Lettres de Paris #2


Mon coeur qui bat

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Vou passar a escrever cartas pequenas, sobretudo porque estou aqui para trabalhar, embora Paris tenha distrações para me entreter para o resto da vida. A própria cidade, com os seus recantos, cafés, esplanadas, fontes, pontes, monumentos e o Sena. Devia dizer A Sena, visto que em francês o Sena é feminino e compreende-se.
Saio da Maison Suger já passa bastante do meio dia. Dormi mal e pouco. Quando me levanto e abro a janela, vejo o sol e o céu azul e animo-me, apesar do cansaço. Percorro a Rue Suger até encontrar a Place Saint-André des Arts e logo depois a Place Saint-Michel. Fico um bocadinho a admirar este domingo nas duas praças e atravesso a estrada para a Pont Saint-Michel. Ali está A Sena e ali está a Catedral de Notre Dame e ali está esta paisagem tão familiar de quase todos, mesmo daqueles que nunca aqui vieram. Peço a uma rapariga loira que me tire uma fotografia. Ela tira mas aconselha-me (deve ter sido por causa da máquina) a ‘faire attention aux pickpockets’. Rio-me e digo-lhe que sim, farei. Não é que faça, na verdade, quero dizer, não ando na rua a pensar que vou ser assaltada. Até hoje só fui assaltada uma vez e foi na minha própria cidade, dentro de um supermercado.
Deixo a rapariga e os seus conselhos e atravesso a ponte. Percorro os poucos metros que me separam da Notre Dame e constato que não há muitos turistas. Quase nenhuns, o que me agrada. Volto a atravessar para o outro lado, na Petit Pont, mesmo em frente à belíssima livraria Shakespeare & Company. Entro um bocadinho e ponho-me a folhear A Moveable Feast (em português Paris é uma Festa) do Hemingway, numa versão supostamente revista. Talvez o compre e o releia na língua em que foi escrito. Mas hoje não comprei nada, a não ser comida e um bilhete de cinema. Da livraria vou pela Rue Saint-Julien Le Pauvre, passo a igrejinha onde se concentram, à entrada, as pessoas que saem da missa e aprecio a calma de Paris, neste domingo com sol e céu azul. Mais à frente bebo um café na esplanada do San Severin, mesmo diante da igreja com o mesmo nome, e tenho mesmo que tirar o casaco, por causa do sol que me bate em cheio.

Quando me levanto, alguns minutos depois, cheia de sol e de agradecimento por este tempo que faz, vou pela Rue des Prêtes San Severin, viro à direita na Rue Parcheminerie, com as suas lojinhas de artesanato. Entro numa onde um senhor de óculos na ponta do nariz trabalha. Faz uns bonecos de madeira deliciosos. Fico ali um bocado a olhar para eles e a pensar que darão bons presentes de natal. São realmente bonitos. Saio da lojinha e continuo até à Rue de la Harpe. Passo pela Monk – Taverne de Cluny e de lá de dentro sai, claro – reparem no nome – obviamente bom jazz. Encontro o Boulevard Saint Germain, passo o jardim medieval, bem bonito. Passo a livraria (hoje fechada, que pena) Eyrolles, a Rue Jean Beauvais e depois encontro a Rue de Carmes, no fim da qual, depois de uma subida, se encontra o Panteão. A Rue de Carmes transforma-se na Rue Vallete, muito perto da praça do Panteão. É aqui que vou trabalhar, no LADYSS – Laboratoire Dynamiques Sociales et Recompositions des Espaces. Amanhã volto cá, às 3 para falar com os colegas com quem, espero, irei fazer alguma coisa interessante.
Subo mais um bocadinho e estou na Place du Pantheon. Ali está ele, gigantesco. Ali está a igreja de Saint-Ètienne du Mont e a Mairie do 5éme, do outro lado da praça. Contorno o Panteão devagar e encontro Jean Jacques Rousseau, meditabundo e com o olhar distante. Procurará talvez a Torre Eiffel que apenas se avista quando se chega em frente ao Panteão. É a primeira vez que a vejo desde que cheguei. Digo-lhe um olá longínquo. A praça tem algumas pessoas que tiram fotografias. Não muitas, umas e outras. Começo devagar a descer a Rue Soufflot e o céu torna-se de repente mais cinzento. Meto pela Rue Saint-Jacques, à direita, e entro na Rue Cujas, ao fundo da qual encontro um cinema. Já ontem vi outro na Rue Saint-André des Arts. Vejo a programação e parece-me que pode ser um local a frequentar. Mais a mais porque os bilhetes custam só 8,5 euros (mais tarde perceberei que este é de facto um preço excelente para um cinema em Paris). Viro à direita para o Boulevard Saint-Michel e vejo os Jardins do Luxemburgo. Atravesso a estrada e à entrada compro umas castanhas assadas. Entro no enorme jardim, com as suas cores absolutamente outonais. Sento-me num banco a comer as castanhas, que estão decentemente assadas. Estão num pacote tão bonito que até tenho pena de o deitar fora. Fico por ali a ver as magníficas cores das árvores e as pessoas. Há um casal de adolescentes que se beija. Mais adiante um homem sózinho que lê um livro. Grupos de pessoas que conversam. Crianças que correm. E o chão coberto de folhas de todas as cores. Há muitas estátuas. A primeira que vejo é a de George Sand, escritora (de seu nome Armandine Dupin), branca entre o vermelho, o amarelo e o verde. Gosto destes jardins e das suas estátuas e dos seus bancos e das suas cadeiras.
Quando saio dos Jardins do Luxemburgo começa a chover. Primeiro levemente, depois em gotas grossas. O cheiro do ar, que a chuva lava, sabe bem. À porta dos Jardins uma senhora canta – extraordináriamente mal – alguns êxitos da língua francesa. Está, quando chego ao portão, a cantar La Vie en Rose, da Edith Piaf. Um clássico, portanto. A seguir ataca – e atacar é aqui a palavra correta – o Ne me quitte pas, do Jacques Brel. Resolvo deixá-la, porque me custa ouvir a música ser assassinada daquele modo, e volto pelo Boulevard Saint-Michel, com o meu pequeno chapéu de chuva aberto. Passo na Place de La Sorbonne, linda sob a chuva e lembro-me do Rui e das histórias que me contava de Paris, quando aqui estudou. A pensar no Rui, desço a Rue de la Sorbonne, com as suas pequenas livrarias. Entro depois na Rue des Écoles e encontro de novo o Boulevard Saint-Michel e outro cinema, com boa programação.
Passo pelo outro lado dos jardins medievais e atravesso o Boulevard Saint-Germain. Um pouco à frente entro na Rue Serpente e encontro outro cinema, este de uma cadeia – mk2. Vejo os filmes. Alguns estão em Portugal. Há um, no entanto que me desperta a atenção: Poesía Sin Fin**, de Alejandro Jodorowsky. Um filme chileno-francês. Resolvo entrar e comprar um bilhete. Custou 11 euros e 20 cêntimos. Caramba! A sessão é só às 17h45, por isso vou à Maison Suger (ali tão perto, é só virar à direita na Rue Danton e depois à esquerda) deixar a máquina fotográfica. São 17h05. Tenho tempo de ir, ficar um bocadinho e regressar. A sala está apinhada e é absolutamente confortável. Absolutamente. O filme primeiro estranha-se. É sobre a ousadia de viver a nossa vida como bem entendemos, basicamente. Concretamente é sobre a passagem da adolescência à vida adulta de Alejandro Jodorowsky, um poeta chileno que acaba por vir morar em Paris. O filme acaba quando ele parte para Paris. É um filme cheio de fantasia e lirismo revolucionário. Gostei. E gostei sobretudo de ver que, em Paris, as pessoas vão ao cinema e enchem as salas. Vou ser feliz aqui.
Quando a sessão acabou resolvo ir jantar. Escolho mal o restaurante. Embora não seja nada caro, ou talvez por não ser caro, a comida não é nada de especial. Tomo nota disso enquanto bebo um café e fumo um cigarro. Continua a chover. Gosto de Paris aos domingos. Gosto de Paris à chuva. Gosto de Paris cheio de cinemas e livrarias e galerias e jardins e museus. Gosto do Quartier Latin. Gosto da poesia sem fim desta cidade e o meu coração bate mais quando ela me toma nos braços, como no La Vie en Rose, da Piaf que a senhora à porta dos Jardins do Luxemburgo assassinou.

Comments

  1. Nascimento says:

    Das muitas vezes que andei por esse e outros lugares em Paris havia um que fazia parte do trajeto obrigatório: Croco Jazz( vinis de Jazz), e, mesmo em frente, La Dame Blanche só Cássica ,( o dono, um expert em clássica, mas, nem se falasse em Yehudi Menuhin ,havia ” guerra” pela certa…) estas lojas ficam ao lado do Panteão, na rua de La Montagne de Saint Geneviève.
    Porque era obrigatório esta visita? Sentir-se em casa e também é nesta rua que existe o grande centro de artes marciais ( judo por exp), a JUDOGI MAGAZINS desde 1953.
    Como em Portugal não havia rien, um tipo aproveitava e carregava tudo de mochila ás costas. Vinis? Ui, uma maravilha! e com ” educadores” eheheheh…um dia lá voltarei.
    Bons passeios e mande noticias.Inté…

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