Lettres de Paris #4
29/10/2016 by Elisabete Figueiredo
Vejo na televisão (que só tem canais em francês) que se as eleições presidenciais em França fossem hoje, Marine Le Pen teria 28% dos votos. Alain Juppé a mesma percentagem. Aflige-me que Le Pen esteja em primeiro nas intenções de voto. Como me aflige, malgré tout, que apenas 9% dos franceses declarem que votariam em Hollande. Não é que tenha especial simpatia por ele, mas tenho seguramente menos por Le Pen e por Juppé. De facto anunciam agora mesmo na tv, enquanto em rodapé passa a notícia de um novo desmantelamento da ‘jungle’ de Calais*, a insatisfação dos franceses com Hollande. Não é à toa que a direita sobe nas intenções de voto, quando na televisão, nos canais de notícias, aparecem constantemente as imagens da dita ‘jungle’. Aliás, só o nome é já todo um programa ideológico.
Em Paris há muitos sem-abrigo e pedintes. Hoje, por exemplo, vi um homem deitado ao comprido no cruzamento da Rue Danton com o Boulevard Saint-Germain. Ali, estendido, descalço, enquanto à sua volta a cidade se movimentava indiferente. Olhei para o homem e baixei-me, mas parecia estar a dormir, talvez bêbedo, talvez apenas cansado da selva que podem ser as cidades. Sendo que Paris, apesar de toda a sua beleza, não é uma exceção. À saída do supermercado, um homem disse ‘Madame, vous n’avez pas un euro?’. Não lhe dei o euro, mas agora penso que talvez devesse ter-lho dado. Afinal o que é um euro, numa cidade onde um café, de qualidade muito duvidosa, custa, no mínimo, 2,5 euros ou uma água de 50 cl custa mais de 4? Não lhe dei o euro porque vinha carregada de sacos de compras, que com dificuldade transportei até casa. Podia ter-lhe dado uma maçã, mas talvez a não quisesse.
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Lettres de Paris #3
27/10/2016 by Elisabete Figueiredo
Le monde est tout petit
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Esta é uma carta curta, como ontem prometi que vão ser a maior parte das cartas de Paris. Fui hoje ao centro de investigação onde terei um lugar e uma secretária. A minha colega trabalha sobretudo a partir de casa, como a maior parte dos outros colegas, mas eu creio que preferirei trabalhar lá, mesmo porque a minha ligação vpn à universidade de Aveiro não quer funcionar no meu computador e, bem, a partir de lá tudo será – espero – mais fácil. Digo espero porque hoje apenas reuni com a Aline. Ideias há bastantes, não sei se haverá tempo para as concretizar. Mais tempo dela, quero dizer, que anda muito atarefada com o trabalho de campo.
Fui, então, à hora combinada à Rue Vallete. Fui devagar, chovia, eu tinha tempo. Parei no café ao fundo da rua – Le Metro – e comi un croque madame. Depois subi a rue des Carmes e a seguir, já na Rue Valette entrei no LADYSS. As pessoas parecem-me todas simpáticas. Parece-me que apreciam igualmente o meu esforço para falar francês, mesmo se falo com imensos erros, sobretudo dos tempos verbais. Acho que acabarei por melhorar isso. A reunião com a Aline foi toda em francês, mesmo porque ela deixou bem claro, desde o início que se recusava a submeter-se à ditadura do inglês. De facto, publica – como atualmente a maioria dos franceses – sobretudo em francês. Podia ter começado um debate com ela sobre a importância de haver uma língua comum, na qual possamos entender-nos, mas depressa compreendi que não valia a pena.
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Lettres de Paris #2
26/10/2016 by Elisabete Figueiredo
Mon coeur qui bat
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Vou passar a escrever cartas pequenas, sobretudo porque estou aqui para trabalhar, embora Paris tenha distrações para me entreter para o resto da vida. A própria cidade, com os seus recantos, cafés, esplanadas, fontes, pontes, monumentos e o Sena. Devia dizer A Sena, visto que em francês o Sena é feminino e compreende-se.
Saio da Maison Suger já passa bastante do meio dia. Dormi mal e pouco. Quando me levanto e abro a janela, vejo o sol e o céu azul e animo-me, apesar do cansaço. Percorro a Rue Suger até encontrar a Place Saint-André des Arts e logo depois a Place Saint-Michel. Fico um bocadinho a admirar este domingo nas duas praças e atravesso a estrada para a Pont Saint-Michel. Ali está A Sena e ali está a Catedral de Notre Dame e ali está esta paisagem tão familiar de quase todos, mesmo daqueles que nunca aqui vieram. Peço a uma rapariga loira que me tire uma fotografia. Ela tira mas aconselha-me (deve ter sido por causa da máquina) a ‘faire attention aux pickpockets’. Rio-me e digo-lhe que sim, farei. Não é que faça, na verdade, quero dizer, não ando na rua a pensar que vou ser assaltada. Até hoje só fui assaltada uma vez e foi na minha própria cidade, dentro de um supermercado.
Deixo a rapariga e os seus conselhos e atravesso a ponte. Percorro os poucos metros que me separam da Notre Dame e constato que não há muitos turistas. Quase nenhuns, o que me agrada. Volto a atravessar para o outro lado, na Petit Pont, mesmo em frente à belíssima livraria Shakespeare & Company. Entro um bocadinho e ponho-me a folhear A Moveable Feast (em português Paris é uma Festa) do Hemingway, numa versão supostamente revista. Talvez o compre e o releia na língua em que foi escrito. Mas hoje não comprei nada, a não ser comida e um bilhete de cinema. Da livraria vou pela Rue Saint-Julien Le Pauvre, passo a igrejinha onde se concentram, à entrada, as pessoas que saem da missa e aprecio a calma de Paris, neste domingo com sol e céu azul. Mais à frente bebo um café na esplanada do San Severin, mesmo diante da igreja com o mesmo nome, e tenho mesmo que tirar o casaco, por causa do sol que me bate em cheio.
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Lettres de Paris #1
25/10/2016 by Elisabete Figueiredo
I guess this is my lucky day
Esta carta começa antes de Paris. Em Amsterdão, onde dormi até quase às 10 da manhã, tranquilamente, junto ao Amstel e à Magere Brug. As senhoras da receção hoje parecem-me mais simpáticas, sobretudo depois do pequeno almoço, quando me dizem que arranjaram um homem forte para me carregar a mala. De facto, o rapaz era gigante e louro e carregou-me a mala pelas escadas abaixo sem um ai nem um ui. Deduzi, portanto, que as senhoras da receção teriam razão. Apanhei um táxi para a estação, mas afinal fui até ao aeroporto de Schiphol com ele. Fez-me um preço camarada, um pouco mais caro do que custaria o bilhete de comboio e a corrida até Amsterdam Centraal.
Cheguei ao aeroporto, apesar de ter já feito o check in online com bastante antecedência. O peso da mala preocupava-me. Efetivamente, os mesmos 25 quilos com que saí de Lisboa. A menina do drop off informou-me que teria de pagar uma exorbitância (nem vos digo quanto, por vergonha) pelos dois quilos a mais. Disse-me que fosse ao cashier da KLM pagar a exorbitância. A mala ficou com ela, para meu alívio. Quando cheguei ao balcão do cashier, ia danada comigo mesma e com os dois quilos a mais e com a exorbitância. O homem estende-me um novo cartão de embarque e diz que não tenho de pagar nada. Surpreendo-me. E ele diz que no ‘sistema’ (whatever that means) estão registados ‘apenas’ 23 quilos. Eu digo que não é possível, que a menina do drop off me mandou ir ali pagar. Ele insiste que está tudo em ordem. Eu repito que tenho de regressar à menina com o comprovativo do pagamento. O homem consulta uma senhora alta e loira que deve ser a chefe. Ela diz que não me preocupe, que o que está registado no ‘sistema’ é que conta. Acompanha-me à menina do drop off. Confirma-se que apenas registou 23 quilos. Diz que o erro foi dela. A chefe diz-me que vá para as portas de embarque e não me preocupe. Eu agradeço-lhe e digo ‘I guess it is my lucky day’. Ela ri-se e deseja-me boa viagem. Eu penso ‘bendito sistema’ que me fez poupar uma exorbitância.
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