Lettres de Paris #3


Le monde est tout petit

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Esta é uma carta curta, como ontem prometi que vão ser a maior parte das cartas de Paris. Fui hoje ao centro de investigação onde terei um lugar e uma secretária. A minha colega trabalha sobretudo a partir de casa, como a maior parte dos outros colegas, mas eu creio que preferirei trabalhar lá, mesmo porque a minha ligação vpn à universidade de Aveiro não quer funcionar no meu computador e, bem, a partir de lá tudo será – espero – mais fácil. Digo espero porque hoje apenas reuni com a Aline. Ideias há bastantes, não sei se haverá tempo para as concretizar. Mais tempo dela, quero dizer, que anda muito atarefada com o trabalho de campo.
Fui, então, à hora combinada à Rue Vallete. Fui devagar, chovia, eu tinha tempo. Parei no café ao fundo da rua – Le Metro – e comi un croque madame. Depois subi a rue des Carmes e a seguir, já na Rue Valette entrei no LADYSS. As pessoas parecem-me todas simpáticas. Parece-me que apreciam igualmente o meu esforço para falar francês, mesmo se falo com imensos erros, sobretudo dos tempos verbais. Acho que acabarei por melhorar isso. A reunião com a Aline foi toda em francês, mesmo porque ela deixou bem claro, desde o início que se recusava a submeter-se à ditadura do inglês. De facto, publica – como atualmente a maioria dos franceses – sobretudo em francês. Podia ter começado um debate com ela sobre a importância de haver uma língua comum, na qual possamos entender-nos, mas depressa compreendi que não valia a pena.

Não é que a Aline não tenha razão. Creio que tem e que há uma demasiada ditadura do inglês em toda a parte e, evidentemente, também na ciência. Mas, por causa disso, acontece que os franceses tendem a desaparecer – embora façam coisas absolutamente interessantes e importantes – a ‘desaparecer do mapa’, pelo menos do mapa da sociologia rural fora da França. Mas também estou aqui para isso, para ver o que andam a estudar os franceses. Quando andava no ISCTE, liamos bastante mais autores franceses que ingleses ou americanos. Hoje, parece, tudo mudou. A ditadura do inglês, dos factores de impacto, dos indíces xpto. Gosto de ver que os franceses não estão muito preocupados com isso. Continuam a escrever na sua bela língua. Infelizmente isso não poderei eu fazer. Ler, leio bem, compreender, igualmente… falar mais ou menos, mas escrever como deve ser (um texto, sem ser um email ou uma nota) é toda uma outra história.
Depois da reunião com a Aline, vi que tinha uma mensagem da Mónica a dizer que estava cá, a caminhar para perto do Louvre. Propus-lhe um café e cheguei à Rue du Rivoli passado mais de meia hora, mesmo tendo apanhado o metro. A Mónica e o João estavam na rue Saint Honoré, alegadamente nas traseiras do Louvre, mas que eu não sabia onde era. Caminhei pela Rue du Rivoli até à Place du Palais Royale, tão bonita e antes perguntei a um senhor onde era a rua que procurava. Disse-me que era mais para baixo e que nela morava o François Hollande. Eu respondi-lhe que isso era um pormenor (para mim sem relevância) e ele riu-se. Na praça, ainda que a rua fosse ali mesmo, paralela à Rue do Rivoli, continuava sem a ver – embora visse a beleza dos edifícios todos – o Louvre, o Consell d’État, o Hotel du Louvre… – e mandei uma mensagem à Mónica. Vieram ter comigo e fomos beber qualquer coisa ali perto, na rua onde alegadamente mora o François Hollande. Foi giro encontrar aqui a Mónica, claro. Falar português sem ser ao telefone. E descobrir que a pessoa (ou uma das) com que a Mónica e o João vêm reunir, é também minha conhecida, com quem tenho mais ou menos agendado um café por estes dias. Le monde est out petit, bien sûr.
Quando me despedi dos meus compatriotas, resolvi entrar no Louvre. Já era noite e as pirâmides brilhavam no meio da escuridão.

Comments

  1. Estou a imaginar o Hollande a acenar na lambreta dele.

  2. Mais uma vez, quem manda pode e quem se lixa é o mexilhão. Será que tambem nos vão entalar por darmos a nossa opinião sobre uma sentença com a qual não concordamos? No tempo da outra senhora era de bico calado e pelo que vejo não sabemos o que nos espera daqui para a frente.
    Nós os grisalhos podemos ser apelidados de “os peste negra” mas nós os grisalhos não temos direito de resposta, ou corremos o risco de contribuir para para engordar ainda mais os já gordos donos do sistema.

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