Postcards from London #5

Do a thing a day that scares you

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repetimos as coisas, quase sempre, quase todas as coisas. como se fosse a primeira vez e fosse tudo sempre novo. assim é nas viagens. em toda a parte, suponho. falo da maioria das pessoas. creio haver uma minoria que já nada repete. e se fecha ao mínimo desgosto ou susto. gosto de pensar que é mesmo uma minoria, mas na verdade não tenho a certeza.

não que eu seja particularmente destemida ou corajosa. Mas gosto de começos. do princípio. quando tudo se anuncia e é possível. não é, no entanto – acho – possível estar sempre a começar qualquer coisa. uma viagem, um texto, um trabalho, uma amizade, um amor, tudo. Começamos tudo muitas vezes e acabamos tudo vezes demais. tudo com idênticas repetições, mas que, a cada vez, nos parece diferente e novo. escrevo isto no avião e se calhar porque me sinto sempre frágil aqui. E hoje é também do cansaço do fim desta pequena viagem, outras vezes repetida mas, sim, desta vez anunciando não sei bem o quê, um pouco assustador.

ao acordar esta manhã estava um sol encantador. arrumei por isso as tralhas rapidamente, tomei o pequeno almoço servida pelas miúdas portuguesas que me trataram como se fossem a minha mãe, ou seja, com muito mimo, deixei a mala no hotel e saí para a rua. lembrei-me de voltar a covent garden e assim fiz. apanhei o metro para leicester square e caminhei um pouco até ao mercado animadíssimo como dele me lembrava. e com sol, como nunca o tinha visto. turistas misturados com locais, porém numa proporção desequilibrada a favor dos primeiros, é evidente. ando por ali, sento-me ao sol, fumo ao sol, sou um pequeno gato ao sol, esta manhã. há palhaços, homens-estátua, equilibristas, vendedores de tudo e de nada que (me) importe. coisas pequeninas, que na sua maioria não servem para nada, objetos diversos, quinquilharia. como nem sequer tenho fome, não gasto um cêntimo, devia dizer um ‘penny’, em covent garden. apenas aproveito o sol para olhar para as pessoas na sua vida pachorrenta de domingo. enquanto estou ao sol lembro-me da noite de ontem, no pub. o peixe e as batatas fritas e uma conversa inesperada à chuva. nada que vá começar, seja como for. [Read more…]

Postcards from London #4

Ride with Pride, despite this is a highway to nowhere


quando chego à universidade de westminster, depois de ter dado de caras com a estátua do sherlock holmes mal saio do metro, há pessoas de cabelos coloridos a fumar dentro do ‘perímetro’. e balões em vários tons de rosa e uma passadeira arco-íris. apesar de ir fazer a minha apresentação hoje duvido que tanta animação seja por minha causa e estou, evidentemente, certa. trata-se de uma festa organizada pelos estudantes lgbt – ‪#‎ridewithpride‬.
o átrio da universidade está transformado numa feira, com pessoas coloridas, com palcos onde se canta e toca. quase me dá vontade de esquecer a apresentação e ficar por ali a apreciar a agitação e a observar as pessoas. mas depressa realizo que a música é horrível e, por isso, decido ir para a sala 303.
a apresentação corre bem. os meus colegas gostam principalmente dos traillers dos filmes, que apresento, especialmente de ‘dot.com’ e de ‘ainda há pastores?’. No final e ao almoço e cá fora no ‘perímetro’ (se hoje a regra é infringir as regras, eu aproveito) enquanto se fuma um cigarro no meio dos balões cor-de-rosa, muitos hão-de vir falar comigo e dizerem ‘que coisa interessante! nunca tinha pensado em analisar o rural no cinema’ ou ‘os filmes que analisaram têm legendas em inglês?’ ou diante da minha resposta de que pelo menos os trailers tiveram de ser legendados pelo Diogo em inglês, ‘oh! sim, é esse o problema dos filmes portugueses, sabe? é tão difícil encontrar obras legendadas?’. Sei. Acontece o mesmo com muitas outras coisas. esta espécie de demissão de sermos vistos e compreendidos. mas, no entanto… [Read more…]

Postcards from London #3

Perímetros de segurança… ou os fumadores que nos matam a todos, tão prematuramente, ou ainda a arte, tão delicada afinal, de ser português

londres – e não é o único lugar do reino unido ou do mundo em que senti já isto – é uma cidade que mistura a agressividade com a delicadeza. sim, é aparentemente possível ser delicado e agressivo, ao mesmo tempo. tudo é possível, já o sabemos, e as cidades e as pessoas são sempre tantas e imensas coisas que se torna difícil estabelecer perímetros em redor dos comportamentos, dentro dos quais caibam noções claras e arrumadas. as pessoas tratam-te por ‘love’ e por ‘darling’ como em mais nenhum lugar, com um tom animado e querido, como se fosses um velho amigo e, no momento seguinte, se alguma coisa não lhes soa bem no que dizes ou no que fazes olham-te com uma agressividade, ainda por cima fria, que te faz querer fugir dali. Olhas em volta, em toda a parte e as ordens gritam-te num silêncio agressivo, do asfalto – ‘look left’, ‘look right’, no metro ‘mind the gap’ , ‘keep your ticket’, ‘this side to go up’, ‘keep on the right’… – e outras vezes gritam-te mesmo, num tom de voz muito ‘cheerful’ no entanto, pelos altifalantes das carruagens, das estações, dos autocarros.
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Postcards from London #2

‘what is that landscape? / it is the landscape in my head’

tenho a sensação que nada fiz senão andar, hoje. andar na paisagem. andar à chuva. subir e descer escadas. andar. na paisagem que tenho na cabeça. andar por dentro das paisagens que outros têm ou tiveram na cabeça.

revisito de manhã a tate britain. o kiefer já não mora ali. mudaram-no para a modern mas também ali não está em exibição. fico um pouco desapontada com este desarranjo na paisagem que tenho dentro da cabeça. mas visito o mar de turner, tempestuoso, esbatido, violentamente poético. o céu de turner. igual ao mar. visito o resto, também, está bem de ver. blake. moore. e os demais cujas paisagens se exibem nos meus passos. saio da tate britain já é hora de almoço. ando um pouco ao longo de millbank. apanho um autocarro embaciado até parliament square e de novo se repetem paisagens, gestos. apanho o metro para southwark. quando saio chove copiosamente. tanto que resolvo almoçar num pub mesmo ali em frente. não chove dentro do pub e por momentos até penso sol dentro da minha cabeça. [Read more…]

Postcards from London #1

esta claridade obscura que escorre das estrelas*

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hei-de sempre lamentar que a humanidade não tenha ainda descoberto o teletransporte, como nas séries que via em miúda, por exemplo, ‘espaço 1999’, em que as pessoas demoravam segundos a mudar de planeta. era um tempo, aquele em que eu era miúda, em que ninguém que (me) importava tinha morrido. nem sequer eu vez nenhuma ainda, e em que 1999 parecia um futuro tão longínquo, que ía demorar séculos – e não décadas – a chegar. na escola eu fazia frequentemente de doutora helen devido ao meu corte de cabelo. havia outra miúda que fazia de maya habitualmente e eu, apesar de admirar a doutora helen e de com ela partilhar o corte de cabelo, por vezes chateava-me porque, claro, quem tinha os olhos verdes era eu e não a outra miúda.
isto nada tem a ver com londres, ou terá tudo. por um lado, ainda ninguém inventou o teletransporte e tendo saído de casa às três da tarde, entrei no número 83 de gower street apenas às onze da noite. por outro lado, quando eu era miúda e via o ‘espaço 1999’ era, genericamente, feliz. tal como sempre fui em londres desde há muitos anos. a primeira vez era tão nova, ía a caminho da irlanda, com o meu cabelo muito curto, já nada parecida com a doutora helen, os meus óculos redondos e a minha solidão menos desejada que hoje, é verdade, mas ainda assim, agradável. das outras vezes tive sempre companhia. a mesma, algumas vezes. outra, diferente de muitas maneiras, da última vez, já lá vão quase seis anos. fui sempre feliz em londres. e não é verdade que não podemos voltar, ou não devemos, aos lugares onde já fomos felizes. devemos. e é bom que possamos. voltar a todos os lugares, de certo modo familiares. não digo caseiros, mas aqueles lugares onde nos movemos razoavelmente bem, como em casa de um amigo que só às vezes visitamos. [Read more…]