Os Açores, Kissinger e velhos projectos


Parece existir uma certa surpresa pela notícia hoje divulgada pelo Público e que se refere a um projecto de ocupação dos Açores pelos EUA, durante o auge do PREC de 1975.

Esta possibilidade existe há perto de 120 anos e a primeira vez que dela se ouviu falar nas chancelarias europeias, foi nos finais do século XIX, quando após uma rápida guerra de surpresa contra a Espanha, os americanos arrebataram Porto Rico, Guam e as Filipinas, ao mesmo tempo que estabeleciam um protectorado em Cuba. A Doutrina de Mahan, bem alicerçada naquela outra que serviu e ainda se faz valer no Hemisfério Ocidental, impôs a ascensão dos Estados Unidos à condição de grande potência naval. A aquisição de bases que servissem como perímetro de defesa, foi talvez a primeira consequência da vitória sobre os espanhóis, também impedindo aquilo que já se tornara num princípio básico do sucesso de qualquer esquadra em batalha: a logística e o controlo das rotas marítimas intercontinentais. De facto, a distância que separava as armadas europeias dos seus portos metropolitanos, consistia no problema que durante séculos obcecou todas as potências marítimas, tendo sido Portugal, a primeira delas a construir um rosário de pontos de apoio costeiros e insulares que pontilharam o Atlântico, Índico e Pacífico ocidental. A Inglaterra compreendeu o conceito e estendeu o seu domínio a Gibraltar, malta, o Chipre, Suez, Freetown, Golfo da Guiné, Santa Helena, Ascensão, ao Cabo, Zanzinbar, o Hadramaut, Bahrein, Ceilão, Penang, Singapura e Hong-Kong.

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Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido. Mário Soares nos Estados Unidos

continuação daqui

«Mas se a 17 e 18 de Janeiro Mário Soares tivera ensejo de agradecer na Dinamarca o apoio recebido da famíia socialista, logo a seguir, a 19 de Janeiro, seguiria comigo para os Estados Unidos, para uma visita de duas semanas. Apesar de a visita ter um carácter privado, uma vez que, em Janeiro de 1976, Mário Soares não era membro do Governo, viagens e estadias seriam pagas pelos Estados Unidos. O convite partira de Frank Carlucci e o programa da visita seria preparado em pormenor pelo conselheiro da Embaixada, Richard Meton. Incluía o primeiro de uma série de «doutoramentos» políticos na Universidade de Yale, sob os auspícios do prgrama Chub Fellow, visitas às comunidades portuguesas de Massachussets, um encontro com o senador Ted Kennedy, encontros com o New York Times e o Washington Post para conversas «off the record», uma (então) inédita entrevista numa cadeia de televisão traduzida em simultâneo e um encontro no Departamento de Estado com Henry Kissinger, a 26 de Janeiro. [Read more…]

Kissinger- Clínton

Kissinger-Clinton

A Newsweek traz um diálogo entre Kissinger e Hillary Clinton. Tudo paleio de chacha, daquele que estamos fartos de ouvir desde Nixon e mesmo antes. A conversa de Kissinger cheira a ranço. As tretas de Clinton cheiram a requentados em micro-ondas.

Mas numa coisa, apenas, me detive. Diz Kissinger, aquele Nobel da Paz (?!), amigo de Soares, que foi um dos principais responsáveis pelo vergonhoso e sujo golpe do Chile, e pelo assassínio de tanta gente bem intencionada, boa e pacífica, que, terminar a guerra, passou a ser considerado, segundo muitos, como a retirada das forças, única estratégia de saída. Ou então, segundo este santo estratega, após a vitória pelas armas, ou a vitória decorrente da diplomacia ou da extinção da guerra a pouco e pouco.

Coitados, andam todos a tentar sair de cara lavada, desta fossa onde se enfiaram e enfiaram o mundo. Mas não há detergente capaz de limpar a merda que vão deixar nas páginas da história. [Read more…]

O preço dos erros

O caso iraniano, é mais um exemplo do preço dos erros que se cometem. Um preço com elevados custos humanos.

Se em tempos idos os EUA tivessem dado melhor atenção ao Xá Reza Pahlavi, muito do que se passa agora no Irão, e do que já se passou, ter-se-ia evitado.

 Apesar da sua concepção autocrática, Reza Pahlavi promoveu a modernização do Irão com a laicização do Estado, a igualação de direitos entre homens e mulheres, dinamizou as artes e as mentalidades imprimindo um forte cunho ocidental. O Xá estabeleceu os fundamentos para a estanquicidade do avanço do clero xiita e a delimitação das influências muçulmanas, ao mesmo tempo que travava as influências soviéticas junto da Jordânia e da Síria, de modo a permitir um melhor equilíbrio geopolítico naquela região.

Acontece que Reza Pahlavi quis libertar-se do jugo norte-americano, começando a estabelecer as suas próprias cotações de crude. Porque percebeu que só verdadeiramente autónomo é que poderia construir o Irão moderno e de matriz ocidental que tanto ambicionava. Mas com isso feriu os interesses das companhias petrolíferas norte-americanas, e os EUA fizeram aquilo a que já nos habituaram: deixaram cair quem já não lhes era útil no imediato, sem medir as consequências no médio e longo prazo.

O próprio Kissinger apercebeu-se da importância vital que seria sustentar o Xá, dando-lhe mais e melhor apoio político e militar. Disso deu a devida conta em Washington DC, mas de nada adiantou: como sempre os interesses corporativos do petróleo falaram mais alto. Foi um dos maiores erros de política externa do Presidente Jimmy Carter.

A França, com fortes interesses no mercado do crude soube aproveitar, e após dar exílio político a Khomeini, manteve uma postura no mínimo dúbia que permitiu o regresso em força do xiita.

O resultado está à vista: desde que o khomeinismo se instalou no Irão, o retrocesso civilizacional foi enorme. Sendo que os actos de violência hoje relatados em toda a comunicação social mundial, com especial enfoque na perseguição do governo iraniano aos líderes da oposição, serão mais um capítulo da herança sangrenta e castradora que a vitória xiita representou no rumo do Irão.

Infelizmente, uma das vantagens de se ser super-potência é que os erros são quase sempre pagos pelos outros.