudar e reforçar, com todas as nossas forças, a sociedade civil iraniana em revolta” – Bernard-Henri Lévy no i de hoje.

Sou um leitor atento da prosa de Bernard-Henri Lévy e é com enorme prazer que o leio no i todas as quartas. Ainda agora nas férias voltei a reler o seu “Vertigem Americana”, um livro fundamental para compreender a actual sociedade americana. “Mais do que nunca com o povo iraniano” é o título do seu artigo merecedor de leitura atenta. Colocando o dedo na ferida, explicando que Mousavi foi o mal menor para o eleitorado do Irão. Continuo a bater na mesma tecla. As mulheres e os jovens do Irão estão, paulatinamente a construir a mudança, a sangue, suor e lágrimas. Por isso mesmo, estas eleições fraudulentas são o prenúncio de morte do actual regime iraniano.

Irão / Iran

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(lista em actualização).

Um Prenúncio de Morte

Estas eleições (?) no Irão marcam o princípio do fim do actual regime iraniano. Não tendo tido hipótese de perguntar à Maya a data, ao certo, para a queda do dito, terei de me socorrer de casos históricos similares. Porém, como estamos no século da velocidade da luz, quero crer que mais dia menos dia, mais ano menos ano, assim será.

Uma sociedade onde a maioria da população é jovem e, entre estes, grande parte estuda na universidade, tendo acesso à cultura e ao saber, só pode levar a um outro tipo de regime. Mais livre, respeitador dos Direitos do Homem, onde a mulher é vista como igual e a Liberdade de Expressão um dos seus principais pilares. Alguns dirão: “do tipo Ocidental”. Não, não cometam o erro de colar rótulos arcaicos. Quando o actual mundo ocidental mergulhava nas trevas, na chamada Idade Média, os bisavôs destes jovens que hoje se manifestam em Teerão antecipavam o Renascimento.

Por isso, o problema não está em saber se Ahmadinejad ganhou ou não as eleições, se estas foram livres ou uma valente fraude ou não estivesse o Diabo nos detalhes. A única dúvida é saber se é já amanhã ou apenas depois de amanhã que a onda verde iraniana, encabeçada pelos jovens universitários e pelas mulheres iranianas, se transforma em tsunami e varre de vez a actual república islâmica.

Terminaram as férias…