Lettres de Paris #34

On prend le pied de Montaigne

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et la force serait avec nous… é o que se diz do hábito de tocar no pé da estátua, bastante descontraída por sinal, como já vos contei outro dia, de Montaigne na Place Paul-Painlevé, mesmo ao lado da livraria Compagnie e mesmo em frente a uma das entradas da Sorbonne. Já tinha reparado várias vezes no extraordinariamente dourado pé esquerdo de Montaigne, estátua, mas só hoje me lembrei de indagar porquê. Afinal é um ritual semelhante a muitos outros, em várias cidades do mundo (assim de repente lembro-me da estátua de St John of Nepomuk na Charles Bridge em Praga ou o pé esquerdo de um dos santos da Catedral de Santiago de Compostela).
 
Tocar o pé esquerdo da estátua de Montaigne é assim um ritual conhecido pelos muitos estudantes que povoam o Quartier Latin. Aprendi isto hoje, depois de pesquisar no google. Parece que para passar exames, orais, concursos, etc, devem os estudantes ou candidatos acariciar o pé de Montaigne e saudá-lo, quer dizer, saudar a estátua, não o pé, bem entendido. Diz-se que a superstição se estende a todos os tipos de votos. Amanhã experimento. Aliás, poderei experimentar todos os dias que aqui estiver. Já tenho por hábito dizer interiormente ‘Bonjour Monsieur Montaigne’ quando passo pela interessante estátua de Paul Landowski, por isso basta-me a partir de hoje acariciar-lhe o pé e formular um qualquer desejo. Não é que tenha muitos, mas hei-de seguramente descobrir alguns. Depois vos contarei se deu resultado o ritual.

Lettres de Paris #33

‘Antes eram os lugares e a Elisabete, agora é a Elisabete em Paris’

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escreveu-me hoje num email uma pessoa de quem muito gosto e, creio, faz o favor de gostar de mim também. A pessoa (que lerá este postal, também, mais tarde ou mais cedo, por isso peço-lhe já desculpa) acrescentou que talvez fosse inevitável. Confesso que fiquei a pensar naquilo o resto da tarde, depois de ler o email. Ia a pensar naquilo quando saí por uma hora do Ladyss, eram quatro da tarde, para ir ter com a Fabienne à livraria Compagnie, na Rue des Écoles. Achei graça a Fabienne ter sugerido aquela que, até ver, é a minha livraria favorita de Paris. Creio ter já falado nela nestas cartas. Na montra tem livros do Gonçalo M. Tavares, do Valter Hugo Mãe. Também já vi lá coisas do Saramago e do Fernando Pessoa. Estranhamente não vi ainda nenhum livro do António Lobo Antunes. Vi ontem ou antes de ontem, na montra já decorada para o natal um livro chamado Contos Portugueses, mas em francês. Não é por isso que a Compagnie é a minha livraria preferida, bem entendido, mas ajuda um bocadinho, confesso.
 

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Lettres de Paris #32

Les Français sauveront le monde…

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… estava escrito num panfleto metido no para-brisas de um carro estacionado em frente ao Collége de France, quando lá passei a caminho do Ladyss, ontem de manhã. Não ia a reparar em grande coisa, ou melhor, ia a reparar nas coisas do costume quando faço este caminho. Talvez haja já pouco de novo neste caminho em que eu possa reparar ou talvez eu fosse, ontem, pouco disponível para atentar nas coisas. Nas que já vi muitas vezes e nas que via pela primeira vez. Ainda assim, reparei no papel metido entre o para-brisas de um carro que dizia que os franceses salvarão o mundo. Parei e li a curta mensagem e – juro-vos que não é do meu francês – não compreendi muito bem a que se destinava. Hoje, há um bocadinho, já depois de ter ido novamente para o Ladyss e depois de ter jantado e depois de já estar em casa, pesquisei o ‘slogan’ e o autor. As pesquisas rápidas encaminharam-me para um blog, com 3 ou 4 posts apenas, todos no mesmo tom profético. Pesquisei o nome do autor. Parece que é alguém que já é conhecido no Quartier Latin por espalhar panfletos desta natureza. Não se compreende bem o que pretendem, provavelmente nada.

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Lettres de Paris #31

Dans ma tête il ya une grosse confusion

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Hoje também não tirei fotografias, por isso uso uma de outro dia qualquer, que até se adequa, do caminho que faço alguns dias para o Ladyss. Hoje fiz esse caminho bastante cedo. Tinha reunião logo de manhã com os colegas do meu ‘eixo’. Chovia quando acordei e o céu era cinzento chumbo. Não tive tempo para beber um expresso sequer, fora de casa. Lá fui eu a toda a pressa para não chegar atrasada. Cheguei uns 5 minutos depois da hora, mas houve muita gente que chegou bastante depois de mim.
Tive de me apresentar em francês, pois claro, a uma boa parte dos meus colegas do Ladyss, procurando não dar muitos erros, mas certamente dando. Uma boa parte deles nunca os tinha visto por ali. Acho que me desculparam os erros e foram todos simpáticos. Disse-lhes que esperava que no dia 16 de janeiro, quando fosse a minha vez de apresentar o seminário, esperava falar melhor francês. O meu problema não é a pronúncia – que é boa, sem modéstias. Nem o vocabulário, que também não é mau. É o tempo que demoro a falar, acho eu e os tempos verbais. O francês não é assim uma língua muito fácil e uma coisa é falar na rua e nos cafés, ou em conversas informais com os colegas, outra, bem diferente, é fazer uma apresentação do meu trabalho. Pode ser que em janeiro já fale mais depressa. Mas não é fácil. E depois, na minha cabeça vai uma trapalhada. Continuo a pensar em português, a maior parte do tempo, mas a verdade é que também o faço em francês e em inglês numa alegre misturada. Vá lá que aqui não corro risco de acrescentar a estas três línguas o castelhano e o italiano. Já aconteceu falar em castelhano com uns espanhóis num sítio qualquer, mas foi tudo.

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Lettres de Paris #30

Jusqu’ ici tout va bien

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Parece então que faz hoje um mês, 30 dias portanto, que estou em Paris. Apesar de algumas breves contrariedades, coisas sem relevância, só posso dizer que ‘jusqu’ici tout va bien’, ou melhor, ‘jusqu’ici tout va très bien’. Paris tem-me, já o disse outras vezes, tratado bem. Tenho um sítio para dormir em pleno Quartier Latin, um sítio para trabalhar em pleno quartier de la Sorbonne, todos os cinemas, todas as ruas, todos os cafés, todos os museus, todas as torres, todos os jardins, de Paris. Penso que não podia querer mais neste momento. E efetivamente não quero. Nem sequer, como já sabemos, na maior parte do tempo pelo menos, companhia. ‘Jusqu’ici tout va bien’ exatamente ‘comme il est’.
 
Apesar disso, ‘je me suis pas levée du bon pied’, quer dizer, não me levantei com muito bom humor, mesmo porque já era tarde. Estava escuro lá fora, e chovia, como choveu todo o dia, aliás. Entrava pouca luz pela janela que dá para a rua estreita. Ainda para mais puseram andaimes no prédio mesmo em frente e isso escureceu ainda mais a rua e a luz que tinha pela janela. Lá me fui animando, tentando por-me como se me tivesse levantado ‘du bon pied’… quando saí de casa e entrei no Saint-André, a Julie deu-me os bons dias, lamentou-se do tempo ‘clássico’ de Paris e explicou a uma senhora que estava ao balcão (e que já vi de outras vezes por lá) quem eu era. Deu-lhe a ficha completa, digamos, tal como eu lhe a tinha dado antes a ela. Suponho que isto queira dizer que já sou do quartier, bem entendido. Gostei disso. Outro dia, quando jantei lá, o dono levou-me o café à esplanada (não chovia) e trouxe a conta com ele e disse-me:’ o café eu ofereço’. Coisas simples, coisas muito simpáticas, de pessoas que quase não me conhecem. Há sítios em Aveiro onde vou desde sempre e nem um copo de água me ofereceram nunca! Paris trata-me bem, é como vêem.
 

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Lettres de Paris #29

«Mais qu’est ce qu’on veut?

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papiers!». Era a resposta gritada e acompanhada de punhos no ar e tambores. Estava eu, tranquila, a admirar o carrossel do Hotel de Ville quando começo a ouvir gritos e tambores. Vou até à esquina da Place de l’Hotel de Ville e da Rue du Renard avançam umas 20 pessoas, com megafones e tambores. Gritavam de forma articulada com o tambor, como se fosse uma canção, a canção dos sem-papéis, que o que queriam era tê-los. Ainda pensei em juntar-me à manifestação, animada pelos punhos erguidos principalmente, mas curiosamente (ou não, melhor dizendo) não havia uma única pessoa branca na manifestação e, mais a mais, tenho papéis. Podia ter-me juntado em solidariedade, bem entendido, mas pensei que os manifestantes tomassem isso como desrespeito ou gozo da minha parte e, portanto, deixei-os continuar para a Rue do Rivoli, poucos mas barulhentos, timidamente acompanhados por uma ou duas motas da polícia. Voltei ao Parvis de l’Hotel de Ville para admirar outra vez o carrossel, enquanto os gritos dos manifestantes e os tambores se ouviam cada vez mais ao longe.
Antes desta pergunta – ‘Mais qu’est ce qu’on veut?’ ter entrado na minha tarde, de forma inesperada, tinha saído não muito cedo da Rue Suger, bebido o café servido pela Julie, que foi simpática comme tous les jours, quero dizer aqueles em que vou lá. Atravessei a Place Saint-André des Arts e fui ao quiosque comprar uma carteira de bilhetes de metro (e de autocarro e de comboio, já que dão para tudo isso). A seguir voltei a atravessar a praça, entrei na Place Saint-Michel, depois na Rue de la Huchette, atravessei a Rue Saint-Jacques e depois entrei na Rue de la Bucherie. Passei em frente da Shakespeare and Company, segui pelo Quai de Montebello, atravessei a Pont au Double e entrei no Jardim João Paulo II, onde se ergue uma estátua ao agora santo e continuei, reparando nas cores das folhas contra a brancura da pedra da catedral de Notre Dame, até à Place Jean XXIII onde as cores das folhas das árvores continuaram a surpreender-me. Estava um casal de noivos sentado num banco a posar para fotografias. A noiva, coitada, com este frio, mantinha o sorriso, mas estava com os ombros e os braços descobertos. Reparei também nas pessoas sentadas nos bancos de jardim, por baixo das árvores quadradas da Place Jean XXIII e saí do jardim pela Rue du Cloître Notre Dame. Fui até à Pont Saint-Louis, que justamente cruza o Sena entre a île de la Cité e a île Saint-Louis. A ponte está fechada ao trânsito e estava bastante gente. Um rapazinho bastante novo tocava acodeão sentado num banquinho. No mesmo instante em que reparei nas nuvens por cima do Sena e e da Pont de la Tournelle, o rapazinho começa a tocar, e bem por sinal, ‘sous le ciel de Paris…. la la la la la’. Um clássico, portanto, mas no momento certo.

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Lettres de Paris #28

Éclairage Intime*

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Hoje também não há fotografias, a não ser uma que tirei noutro dia qualquer ao meu cinema em Paris. O meu cinema em Paris é o Le Champo, na esquina da Rue des Écoles com a Rue Champollion. É um cinema antigo, com o cognome de Espace Jacques Tati a Paris. Comprei um cartão com 10 sessões logo nos primeiros dias que cheguei a Paris. Passo lá praticamente todos os dias quando vou para o Ladyss. Apresentam ciclos de cinema sobretudo. E filmes antigos, alguns dos quais nunca tive oportunidade de ver. Assim, tal como adotei um café – O Le Saint-André, aqui mesmo à esquina da Rue Suger, adotei um cinema. Creio ter também adotado uma livraria, a Compagnie, igualmente na Rue des Écoles, mas disso não tenho tanta certeza.
 
Fui almoçar com a Fabienne, uma francesa que conheci há uns meses em Aveiro, por causa de uns projetos financiados pelo Centre Nationale de la Recherche Scientifique (CNRS). É antropóloga, fala português e é simpática. Faz algumas coisas de que tenho uma pontinha de inveja… do tipo dar algumas aulas no Musée do Quai Branly. Fomos almoçar ao Fourmi Ailée. Aliás, foi ela que me tinha falado nisso, quando combinámos por couriel este almoço. Foi um almoço simpático, tal como ela é simpática. Falámos em português e soube-me bem. Perguntou-me que tal me estava a tratar Paris, disse-lhe que très bien e é absolutamente verdade. Falámos de tudo e um par de botas e também, como é evidente, de trabalho, apesar de eu não estar aqui para desenvolver nada com ela. Mas nunca se sabe, como é evidente.
 

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Lettres de Paris #27

Marie, agricultrice, et son choix de ne pas se moderniser

Hoje não há fotografias, só uma de uma placa à entrada do portão do 105 (que é também o 101, onde se encontrava a placa) Boulevard Raspail, onde fica a École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Por momentos e por ignorância pensei que a placa dissesse respeito exatamente aos estudos das ciências sociais, de um tempo passado e agradou-me logo aquilo dos ‘êtres organisés’. Claro que depois reparei melhor na placa e já não me pareceu tanto que tivesse a ver com as ciências sociais. Tem e não tem, afinal. Parece que antes de ser criada, em França, na Sorbonne, em 1888*, a ‘chaire’ se iria chamar Philosophie Biologique, mas por razões de designações científicas acabou por se chamar Évolution des Êtres Organisés e, claro, diz mais respeito às chamadas ciências da vida. Mas já não estamos em 1888 e sabemos já que embora sejamos êtres organisés biologiquement, somos igualmente êtres organisés socialment e que as duas dimensões, pelo menos, se entrecruzam de maneiras intrincadas e difíceis de separar.
 
Estava diante da placa ainda não eram 10 da manhã, imagine-se. Levantei-me antes das 8 e meia na Rue Suger. Porque tinha de estar na EHESS às 10 da manhã exatamente. Mas também porque aparentemente vão fazer obras no prédio em frente, e a rua é demasiado estreita, e hoje os homens a montarem os andaimes, parece que estavam dentro do meu estúdio. Impossível dormir portanto, de manhã. Adivinho já dias turbulentos, se as obras durarem muito. Seja como for, ali estava eu, hoje de manhã diante da placa da ‘Chaire’ de ‘Évolution des Êtres Organisés’. Fui assistir a um dos seminários ‘Ruralités Contemporaines’, organizados na EHESS por um grupo de cientistas sociais ‘ruralistes’ franceses. O seminário de hoje consistia na apresentação de um filme-documentário – ‘Marie, un engagement paysan’** – e da discussão em torno do que ele nos mostra. Os realizadores, Daniel Blanvillain et Alain Barthot, estavam presentes, assim como Marie, a pequena agricultora e produtora de queijo (especialmente de ovelha), com 4 vacas e 40 ovelhas, da região do Bourbonnais. As vacas e as ovelhas não estavam presentes, naturalmente. Estava lá também ‘du monde’, quero dizer umas 40 pessoas quase, todas mais velhas que eu, à exceção de uns 5 ou 6 estudantes. Estava lá um monte de gente de quem li muitas coisas: Bernadette Lizet, encantadora, Françoise Dubost, Aline Brochot (claro)… e uns quantos mais… um mundo de gente, portanto.
 

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Lettres de Paris #26

«Paris a mon coeur…

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dès mon enfance. Je ne suis français que par cette grande cité. Grande surtout et incomparable en variété. La gloire de la France est l’un des plus nobles ornements du monde*» escreveu Montaigne.
Paris não tem o meu coração desde a minha infância. Mesmo porque a primeira vez que vi Paris já tinha mais de 20 anos. Mas é como se Paris tivesse o meu coração desde a minha infância. Pelo menos, neste momento, tem o meu coração desde que aqui cheguei há 26 dias. O tempo passa a correr e, na verdade, sinto que aproveitei pouco. É certo que estou aqui para trabalhar, mas não se trabalha 16 horas por dia (bom, às vezes sim, como é evidente) e, portanto, penso que poderia ter aproveitado (ainda) mais estes 26 dias que já passei aqui e estes 26 dias em que Paris tem o meu coração, como se fosse desde a minha infância.

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Lettres de Paris #25

Un combat perdu

lembram-se de há uns dias ter dito que em frente ao Collège de France, nas escadas que se sobem a partir da Rue des Écoles estava escrito no chão ‘la sociologie est un sport de combat’? Nunca mais tinha passado naquele sítio desde esse dia. Hoje passei e olhando para o chão, vejo em frente a ‘combat’ a palavra ‘perdu’, a vermelho, seguida de vários pontos de exclamação. Fiquei a olhar para aquilo até que me resolvi a tirar uma fotografia. Fui até à esquina com a Rue Jean de Beauvais e depois subi a pequena Rue de Lanneau a pensar na palavra que acrecentaram á frase de Pierre Bourdieu. ‘Perdu!!!’. ‘Un combat perdu’, três pontos de exclamação. Creio que o autor da palavra a vermelho não estaria exatamente a pensar na sociologia, como área científica, mas no que ela permite revelar e no que os decisores podem (ou não podem) fazer com aquilo que o sociólogo revela. Aí darei razão ao autor do acrescento. A maior parte das vezes, apesar de tudo, também me parece que esse combate está perdido. Basta ver o que se passa à nossa volta, onde quer que nos encontremos. Nas grandes cidades, principalmente. Paris, como grande cidade que é, ou como conjunto de cidades que é, está cheia de mendigos e sem-abrigo. Já o disse de outras vezes, mas reparo cada vez mais neles ou serão eles que são cada vez mais.
 

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Lettres de Paris #24

Isto não é uma carta, é um telegrama e um desabafo

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Não se passou nada de especial, hoje. Fui para o trabalho pelas ruas do costume. Fiquei um momento a admirar as cores e os pombos na cabeça das estátuas. Particularmente na de Claude Bernard. Em, frente ao Collège de France. Voltei do trabalho pelas mesmas ruas. Estava pouca gente no Ladyss hoje. E a sala de trabalho estava fria como uma estátua, depois do fim de semana sem o aquecimento ligado.
 
Tive saudades da comida portuguesa. Sobretudo depois de falar ao telefone com os meus pais. A minha vida às vezes é um atraso. E a culpa não e minha. Fiquei zangada com as prioridades alheias. Tive fome. E comi no sítio do costume. Comi bem, por sinal. Confit de canard (outra vez). Depois vim para casa. Estava quentinho e trabalhei um bocadinho. Muitas vezes perco tempo com ninharias, com assuntos e pessoas que não deveriam merecer mais que um segundo da minha atenção. Depois fico triste comigo mesma. Mas Paris não é, não pode ser, lugar para tristeza.
 
Entrei numa livraria bonita, queria comprar um livro* que saiu recentemente sobre Paris visto e vivido pelos escritores. Mas estava esgotado. A senhora encomendou-o. Estou com vontade de viver Paris como os escritores a viveram. Ou melhor, ter a ilusão de viver Paris como a viveram Sartre, Beauvoir, Hemingway, Prévert, Aragon, Céline, Baudelaire, Modiano… evidentemente os tempos são outros. O mundo mudou substancialmente e, seguramente, também Paris. E de qualquer modo, eu não vivo em Paris. Se calhar nem eles viveram Paris. Viveram a Paris deles, como eu viverei a minha, por pouco tempo que seja, por mais que perca tempo com ninharias e coisas que não (me) interessam. Ou que certamente me interessam muito menos do que a literatura e do que Paris.
 
*Informações sobre o livro, aqui

Lettres de Paris #23

‘Vous êtes du quartier?’

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perguntou-me uma senhora, não sem antes dizer ‘bonjour, madame’, quando eu estava na esplanada do Saint-André – depois da Julie me ter cumprimentado com um ‘bonjour Elisabete!’ quase cantado – a beber o meu café e o meu copo de água do costume. Disse-lhe que não, à senhora, que não era ‘du quartier’, mas fiquei a pensar que tinha pena de não ser deste bairro e poder dar à senhora a informação que ela precisava.
Depois do café, desci as escadas do metro ali mesmo em frente. O passar a ferro de ontem, fez alguns estragos nas minhas pernas. Algumas horas de pé e é uma lástima. Por isso há que poupá-las, quer dizer, o mais possível, se bem que – como disse ontem – no metro de Paris se ande muito, sobretudo se temos, como é frequentemente o meu caso, que mudar de linha. Apanhei a única linha de metro que passa em Saint-Michel (também passa o Rer C e o Rer B) a linha 4, para Chatelêt, onde mudei para a linha 1 em direção a La Défense. Começo a ser perita no metro de Paris. Na verdade não tem nada que saber. Nem este, nem até ver, nenhum metro em que tenha andado seja lá onde for. Antigamente perdia-me mais do que agora, é verdade. Devo ter aprendido a prestar mais atenção.

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Lettres de Paris #22

Une journée presque perdue

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Um dia quase perdido, pois. Primeiro levantei-me tarde. A pouca luz que entrava pela janela, mesmo com os ‘blackouts’ quase fechados, anunciava chuva e um dia muito cinzento e eu deixei-me ficar na cama. Doiam-me as pernas e os pés da caminhada de ontem. Mais uma razão para me deixar ficar. Quando finalmente me levantei era quase meio-dia. Confirmei a chuva, confirmei o dia cinzento e continuei a preguiçar enquanto fazia café e preparava o pequeno almoço. Quando saí de casa passava já das 2 da tarde. Escurece, aqui, como creio ter já referido, antes das 5 e meia. De modo que restavam-me 3 horas e pouco de dia. Isto aborrece-me, confesso, escurecer tão cedo. Sim, é a hora de inverno e é Paris.
 
Tinha ontem vagamente decidido, antes de adormecer, que iria hoje à Torre Montparnasse. Queria igualmente passear-me pelas ruas do bairro e, quem sabe, visitar o cemitério. Há mais de 20 anos visitei o cemitério de Montparnasse e lembro-me (tal como no Pére Lachaise) de ser um espaço bem bonito, cheio de árvores, caminhos bem arranjados. Bem sei que dizer de um cemitério que é bonito é um bocado estranho, mas a verdade é que me lembro deste ser bastante agradável. Resta dizer que, há mais de 20 anos, procurava especificamente a campa de Jean Paul Sartre e de Simone de Beauvoir, apesar de estarem sepultados, em Montparnasse, muitos escritores e personalidades relevantes, como por exemplo Beckett, Cortázar, Duras, Baudelaire e até Durkheim. Não sou exatamente a pessoa que mais gosta de frequentar cemitérios e ver campas, mas naquela época tinha um fraquinho pelo Sartre e pela Beauvoir (ainda tenho, embora já tenha lido tudo o que há para ler deles) e tinha, porque tinha, imperiosamente de ver a campa oonde estão sepultados juntos. Li outro dia, já não sei onde, que alteraram a lápide. Se chegar a ir ao cemitério de Montparnasse desta vez, vos direi se a alteraram ou não. Isto significa que, evidentemente, com cerca de 3 horas de luz, não visitei o Sartre e a Beauvoir na sua última morada, nem me passeei pelo bairro.
 

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Lettres de Paris #21

«J’ai la France entière»

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Hoje morreu Leonard Cohen. A primeira música de que me lembrei foi de The Partisan*. A canção não é dele, mas sempre gostei de o ouvir cantar
‘Oh, the wind, the wind is blowing,
through the graves the wind is blowing,
freedom soon will come;
then we’ll come from the shadows.’
 
E depois o coro, em francês:
‘J’ai changé cent fois de nom
J’ai perdu femme et enfants
Mais j’ai tant d’amis
Et j’ai la France entière’
 
E se calhar, quase de certeza, foi por isso que quando percebi que ele tinha morrido, me lembrei imediatamente de The Partisan. Podia ter-me lembrado de outra canção qualquer que o ouvi cantar tantas vezes, como Suzanne, ou Dance me to the end of Love, ou So long Marianne… mas não, foi desta que me lembrei. La Complainte du Partisan**, uma canção de 1943, com letra de Anna Marly (e música de Emmanuel d’Astier de la Vigerie, uma homenagem aos resistentes franceses na II Guerra Mundial. Paris está cheio de placas que nos contam a história desta resistência. Hoje, em muitas delas, havia flores da Maire de Paris. Um gesto bonito, digamos, num dia em que se comemora em França (e é por isso feriado) a assinatura do Armístico que pôs fim à I Guerra Mundial. Estava Paris muito enfeitado de bandeiras, de pequenos ramos de flores junto às placas dos que tombaram combatendo ou resistindo. Estava Paris muito bonito, hoje, sob um sol encantador e um céu mais azul que a tira da bandeira.
 

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Lettres de Paris #20

«Bonsoir à ma sociologue préférée…»

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disse a Julie, a rapariga da Bourgogne, mal entrei no café Le Saint-André para jantar, esta noite. Ainda lhe perguntei se conhecia assim tantas sociólogas… mas ela riu-se e perguntou-me o que queria comer. Passado um bocado, já tinha a comida à frente, passou por mim e perguntou-me se o trabalho estava a correr bem e quanto tempo mais iria ficar em Paris. Aproveitei e perguntei-lhe o nome. Julie. Perguntou-me o meu. Formalmente apresentadas, portanto, apesar de já termos conversado algumas vezes. Não a via desde sábado à hora do almoço, quando eu e o André fomos lá beber um café e um ‘verre d’eau’. Não sei se trabalha todos os dias, terá seguramente algumas folgas, mas seja como for eu não janto fora todas as noites. A maior parte delas faço alguma coisa na minha mini-cozinha. Ou como o meu prato preferido: queijo e baguette estaladiça. Ou preparo uma salada. Qualquer coisa deste género. Mas de vez em quando apetece-me uma coisa mais substancial e vou ao Saint-André. Não vou lá sempre, mas vou lá a maior parte das vezes que decido ir comer fora. A comida é boa. E não é exageradamente cara, comparando com outros sítios onde a comida não é nada de especial. Além disso tem a Julie que acha a sociologia uma coisa genial e o empregado simpático que fala comigo em português do Brasil com sotaque francês. ‘Bouua noitche’ diz-me quando me vê entrar ou apenas passar em frente ao café.
 

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Lettres de Paris #19

Trump: président des États-Unis

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é com esta frase que acordo. Ou melhor, é a primeira frase que leio no écran da televisão mal saio da cama e a ligo. Fico um bocado a olhar para aquilo, meia atónita, meio a dormir. Tinha-me deitado às 4 da manhã em Paris, ainda a procissão da contagem de votos ia no adro, mas já o mapa dos Estados Unidos se tingia de vermelho, mas não do vermelho bom. De maneira que acordei assim, com esta notícia que não é exatamente avassaladora, nem surpreendente, nem coisa nenhuma de assinalável. Suponho que metade do mundo tenha acordado exatamente como eu, embora talvez noutras línguas, e a outra metade tenha adormecido como acordei. Não que a Clinton fosse melhor, vá, mas pelo menos não seria tão ridícula, tão xenófoba, tão bacoca, tão vazia ideologicamente. Vi logo de manhã a cara do Trump quando do discurso. Pareceu-me a de alguém que também não acreditava exatamente no que (lhe) tinha acabado de acontecer. Também vi François Hollande, de beicinho, a felicitar oficialmente o Donald. Também me lembrei do episódio dos Simpsons, de há 10 anos, em que o Bart viaja até um futuro em que a Lisa tinha sido eleita ‘the first white straight woman’ (sic) dos Estados Unidos da América, um país que o seu antecessor, Donald Trump imagine-se, tinha deixado falido.

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Lettres de Paris #18

Presque tous les auteurs de la sociologie rurale que j’avais lu à l’université, il y a prés de 30 ans, ils sont ici et je peux les connaître

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Não é pouca coisa, desculpem lá. Quero dizer poder conhecer uma parte importante de sociólogos rurais que li e reli e voltei a ler quando me sentava, como estudante de sociologia, nas carteiras do ISCTE. Isto foi há quase 30 anos. 27 para ser mais exata. Todas estas pessoas eram bastante mais jovens. Eu também. Alguns deles deviam ter, nessa altura, a idade que tenho agora mais ou menos. Falo, por exemplo, de Marcel Jollivet que já mencionei nestas cartas. Ou de Nicole Mathieu que se prontificou para me receber aqui e me escreveu a carta de recomendação para ficar alojada na Maison Suger (que pertence à Fondation Maison des Sciences de L’Homme e onde não é assim tão fácil ter lugar) mais simpática de sempre. E exagerada, claro. Conheci a Nicole Mathieu em 2004, creio, em Trondheim, Noruega, por ocasião de um Congresso Mundial de Sociologia Rural. Cheia de vitalidade e energia. Aproximei-me dela, cheia daquele nervoso miudinho (e algum temor, confesso) que temos quando conhecemos alguém que admiramos e disse-lhe que na universidade, quando era estudante, tinha lido tudo o que ela escrevera até então. E que continuava a ler. Aliás, para o meu doutoramento, os trabalhos dela com o Marcel Jollivet (sobretudo o livro que editaram ‘Du Rural a l’Environment’) foram importantíssimos. Ela olhou para mim surpreendida com o francês num sítio onde todos supostamente falariam inglês. E riu-se. E ficámos ali a conversar.

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Lettres de Paris #17

Je veux être photographe…

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.com, era o nome de uma loja na Rue Jacob por onde passei hoje à tarde. A loja estava para alugar. Provavelmente o negócio de realizar o sonho de quem quer ser fotógrafo não deve ser muito rentável. Eu gostava de ser fotógrafa, como gostava de ser (ou ter sido) milhares de outras coisas. Esta hoje principalmente. E esta hoje porque é difícil descrever bem as cidades, o que se sente quando nelas nos passeamos, o que vimos com os nossos olhos, usando apenas as palavras. Gosto muito de tirar fotografias mas reconheço que me falta muito para ser fotógrafa. Sou apenas uma pessoa que gosta de tirar fotografias. Nem sempre (quase nunca, para ser verdadeira) trago comigo a máquina fotográfica melhorzinha, que não é de profissional, seeja como for, mas bastante boa para quem, como eu, gosta de tirar fotografias. Uso-a quando saio propositadamente para passear. De resto, nos dias normais, em que o passeio se resume a ir até ao trabalho, às compras, por uma carta no correio… nesses dias normais ando sempre com uma máquina compacta, muito pequenina, na carteira. E uso-a para tirar fotografias ao que vou encontrando e me desperta o olhar e a atenção.

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Lettres de Paris #16

‘(…) Ne perdez pas de vue que Paris, c’est Paris. Il n’y a qu’un Paris’ (*)

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isto foi o que Van Gogh escreveu em 1886 a Horace Mann Livens, quando viveu em Paris, passando tempos difíceis. Apesar deles, dizia ao seu amigo que o ar de Paris, o ar de França, aclarava as ideias. Fazia bem, muito bem.
É verdade, o ar de Paris, não direi de toda a França, veja-se por exemplo o que se passa em Calais, faz bem. Especialmente este ar cheio de um frio fininho que começa a ser cortante. Mas é bom este ar frio num dia de sol, como hoje. Voltei (voltámos) a ser turistas e quando saímos da Rue Suger, apanhámos a linha 4 do metro na Place Saint-André-des-Arts, depois do café no Le Saint-André, o sítio do costume. Saímos em Barbés-Rochechouart e percorremos o Boulevard Rochechouart até encontrarmos a Rue Steinkerque e, no fim desta, a Place Saint-Pierre onde apanhámos o pequeno funicular para o Sacré-Coeur. As escadas e toda a área em volta da igreja estavam cheias de gente, mas isso foi, claro, apenas um pormenor sem importância.

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Lettres de Paris #15

‘Be not inhospitable to strangers/ Lest they be angels in disguise’

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É uma frase de W. B. Yeats que há décadas recebe os visitantes da livraria Shakespeare and Company, que sobem ao primeiro andar. É uma frase que se adequa a Paris e ao dia de hoje. A cidade não é pouco hospitaleira a estranhos, recebe-os bem, com simpatia, já o escrevi aqui em quase todos os postais. O André que chegou ontem a uma Paris chuvosa concorda comigo nisto da simpatia extrema dos franceses. Hoje quando acordámos na Rue Suger não chovia, o céu estava mesmo azul, embora houvesse nuvens que o tornavam ainda mais bonito. Depois do pequeno almoço, bebemos café no Cafe Saint-André, onde um rapaz se ofereceu, sem mais nem menos para nos tirar uma fotografia.
 
Na impossibilidade de escolher onde levar uma pessoa que visita Paris pela primeira vez, decidi pelo óbvio: um passeio de barco no rio Sena. O mesmo que havia eu mesma feito há poucos dias. Como então escrevi, não há maneira mais bonita de ver Paris. Antes de embarcarmos no BateauBus no Quai Montebello, parámos – claro – na Shakespeare and Company. Gostando ele de livros e livrarias, era impossível estar em Paris e não ver esta. Há muitas outras, muitas, livrarias em Paris, muitas encantadoras, mas nenhuma das que conheço já tem este encanto. Tirámos a típica fotografia no banco da entrada, passeámos entre os livros colocados nos sítios e recantos mais espantosos e depois apanhámos o barco. Gostava de saber – de me lembrar, melhor dizendo – da primeira vez que vi Paris. Gostava de sentir, com o André, hoje, essa sensação primeira. Mas não consigo, claro. Perguntei ao André o que sentiu a ver Paris pela primeira vez, suspirou fundo. Está tudo dito, penso. E é isso, Paris é um suspiro de espanto e admiração sem fim, em cada canto, a cada ponte, a cada pessoa, a cada bonjour, a cada bonne soirée.

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Lettres de Paris #14

Où aller, la première fois qu’on voit Paris?

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Escrevo esta carta muito cedo hoje. Estou com pressa. A minha pressa é a da duração de um voo de alguém que vem de Lisboa para (me) ver (em) Paris. A pressa são das saudades que tenho dessa pessoa que espero ver daqui a umas breves horas. Breves se comparadas com aquelas em que não nos vimos, há 18 longos dias. Não, na verdade, não é que tivessem sido assim tão longos esses dias. Tempos virão que serão mais de 18 e talvez mais longos. Mas não vale a pena pensar nisso, por enquanto. O seu a seu tempo, a angústia da antecipação é uma coisa que desaprendo, embora devagar.
 
Apesar de tudo, das saudades quero dizer, fiz o mesmo de sempre, hoje, exceto que descobri novas ruas em que nunca tinha reparado, como a Rue du Jardinet e a Rue Monsieur-le-Prince. A primeira com o outono ao fundo. A segunda cheia de revoluções a cada esquina. As paredes de Paris falam connosco uma língua que alguns de nós conhecem bem. Interpelam-nos. Inquietam-nos. Aqui uma citação de Brecht, das Artes da Revolução. Acolá, um homem de olhos azuis diz-nos o que é a educação. Depois uma frase alegadamente de Victor Hugo – ‘a war between Europeans is a civil war’ – a lembrar-nos o que devíamos ser, Europeus, e a não nos deixar esquecer o que se passa hoje, entre nós. Uma guerra civil, portanto, mesmo se as armas não têm munições, ou mesmo que as munições sejam outras. Noutra parede da Rue Monsieur-le-Prince um casal está debaixo de um chapéu de chuva olhando em direções opostas. Calha bem, porque hoje chove em Paris e afinal, é uma cidade como todas as outras, indiferença incluída. Por cima do chapéu de chuva do casal um relógio sob o qual está escrito ‘Work Zombie’. Os ponteiros são euros, dólares, libras e ienes. É disto que nos falam as paredes do ‘quartier’ universitário de Paris.
 

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Lettres de Paris #13

La sociologie? Ça c’est génial. La sociologie rurale… c’est encore plus génial!…

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… disse a rapariga do Café-Brasserie Saint-André. Lembro que é o meu café oficial. O mesmo do empregado que fala português com sotaque brasileiro, apesar de ser, como a rapariga, francês de gema. Mais exatamente, a rapariga é da Bourgogne, de ‘un village en Bourgogne. Sei isto porque fui jantar ao Saint-André. A comida é ótima. Não sei porquê hoje não havia menu a preço fixo. De maneira que tendo-se esgotado o ‘plat du jour’ que era precisamente ‘boeuf bourguignon’, lá me decidi por um ‘magret de canard’ que – mesmo que não me tenham perguntado – estava divinal, bem tostadinho, cozinhado no ponto e com as suas batatinhas salteadas ‘aux fines herbes’. Comi tudo o que me puseram no prato e era imenso, bebi uma Leffe e a seguir, não satisfeita, comi uma mousse de chocolate que estava perfeita (Alda, era igualzinha à tua!). Comi como um abade e paguei como uma rainha. De vez em quando, ora, de vez em quando. Disse à menina que ia beber o café na esplanada. E que queria também um ‘verre d’eau’. Ela riu-se. Outro dia eu tinha-lhe pedido um ‘verre de l’eau’ (seria um copo com a água) e ela ensinou-me que era apenas ‘d’eau’ (um copo de água).
 
Quando me trouxe o café e a conta principesca à esplanada, perguntou-me de onde eu era, se era inglesa. Não, disse-lhe eu, sou portuguesa. Ela disse que a minha pronúncia lhe parecia inglesa, não portuguesa. Depois perguntou-me se estava de férias em Paris. ‘Non, je suis lá pour travailler pour quelques mois’, respondi que, com o meu aparente sotaque de inglesa. Claro que ela a seguir me perguntou em que é que eu trabalhava. Comecei a dizer ‘je suis sociologue…’ e ela abriu um grande sorriso e disse, entusiasmadissima: ‘ah, la sociologie? Ça c’est génial!’ e continuou a dizer que era o que gostaria de ser, mas que não estudou para além do liceu. Eu aproveitei uma aberta no entusiasmo dela, para acrescentar que era ‘sociologue rurale’, esperando que se espantasse por estar em Paris, assim sendo. Qual quê?! Ainda ficou mais entusiasmada e disse ‘la sociologie rurale? Mais ça c’est encore plus génial!’.

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Lettres de Paris #12

Moi, j’aime bien la propreté*

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Hoje acordei com uns senhores a baterem-me à porta do estúdio, já não era muito cedo. Vinham medir a alcatifa, para meu espanto. Parece que a vão substituir. Disse-lhes que a alcatifa, embora não seja nova, não me chateava nada. O que me chateava era a falta de candeeiro perto da cama – como vou ler? – e a falta de aquecimento na casa de banho. Ainda lhe falei no exaustor, mas afinal parece que é mesmo assim, fraquinho, e não está estragado.
 
Seja como for, mediram a alcatifa. Quando cheguei a casa à noite também já me tinham substituído o candeeiro estragado. O aquecimento ‘dans la salle de bain’ é que nada. Estão neste momento 4º em Paris. E ainda estamos só no início de novembro. Espero bem que me arranjem o aquecimento ou arrisco-me a morrer congelada cada vez que precisar de ir à casa de banho. Já morro gelada cada vez que vou à janela fumar um cigarro. Como hoje de manhã, depois do episódio da medição da alcatifa. Assisti a uma belíssima discussão, digna dos bairros mais populares de Lisboa, na Rue Suger. Um homem veio trazer uma encomenda de várias caixas, muito pesadas, aparentemente. Estacionou o camião grande, que bloqueava a rua, porque é bastante estreita. Tirou as caixas e deixou-as no chão, no meio da estrada atrás do camião. Uma das senhoras da limpeza da Maison Suger (para onde as caixas vinham) foi lá fora e disse ao homem que ele tinha de carregar as caixas para dentro. Começou a confusão! Que não tinha nada, que ele era só o homem das ‘livraisons’ e que portanto ela ou alguém que metesse as pesadíssimas caixas para dentro.
 

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Lettres de Paris #11

Petits jours, trés longues rues

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Com a mudança da hora, já se sabe, os dias ficaram mais pequenos. Quero dizer, continuam a ter 24 horas, naturalmente, mas anoitece bastante mais cedo. Em Paris às cinco e meia da tarde anoitece. Isso entristece-me, mesmo gostando muito do outono e do inverno não gosto nada que os dias comecem a encurtar-se. O outono em Paris é francamente bonito. As árvores que há em quase toda a parte tomam cores perfeitamente deslumbrantes. Sou capaz de ficar um longo tempo a olhar para as cores das árvores e para as folhas a cair, amarelas, castanhas, vermelhas, até formarem grandes tapetes desalinhados.

Tal como supus ontem à noite, quando me mudei do 3º andar para o 1º da Maison Suger, o meu novo estúdio, além de ter algumas coisas que não funcionam, apanha muito pouca luz do sol. De maneira que hoje, embora o despertador tenha tocado, supus que era ainda madrugada e, sendo feriado, deixei-me ficar na cama – agora grande – a preguiçar. Levantei-me passado um grande bocado e abri a janela. A Rue Suger estava calmíssima e estreita, como de costume. Olhando para cima via-se o céu azul, como uma risca larga no meio dos edifícios. Depois do pequeno almoço, enquanto fumava um cigarro debruçada no varandim, com a cabeça apoiada nos braços, olhei a janela em frente e a rapariga – que agora mesmo, há bocadinho, percebi que estava grávida – que mora nas janelas em frente, viu-me e sorriu-me. Sorri-lhe também, naturalmente. A casa em frente não tem cortinas, parece-me que se mudaram há pouco tempo. Reparei há bocadinho, enquanto fumava outro cigarro debruçada na janela, que estão a arranjar o quarto do bebé. Há um armário verde claro, de portas abertas mesmo em frente à janela e o rapaz andou um bocado de volta dele, de certeza cheio de cuidados e amor. A barriga da rapariga é bonita e está já grande.

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Lettres de Paris #10

‘Faites de chaque sortie une aventure’…

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está escrito num anúncio de uma das lojas Au Vieux Campeur, do Boulevard Saint Germain. Eu esforço-me, mesmo porque e fácil fazer de cada saída uma aventura, nesta cidade cheia de coisas para ver. Não é que hoje sea tenha passado grande coisa, além de ter ido trabalhar, de o Ladyss estar vazio, como tem sido hábito e de ter voltado para casa, para mudar de estúdio.
Mas de manhã em vez de ir pelo boulevard Saint Germain, resolvi ir pela Rue de l’École de Médecine e ainda bem que o fiz. Dei com a Université René Descartes, bem bonita e com a Université de Paris III – Sorbonne Nouvelle. Muitas universidades e ‘ramos’ há nesta cidade. Sobretudo no ‘meu’ bairro. O bairro latino ou Quartier Latin. Universidades, cinemas, bares, livrarias, restaurantezinhos simpáticos como aquele em que jantei ontem, La Fourmi Ailée, que é como quem diz, a Formiga Alada, ou com asas, como quiserem,

Lettres de Paris #9

‘Miraaaa mi amor la torre es tan chulaaaaa!!’

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Não há melhor maneira de ver Paris que de barco. Sempre que venho cá, ando de barco no Sena e de todas as vezes é mesmo, sem exagero, como se fosse a primeira. Sempre a mesma maravilha. Paris a partir da água fica ainda mais bonita. E hoje está um dia glorioso, um céu azul quase sem nuvens e um sol intenso que desenha sombras ao longo das paredes de todos os cais do Sena.
De maneira que desta vez, não sendo turista, fui ser turista e apanhei o BateauBus no Quai de Montebello. Allez hop. A bordo. Passei a tarde inteira no barco, saí aqui e ali, demorei-me mais (e arrependi-me) na Torre Eiffel, a que não subi desta vez. Estavam multidões à volta dela e sinceramente, preferi observá-la de baixo para cima, nos Champs de Mars e no Quai Branly, nos primeiros admirando também os patos, completamente indiferentes aos turistas. A caminho – cruzando todas as pontes sobre o Sena, tão bonitas, tão encadeadas umas nas outras – uma menina dizia para a sua avó, ‘mais la tour, elle est minuscule!!’. Vista dali era, de facto minúscula. Mas a criança, e todos no barco, à medida que nos aproximávamos da torre, foi ficando silenciosa, entre o maravilhado e o espantado. O rendilhado da enorme torre impõe a maravilha, o espanto e até muito respeito por quem foi capaz de idealizar e de construir uma torre ‘minuscule’ como esta.

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Lettres de Paris #8

Les grandes villes n’existent pas*

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e Paris aqui está para o demonstrar. Não existem as cidades grandes. Existem muitas cidades dentro de uma cidade. Cidades pequenas que, eventualmente, formarão a cidade grande. Paris é uma cidade formada por muitas cidades e bairros e pessoas e pontes e o rio Sena. Paris é uma cidade tão bonita que custa a descrever e as fotografias jamais dirão dela aquilo que deveriam. Paris é a cidade do amor, ou é isso que as pessoas pensam, pelo menos. E agem de acordo. Nunca vi em mais lado nenhum tantas pessoas a beijarem-se cinematográficamente, tantos casais de mão dada, tantas noivas em cima das pontes, tanto cadeado, tanto amor, no fundo ou aquilo que parece ser amor.
 
‘Et moi je vais seule’, como na canção da François Hardy ’touts les garçons et les filles de mon âge’. Vou sozinha mas bem acompanhada pelas cidades que Paris é e pela beleza de todas elas. Quando saio da Rue Suger vou direita ao Quai des Augustins para chegar à Pont Neuf, que cruza a ponta mais estreita da île de la Cité. Atravesso-a, vejo os namorados e os cadeados, a meio, e continuo para o outro lado, para o Quais du Louvre. Continuo, admirando o outono absoluto de Paris. O cinzento de vidro do céu, as cores quentes das árvores, o sena da cor de um espelho. Percorro o Quai du Louvre até entrar no Quai François Miterrand, aqui vou até meio da Pont des Arts para ver melhor a île de la Cité e a Pont Neuf que se parte em duas, ao cruzá-la. Ando à beira do Sena a reparar nas pessoas sentadas nos bancos, nas mãos dadas dos casais e depois entro no Louvre. Ou melhor, entro no exterior do Louvre. Só lá fui uma vez, mas desta tenho tempo e o Louvre não se vê numa tarde. Descobri ontem à noite que há ciclos de cinema no Louvre (neste momento Abel Ferrara). Adoro os franceses e o seu amor ao cinema, acho que já tinha dito, mas direi as vezes que me apetecer. Um povo que adora tanto o cinema não pode ser mau, nem antipático. Um povo que enche salas de cinema só pode ser o que os parisienses parecem ser: um pouco românticos, um pouco ternos, um pouco intelectuais, um pouco despassarados, até. Todos os ingredientes que me agradam, portanto.

Lettres de Paris #7

«le comptoir d’un café est le parlement du peuple»

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E se o povo francês tem coisas a dizer! Falam bastante os franceses e em geral são absolutamente amistosos. Bem sei que a maioria das pessoas que não são francesas acha este povo antipático e arrogante. Eu, exceção feita às meninas do RER no aeroporto Charles de Gaulle, no dia em que cheguei, ainda não tive – nem das outras vezes que aqui estive – qualquer razão de queixa. Até já arranquei um sorrisinho à velhota da padaria, que tem umas baguettes excelentes. Por outro lado, o alegado racismo dos franceses também ainda não o experimentei. Quando digo que sou portuguesa ninguém me ostraciza ou me olha com pena (embora, convenhamos, no que se refere a esta última parte, devessem, por muitas razões de que agora não vamos falar).
Hoje ao jantar ali na brasserie da esquina – a Brasserie Saint-André des Arts – o empregado reconheceu-me de ter lá ido beber um chocolate quente no dia em que cheguei de armas, mas sobretudo bagagens, à Rue Suger. Reconheceu-me e apesar de eu estar sozinha – ou talvez por isso, e estes gestos dizem muito acerca de um povo – sentou-me numa mesa boa, bem no centro do café. Deve ter intuído que a mim me agrada observar as pessoas. E ali havia imensas para observar. Não levei o telemóvel a jantar e por isso estava absolutamente preparada para o meu desporto preferido: peoplespotting.

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Lettres de Paris #6

‘How would you like to die and in what form would you chosen to come back?’

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é a questão final do chamado Proust Questionnaire que hoje me entretive a ler e a fazer na Shakespeare an Company, no café, não na livraria, quando fui lá almoçar um sumo de laranja e um bagel de salmão. A resposta a esta pergunta é simples, gostava de morrer de repente, sem sentir, nem sofrer senão o minuto antes da hora da morte e gostava de regressar como Parisiense. Humana e parisiense. E, mesmo sendo pormenores, com melhores pernas e bastante mais dinheiro.
 
Bem sei que ainda há menos de dois meses declarei que queria ser nova iorquina, mais exatamente west villager, e ter uma pequena livraria. Mas acontece que me adapto facilmente aos lugares (bastante mais que às pessoas e que às situações inesperadas), sobretudo quando os lugares são assim. Cinematográficos, e também por isso familiares. Portanto, como já disse tantas vezes e em tantos contextos, eu poderia ser bem de qualquer parte, ou de quase toda a parte. Basta um pouco de reconhecimento, familiariedade e cinema. Voilá.
 

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Lettres de Paris #5

La sociologie est un sport de combat*,

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estava escrito no chão mesmo em frente ao Collège de France, na Rue des Écoles. Ontem também passei lá mas não ia, talvez, de olhos no chão. Vi isto ao fim da tarde, quando regressava do Ladyss, onde não estava praticamente ninguém. Conheço muita gente que trabalha em casa. Eu não sou exatamente uma dessas pessoas. Quer dizer, corrijo testes, leio artigos e teses, mas escrever não consigo a partir de casa. Escrever com alguma substância, quero dizer. Desde pequena sempre separei um pouco o trabalho da casa. A casa é sobretudo para descansar e para realizar tarefas menos pesadas. Estudar e trabalhar a sério é uma coisa que sempre fiz fora de casa. Os meus colegas não parecem pensar o mesmo, de maneira, que tive o Ladyss praticamente por minha conta. Minha e do porteiro que fala muito depressa, mas hoje me disse que ia começar a falar comigo ‘plus doucement’. Agradeci-lhe. Fala depressa e para dentro e odeia aparentemente o trabalho que tem. Pelo menos queixa-se muito. Talvez gostasse de ir trabalhar para casa também.

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