Coimbra, maré baixa

Quando era professor na E.S. Jaime Cortesão, dizia que tinha o privilégio de trabalhar num monumento e ter o melhor pátio de recreio que podia desejar, a Baixa de Coimbra. Já nos meus tempos de estudante e durante muitos anos foi a minha “sala de estar”, como a de muitos amigos. Os cafés e esplanadas – onde todos éramos democraticamente promovidos a doutores a partir dos dezoito anos – , onde as palavras voavam livres e aprendíamos mais que nos bancos da Universidade – e, por vezes, os mestres eram os mesmos -, mesmo em frente da porta de algumas das melhores livrarias do país, os livros lidos à sombra benévola dos velhos prédios da Ferreira Borges e da Visconde da Luz – “Faltou a luz na rua Visconde da mesma”, lembram-se? -, às vezes encadernados para não despertar curiosidades duvidosas, o copo e o petisco num daqueles lugares que talvez não passasse hoje numa vistoria da ASAE, enfim, um habitat propício ao desenvolvimento mental da espécie. Tudo quanto foi importante, passou por ali: manifestações, lutas, festas, vida, enfim. Até há não muito tempo.

Baixa de Coimbra, Maio de 2018 (foto: jmc)

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Portugal, Agosto de 2015

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Naufrage | Maria Helena Vieira da Silva, 1944

Há cada vez mais pessoas que vasculham nos caixotes do lixo. Já não têm vergonha, já só têm fome: abrem os contentores e enfiam-se quase inteiras lá dentro. Há aquela velhota que pede cigarros. Dizem-me que é para o marido. Que interessa para quem são os cigarros? Há o homem que suplica à porta do supermercado por qualquer coisa para dar de comer aos filhos, o corpo de pedir todo curvado, os olhos lacrimejantes, a miséria e a desolação espelhada neles. Nas ruas abandonadas pelos que foram de férias, ficaram os mais pobres de todos. Já no ano passado foi assim, mas este é pior, há mais que ficaram, mais pobres e mais tristes, muitos doentes, a querer morrer, adoecidos pela tristeza e pela impotência, já depois da indignação. E lembro-me de como era Portugal no início dos anos 1970. Era assim triste, desolado, miserável, e os portugueses pareciam náufragos, como estes que vejo abandonados pelos poderes em Agosto de 2015.

Licínia vive aqui

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(c) Daniel Rocha/Público

Mosteiro de Santa Clara

Convento durante 500 anos, reformatório de menores, escola profissional, projecto de pousada. Quase 700 anos de história ao abandono.

Apontamento (Festival Literário da Madeira)

Antena 2 em directo da ilha da Madeira, um festival literário que lá decorre: escritores em volta de uma mesa a falar da literatura da insularidade, Herberto Helder sempre por perto, o jornalista Luís Caetano (exímio nas coisas da literatura) a suscitar um debate em directo para a rádio pública, e de repente alguém, decerto um escritor madeirense, insurge-se e lembra que a diáspora é hoje uma hemorragia, ou então metástases, sim, metástases da austeridade assassina, e diz que há ilhéus que cortam os pulsos, e que aquele festival literário é uma ilusão na biografia da fome e do sofrimento da Madeira. E logo o calam, claro, como se na literatura não pudesse hoje caber a realidade social que os escritores bem vêem (e vivem, e escrevem), ou os seus realismos passados fossem inultrapassáveis, e fosse hoje tempo apenas e somente de uma fantasia qualquer que sirva para entreter. Palmas para o escritor «sem frio nos olhos», como diriam os franceses.

Combate ao abandono escolar por Daniel Sampaio

A redução do abandono escolar é uma conquista, mas não pode fazer esquecer a realidade do insucesso, da indisciplina e das dificuldades emocionais que, infelizmente, caracterizam o quotidiano de muitas crianças e jovens das nossas escolas. Por isso, não pode estar certa a ideia de dispensar, por exemplo, cem professores, muito menos a de mandar para o desemprego dezenas de milhares. A não ser que se deseje ficar mesmo sem professores.

Na Revista do Público de hoje, um artigo de Daniel Sampaio que vale a pena ler.

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Um país em estado de alerta

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O Vendaval passou. Ao início da manhã de sábado tentei ligar para os meus pais, que moram numa aldeia com nome de erva para pastagem, ali ao lado do Louriçal, a segunda maior freguesia desse concelho-charneira que é Pombal. Foi lá que eu cresci. Quando era menina a luz eléctrica ainda não era ainda para todos, nas aldeias à volta. E muitas vezes a fragilidade do sistema deixava-nos serões de lareira e candeeiro a petróleo. A água chegava às torneiras através do poço no quintal, o telefone era quase exclusivo do posto público e nem nos filmes a preto-e-branco se falava de internet. Portugal, década de 70, portanto.

Na cidade, a luz, a água, o telefone e a internet foram-se nas primeiras horas da manhã. A maioria das estradas ficou intransitável e pejada de troncos de árvore, tombadas pelo vento. Desta vez, o resto não foi o que se sabe, porque se sabe muito pouco do que aconteceu. Na era dos contactos, os jornalistas souberam muito pouco, pois que sem telemóvel nem net, não se vai a lado nenhum. Mas à medida que passaram as horas e voltaram as comunicações foram pingando fotografias por toda a parte, e então foi possível perceber o estado de calamidade, anunciado desde sexta-feira. [Read more…]

as mortes da doença

a solidão é outra forma de morte

Nunca, mas nunca, pensei que uma doença pudesse ter tantas mortes e todas elas diferentes. De índole diferente. Conhecia apenas uma, a que todos sabem: a do corpo que fica sem alma como definiam os gregos clássicos antes da nossa era. Ou essa morte física em que a alma, como define Agostinho de Hipona no seu texto As Confissões, do ano 398, editado primeiro em pergaminho, para passar a suporte de papel a partir do Século XVI, editada a versão, que guardo comigo, em 1937 por Thomas Nelson & Sons, Ltd, London, Edinburgh, Paris, Melbourne, Toronto e New York; não é a mais antiga, mas sim, após pesquisa na Biblioteca da minha Universidade de Cambridge, a que usa o significado das palavras latinas da época traduzidas para o inglês antigo: Great art Thou, and greatly tobe praised; great is Thy power, and Thy winsdom infinite, morre pelas ofensas causadas à Divindade que a tinha criado. Em XIII pergaminhos, confessa publicamente os seus pecados e manifesta o seu arrependimento, afirmando estar certo de gastar muito da eternidade às portas do paraíso (o Purgatório ainda não tinha sido criado, pois surge no Concilio de Trento, Século XVI, após a separação das

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os amigos

mãos solidárias e recíprocas, símbolo de que dá e nada solicita

Amigo é um substantivo muito usado nas conversas do dia-a-dia. Apesar de estar definidos en todos os dicionários, acaba por ter uma séria de significados. O que me parece menos meigo, é quando a palavra é usada em detrimento de outras pessoas: oiça meu amigo, é melhor ir embora e deixar-nos em paz. Ou, se o substantivo é usado como apelativo: hei amigo, ande cá…. Ou, mais grave ainda, se referimos alguém de importância na vida social, na sua ausência: esse deputado é muito meu amigo, confie em mim… Ou o candidato a Presidente da República, o Primeiro-ministro, o nosso chefe, são incluídos na conversa como pessoas da nossa intimidade. Durante uma época da minha vida, fui enviado ao Chile pelo meu Catedrático da Universidade inglesa onde estudava e ensinava, houve um alçamento militar e o nosso Presidente foi assassinado, como tenho referido em outros ensaios de este sítio de debate; o meu Chefe, sabia o que era um campo de concentração, tinha passado quatro anos em Auschwitchz, (Auschwitz-Birkenau é o nome de um grupo de campos de concentração localizados no sul da Polónia, símbolos do Holocausto perpetrado pelo nazismo. A partir de 1940 o governo alemão comandado por Adolf Hitler construiu vários campos de concentração e um campo de extermínio nesta área, então na Polónia ocupada. Houve três campos principais e trinta e nove campos auxiliares). Bem sabia Sir Jack Goody o que eu [Read more…]