Apontamento (Festival Literário da Madeira)

Antena 2 em directo da ilha da Madeira, um festival literário que lá decorre: escritores em volta de uma mesa a falar da literatura da insularidade, Herberto Helder sempre por perto, o jornalista Luís Caetano (exímio nas coisas da literatura) a suscitar um debate em directo para a rádio pública, e de repente alguém, decerto um escritor madeirense, insurge-se e lembra que a diáspora é hoje uma hemorragia, ou então metástases, sim, metástases da austeridade assassina, e diz que há ilhéus que cortam os pulsos, e que aquele festival literário é uma ilusão na biografia da fome e do sofrimento da Madeira. E logo o calam, claro, como se na literatura não pudesse hoje caber a realidade social que os escritores bem vêem (e vivem, e escrevem), ou os seus realismos passados fossem inultrapassáveis, e fosse hoje tempo apenas e somente de uma fantasia qualquer que sirva para entreter. Palmas para o escritor «sem frio nos olhos», como diriam os franceses.

A doença

a doença

Há quem pense que estar doente é o sal da vida: não é preciso trabalhar, por baixa não prolongada, as entradas salariais não diminuem, as queixas de não se estar bem elevam a piedade dos outros, até ao dia em que, por ser prolongada, a piedade acaba dando lugar ao cansaço e é-se enterrado em vida. Fica-se só e sem albergue, sem pessoa que acuda, separado dos outros porque a perturbação mental ou corporal, não lhes é agradável, apesar de se querer ter amigos que acompanhem e aprendam a andar a passo lento, esse que a doença permite. A vida segue o seu curso, as pessoas passeiam e fica-se em casa à espera, à espera da mão que nos resgate da solidão das solidões: de se ser um ser à parte e ser uma perturbação para os outros. [Read more…]

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