Lettres de Paris #1


I guess this is my lucky day

Esta carta começa antes de Paris. Em Amsterdão, onde dormi até quase às 10 da manhã, tranquilamente, junto ao Amstel e à Magere Brug. As senhoras da receção hoje parecem-me mais simpáticas, sobretudo depois do pequeno almoço, quando me dizem que arranjaram um homem forte para me carregar a mala. De facto, o rapaz era gigante e louro e carregou-me a mala pelas escadas abaixo sem um ai nem um ui. Deduzi, portanto, que as senhoras da receção teriam razão. Apanhei um táxi para a estação, mas afinal fui até ao aeroporto de Schiphol com ele. Fez-me um preço camarada, um pouco mais caro do que custaria o bilhete de comboio e a corrida até Amsterdam Centraal.
 
Cheguei ao aeroporto, apesar de ter já feito o check in online com bastante antecedência. O peso da mala preocupava-me. Efetivamente, os mesmos 25 quilos com que saí de Lisboa. A menina do drop off informou-me que teria de pagar uma exorbitância (nem vos digo quanto, por vergonha) pelos dois quilos a mais. Disse-me que fosse ao cashier da KLM pagar a exorbitância. A mala ficou com ela, para meu alívio. Quando cheguei ao balcão do cashier, ia danada comigo mesma e com os dois quilos a mais e com a exorbitância. O homem estende-me um novo cartão de embarque e diz que não tenho de pagar nada. Surpreendo-me. E ele diz que no ‘sistema’ (whatever that means) estão registados ‘apenas’ 23 quilos. Eu digo que não é possível, que a menina do drop off me mandou ir ali pagar. Ele insiste que está tudo em ordem. Eu repito que tenho de regressar à menina com o comprovativo do pagamento. O homem consulta uma senhora alta e loira que deve ser a chefe. Ela diz que não me preocupe, que o que está registado no ‘sistema’ é que conta. Acompanha-me à menina do drop off. Confirma-se que apenas registou 23 quilos. Diz que o erro foi dela. A chefe diz-me que vá para as portas de embarque e não me preocupe. Eu agradeço-lhe e digo ‘I guess it is my lucky day’. Ela ri-se e deseja-me boa viagem. Eu penso ‘bendito sistema’ que me fez poupar uma exorbitância.
 

Ando a passear uma mala com quilos a mais desde Lisboa e tenho-me safado sem pagar pelo excesso, por bondade ou por incompetência de outros. Nada mal. Mas já decidi que na volta a mala não vai pesar nem um quilo a mais. Se soubessem (e talvez saibam) o preço do quilo nas companhias áereas, estou segura que compreenderiam a minha decisão. Apanho o avião quase à hora certa. O voo é curto, menos de uma hora. No aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, apanho o trambolho com excesso de peso que chegou são e salvo, como eu. Devagar (que remédio) dirijo-me para a estação do RER B que me deixará na estação Saint-Michel – Notre-Dame em mais ou menos meia-hora. Antes de entrar no comboio constato desolada a antipatia estúpida das meninas das informações. Fico chateada porque tenho, assim, de dar razão a quem diz que os franceses são antipáticos. A irritação passa-me, no entanto, quando chego à estação de Saint-Michel e um homem das informações me carrega a mala dois lances de escadas até à rua. Ou melhor, até à Place Saint-Michel. Reconcilio-me rapidamente com os franceses, pois.
 
Mal saio das profundezas, reconheço tudo. A praça, a fonte, os cafés, o quiosque de tabaco, a patisserie Saint-André des Arts, a rua com o mesmo nome, onde havia uma velhota que vendia baguettes, as livrarias, a entrada do metro, o café Saint Severin… está tudo no mesmo sítio como há dois anos. Respiro o ar de Paris e sou contente, apesar do trambolho que tenho de levar até à Rue Suger, logo ali, valha-me ao menos isso. A Rue Suger está igualmente na mesma. Estreita, calma, com os seus edifícios de grandes portas e, claro, com a imponente Maison Suger, para onde vou. E onde estou. marco o código da entrada e a gigantesca porta abre-se. Marco depois no telefone no meio das ‘boites a lettres’ o número do guarda. Ele aparece dali a instantes e entrega-me as chaves do estúdio e a papelada. Subo no elevador, onde um papel me informa do estado de emergência instalado (que eu desconhecia), das precauções a ter, com um cabeçalho que diz ‘Alerte Atentat’. Também no terraço do terceiro piso está um papel que diz que por causa do estado de emergência, os terraços permanecerão fechados.
 
O estúdio é pequenino, mas tem tudo. Frigorífico, fogão, lava louças. casa de banho, uma grande secretária, uma televisão que não consigo fazer funcionar, um telefone, uma cama, uma estante, onde já pus alguns livros que trouxe, um armário onde já guardei a roupa. E uma janela grande, de onde se vê o Lycée Fénelon. Vão mudar-me no fim do mês para um estúdio um pouco maior, no primeiro andar, com janela também ainda maior diretamente para a Rue Suger. Tenho um número de telefone fixo e uma ‘boitte a lettres’ com o meu nome escrito (e aceito receber postais). Não há mais nenhum português na lista de pessoas que habitam os estúdios neste momento. Italianos, espanhóis, polacos, americanos, canadianos, senegaleses, brasileiros… e eu. Também nenhum estuda coisas relacionadas com o rural. Mas tenho curiosidade de me cruzar com os outros habitantes. Antes de ver a lista, voltei à rua e à praça e encontrei uma mercearia na Rue Danton, logo ao virar da esquina. Comprei coisas para comer e a seguir fui à velhota da Rue Saint-André des Arts e comprei uma demi-baguette. Antes de voltar para casa e arrumar os 35 quilos de coisas que trazia comigo, sentei-me numa esplanada a beber um ‘chocolat chaud’ e a fumar um cigarro, enquanto contemplava a Place Saint-André des Arts e a Place Saint-Michel, numa azáfama de gente. As luzes de Paris estavam já acesas e eu estava contente, como antes.
 
Voltei para a Maison Suger com os sacos das compras e arrumei-as, tal como o resto da tralha. Tudo está no seu lugar, neste sítio temporário. Jantei roquefort e chèvre, com figos e uvas e pão. Sumo de laranja. Café português feito na cafeteira que veio desde Portugal e bolachas de água e sal com o doce de tomate que a minha mãe fez e é divino e por isso veio também de Portugal. Faltou-me um copo de vinho tinto, é verdade. Mas não tinha. Segunda feira logo irei ao Monoprix mais próximo (creio que no Boulevard Saint-Michel, no cruzamento com a Rue Pierre Sarrazin). Amanhã vou conhecer melhor o meu bairro, o Quartier Latin, no 6éme arrondissement. Estou contente de aqui estar, a ouvir o ruído (pouco, que a rua é sossegada) que entra pela grande janela do meu pequeno estúdio. Neste momento, para mim, Paris é uma Festa, como no livro do Ernest Hemingway que li há mais, de 30 anos. Amanhã logo se vê.
 
Bonne nuit.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    22,5 quilos??!! De quê?
    Eu quando faço uma viagem de menos do que uma semana apenas levo a minha mochilinha, que vai comigo na cabine do avião, e que pesa não mais de 5 quilos.

    • Nascimento says:

      A maquina de café é muiiiita pesada! 25 KILOS???Livra… e já agora vá lá á Place des Vosges e mande um abraço ao Hugo( se tiver tempo) . Aproveite e dê uma olhadela na Maison Européenne de la Photographie. Para mim é como ir á ” missa”.
      Se fica por aí até dia 9 é imperdivel : Harry Callahan…é uma ideia !eheheheh

      • Nascimento, por acaso nem seria o que pesava mais, não é uma máquina, mas uma cafeteira de pressão. Obrigada pelas sugestões. Hei-de seguramente ir à Maison Européenne de la Photographie. Depois lhe contarei. E eram 25 quilos no trambolho grande e mais uns 10 na mala de cabine. Uma fartura de coisas que, a bem dizer, para 3 meses, não são assim tantas. Já estou enjoada dos casacos que trouxe e só estive 4 dias na Holanda e outros 4 aqui….😦 Mas bem, na verdade, o enjoo dos casacos é um pormenor…

    • Luís… pois, eu também costumo viajar levezinha, quando é uma semana ou menos. Mas trata-se de uma estadia de 3 meses… daí os 25 quilos.

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