Lettres de Paris #75

«There is never any end to Paris»

Este slideshow necessita de JavaScript.

assim chamou Hemingway a uma parte de ‘Paris é uma Festa’ (A Moveable Feast, no original). Hoje que é a última noite que passarei em Paris após 3 meses, mas sei que também para mim Paris não acaba aqui. Que hei-de voltar, embora por menos tempo. Porque se volta sempre a Paris, porque é impossível não querer voltar a Paris. Estou um bocado triste, é verdade, ou não será bem tristeza, mas uma certa melancolia, que não é a mesma coisa, de deixar a cidade onde vivi nos últimos tempos. Foi por pouco tempo, bem sei, mas ainda assim, constroem-se rotinas, criam-se laços, frequentam-se sítios, reconhecem-se cantos e lugares e de repente tudo isso deixará de existir e será substituído por outros sítios, outros cantos, outros laços, outros lugares, outras rotinas, que me são muito familiares. Penso que as retomarei sem esforço. Voltar a casa também tem os seus encantos. Mas, como já escrevi numa das cartas anteriores, nos primeiros dias será difícil não estar aqui, sei-o bem.

 

[Read more…]

Lettres de Paris #74

«Nós… pimba!»

Este slideshow necessita de JavaScript.

acordei, acreditem ou não, com alguém do lado de fora da janela a cantar «e se elas querem um abraço ou um beijinho, nós… pimba, nós… pimba!». Fiquei momentanemante mais baralhada do que já sou quando acordo. E estou a ser simpática para comigo mesmo, quando digo que acordo ‘baralhada’. «Nós pimba?» pensei meia estremunhada. A pessoa, um homem, continuava a cançoneta do lado de lá da janela e eu levantei-me, abri as cortinas, abri uma fresta pequenina da janela, porque estou outra vez constipada (deve ser o meu corpo a ter uma reação alérgica ao meu regresso a Portugal, obviamente), entraram menos 3 ou 4 graus para dentro do quarto, mas assim mesmo, meti o nariz de fora para identificar o cantor. Acontece que era um rapaz, empoleirado nos andaimes do prédio em frente, a trabalhar com umas ferramentas esquisitas e armado em artista do Olympia. Meti-me para dentro, nunca suspeitei que os trabalhadores da obra em frente fosse portugueses, mesmo porque juro que já tinha ouvido um rádio em altos berros com canções que me pareceram árabe, mas posso estar enganada e estar já tão desusada de ouvir falar português à minha volta que quando ouço me parece árabe.
Seja como for, o rapaz continuou o seu trabalho, acrescentando ao repertório outras músicas igualmente de fino recorte, que eu não consegui identificar. Fui tomar o pequeno almoço, com o nariz completamente entupido e a lamentar que a constipação… pimba!… tenha aparecido outra vez e eu ainda para mais sem cêgripes. Quando saí passei na farmácia e deram-me uma coisa qualquer homeopática. A ver. Já tomei dois, conforme as instruções e não me sinto particularmente melhor. Uma parte do dia passou entre fungadelas e espirros e assoadelas de nariz, alguma tosse. Até que às duas e meia apanhei o 27 e fui ter com a Anne-Marie à entrada do metro da Opéra. Foi a primeira vez que vi, neste tempo todo, o fantástico edifício à luz do dia. Já o havia visto também assim, de outras vezes, mas desta foi uma estreia. O edifício é lindo, realmente, tal como Café de la Paix ali ao lado. Lindo e bastante caro, diga-se. Mas vale a pena lá entrar ao menos uma vez. Não foi hoje, já tinha feito isso outro dia. Eu e a Anne-Marie fomos a um café mais modesto, ali ao lado. Não conhecia pessoalmente a Anne-Maria, apesar de já ter trocado emails com ela e gostei bastante de a conhecer. Falámos de trabalho, de Paris, de Lisboa, da França, de Portugal e da vida em geral e quando dei por mim, pimba, já passava das quatro e meia e a luz do dia estava a desvanecer-se. Lá se iam os meus planos de me despedir às claras de aguns dos sítios de que mais gosto em Paris.

[Read more…]

Lettres de Paris #72 et #73

Le jour avant le jour avant le jour avant le jour que je dois quitter Paris

Este slideshow necessita de JavaScript.

são os meus últimos dias em Paris e receio bem que esta vai ser uma despedida difícil. Que voltar à rotina, a uma pequena cidade onde pouco acontece em termos culturais, pouco que valha a pena, quero dizer, ou melhor, pouco que me agrade se assim quisermos colocar as coisas… que deixar de ver o Sena quase todos os dias, que deixar de ver a pequena Place Saint-Andre-des-Arts todos os dias, que deixar de dizer Bonjour à estátua de Monsieur Montagne e de lhe tocar levemente no pé dourado muito amiúde, que deixar de ver a torre da Sorbonne, que deixar de comer os eclairs au caramel da Pradier, que deixar de ver as montras da Compagnie, que deixar de comer confit e magret de canard, que deixar de percorrer a pé e de autocarro todas as ruas de Paris, que deixar de ver as extraordinariamente comoventes (não me perguntem porquê mas aquilo comove-me) da Catedral Ortodoxa Russa, que deixar de ver a Tour Eiffel a iluminar-se tout brillante, que deixar de ver a Pont Neuf e os barcos no rio, para dizer apenas algumas das coisas de que vou sentir, pelo menos nos primeiros tempos, muito a falta, vai ser, sei-o bem, extraordinariamente difícil para mim. Deixar de ver esta beleza, esta grande beleza, de ter os sentimentos que Paris, toda a Paris, mesmo aquela mais feia, me provoca quotidianamente, vai deixar-me triste por uns tempos.
 

[Read more…]

Lettres de Paris #71

À bout de souffle*

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

esta carta é, por comparação com as anteriores, um mero telegrama, ainda que, como as outras, seja escrita d’un seul souffle’, quer dizer de um folêgo, sem pensar demasiado no que estou a escrever, deixando as coisas escreverem-se praticamente sozinhas. Fui hoje (re)ver À bout de souffle, de Jean-Luc Godard, estreado em Paris em 1960. Nunca havia visto o filme em écran gigante, por falta de oportunidade, claro, já que para mim o cinema deve ver-se sempre numa sala de cinema. De maneira que ao passar outro dia no mk2 da Rue Serpente e ao vê-lo anunciado para hoje (e apenas para hoje) lá fui eu, sob um frio de -4 ou -5 graus, revê-lo às 10 da noite. A sala não estava cheia, desta vez. Compreende-se, talvez, porque em Paris deve haver imensas oportunidades de rever grandes filmes. Ou se calhar porque a sessão era a uma hora mais tardia do que habitualmente. Seja como for, creio que já o disse, as salas dos mk2 são grandes, confortáveis e as condições de projeção naturalmente são excelentes.
 
Rever a cara da Jean Seberg no grande écran deixou-me à bout de souffle, como sempre. Não é por ser linda, que era. É por outra coisa qualquer que não sei explicar, mas tenho, desde que me lembro, uma verdadeira e assolapada paixão pela cara da Jean Seberg, neste filme. Apesar de não ser de Paris, nem francesa, ela encarna, para mim, neste filme, a verdadeira parisiense. Nos anos 60, como agora. A cara da Jean Seberg em À bout de souffle é intemporal. O Jean-Paul Belmondo não me tira tanto o folêgo, devo dizer, apesar da sua boca extraordinária e daquele gesto que, a partir deste filme, ficou imortalizado e é ainda tantas vezes repetido. Mas se eu pudesse e ela fosse viva e tivesse a mesma cara que em 1960, casava com a Jean Seberg, amanhã. Adorei, por isto e por muito mais coisas, como é evidente, desde logo pelo argumento de François Truffaut, pela fotografia, pela música de Martial Solal… mas também por ver Paris, a Paris que conheço agora um pouco melhor do que conhecia quando vi o filme em écrans pequenos das outras duas ou três vezes, os mesmo lugares por onde passo hoje, em 1960. É curioso ver como nada se modificou substancialmente, quase tudo foi preservado e existe ainda e existirá, provavel e desejavelmente, para sempre. Curioso e belo.

[Read more…]

Lettres de Paris #70

April in Paris*… (peut être)

Este slideshow necessita de JavaScript.

Hoje foi a minha vez de intervir no ciclo de Seminários do Eixo 1 do Ladyss – Recompositions sociales dans la globalisation – para o ano de 2016/2017**. O tema geral desta edição de Seminários é ‘Legitimidade, Eficácia e Utilidade’. Quando a Aline me pediu, há uns tempos, que fizesse um destes seminários fiquei um bocado, como se costuma dizer, à nora. Estes tópicos não fazem parte da minha investigação mais recente (embora tenham feito – sobretudo a questão da legitimidade associada às políticas e estratégias de desenvolvimento rural – há já alguns anos) e comecei a pensar como raio poderia eu apresentar os resultados dessa investigação, nomeadamente do projeto que coordenei recentemente – Rural Matters***, à luz das questões da legitimidade, da eficácia e da utilidade. Afastei por uns tempos essas preocupações, pois tinha outras coisas com que me entreter, digamos, no momento, em termos de trabalho e, naturalmente, há umas duas semanas voltei a dedicar-me ao assunto. Tornou-se evidente, que muitos dos resultados do projeto poderiam contribuir bastante para o debate, novamente sobretudo no que se refere à legitimidade dos diversos atores e instituições cujas representações o projeto tornou mais claras, assim como no que se refere à eficácia das estratégias de desenvolvimento dos territórios rurais. Assim sendo, preparei a apresentação de forma relativamente entusiasmada, durante uns dias e hoje às 10 em ponto da manhã, depois de ter dormido umas 3 horas e meia, lá estava eu na Rue Valette para a apresentação e o debate.
 

[Read more…]

Lettres de Paris #68

Y aura-t-il de la neige à Paris?*

Este slideshow necessita de JavaScript.

eis a pergunta que toda a gente coloca por aqui, incluindo eu mesma, que todos os dias vejo se está prevista neve para Paris. Às vezes está, mas nunca chega a acontecer. Cairam uns flocozinhos de nada, minúsculos, creio que na véspera de ano novo. Foi só. Por vezes vejo gelo junto às fontes. E é só. Acho que me vou embora sem ver nevar em Paris. E sem ver – felizmente – a destestável e perigosíssima ‘pluie verglaçante’, que é como quem diz uma chuva que ao cair no chão, tal é o frio, transforma-o numa superfície vidrada, gelada, extraordinariamente perigosa para qualquer pessoa e, obviamente, sobretudo para mim. Há muitos anos, talvez 22 ou 23, senti na pele os efeitos desta ‘pluie verglaçante’. Estava em Arlon, na Bélgica, em janeiro, e ao sair, já noite, de uma aula mal pus o pé fora de porta escorreguei imediatamente sem apelo nem agravo. Não estava à espera daquilo, nem preparada para aquilo. Portanto, no que diz respeito à chuva que se transforma em gelo mal atinge o chão, espero bem que a não venha a sentir nos poucos dias que tenho ainda em Paris. Quanto à neve, confesso que gostava de a ver cair um bocadinho. Deve ser bonita, Paris, sob a neve. Há uns dias, contei-vos, estava sentada no quentinho do meu pequeníssimo estúdio, a esta mesma secretária, quando ouvi uns rapazes na rua gritar ‘il neige, il neige’. Fui ver, era mentira. Ha uns dias também, entrando na minha sala do Ladyss, disse ao Jean, que era o único que lá estava, que tinha muito frio. Olhou para mim com a sua cara bonacheirona e simpática e sentenciou que ia nevar em Paris nesse mesmo dia. Mentira. Nem um floco caiu. De maneira que é isto. Na televisão anunciam neve e ela não vem, pelo menos em Paris. Anunciam um ‘grand froid’ e bom, apesar de estar bastante frio, ainda estou à espera que o mesmo traga os flocos fofos e silenciosos.

[Read more…]

Lettres de Paris #67

Moi, la gourmande…

15966102_10212335821616939_4668041760620774372_n-2
que é como quem diz, eu a comilona, eu a gulosa ou ainda eu a que gosta de comer bem. Não tiro geralmente fotografias a comida e, mesmo que tire eventualmente, não tenho por hábito publicá-las. As razões são várias, mas digamos que tenho um certo pudor em publicar o que como. Não que coma demais habitualmente mas… adiante que não é disso que se trata. Abro hoje uma exceção e publico uma fotografia de comida. Uma fotografia da minha sobremesa de hoje, um café gourmand, que é como quem diz, então, guloso ou destinado aos gulosos e àqueles que gostam de comer.
É quase uma instituição o café gourmand em Paris. Ainda outro dia bebi um extraordinário, ainda que menos abundante que este (e bastante mais caro, diga-se) no Café de la Paix, um dos cafés – acho que posso dizê-lo – mais clássicos de Paris e mais bonitos, com vista direta sobre a Opéra. No fim de semana passado bebi outro no Marché des Enfants Rouges, à laia de almoço, mais modesto do que o de hoje e do que o do Café de la Paix, mas saboroso – guloso – ainda assim. Para quem não saiba, adoro comer, de verdade. Gosto praticamente de tudo (bom, menos de polvo, de chocos, de lulas, de ostras, de tamboril, de caracois e dos seus primos franceses, os terríficos escargots…) e tanto faz serem doces ou salgados, marcha tudo, por assim dizer, com apetite e alegria. Mas, apesar disto, tenho um fraquinho por doces. E muita dificuldade em resistir-lhes.