Postcards from London #3

Perímetros de segurança… ou os fumadores que nos matam a todos, tão prematuramente, ou ainda a arte, tão delicada afinal, de ser português

londres – e não é o único lugar do reino unido ou do mundo em que senti já isto – é uma cidade que mistura a agressividade com a delicadeza. sim, é aparentemente possível ser delicado e agressivo, ao mesmo tempo. tudo é possível, já o sabemos, e as cidades e as pessoas são sempre tantas e imensas coisas que se torna difícil estabelecer perímetros em redor dos comportamentos, dentro dos quais caibam noções claras e arrumadas. as pessoas tratam-te por ‘love’ e por ‘darling’ como em mais nenhum lugar, com um tom animado e querido, como se fosses um velho amigo e, no momento seguinte, se alguma coisa não lhes soa bem no que dizes ou no que fazes olham-te com uma agressividade, ainda por cima fria, que te faz querer fugir dali. Olhas em volta, em toda a parte e as ordens gritam-te num silêncio agressivo, do asfalto – ‘look left’, ‘look right’, no metro ‘mind the gap’ , ‘keep your ticket’, ‘this side to go up’, ‘keep on the right’… – e outras vezes gritam-te mesmo, num tom de voz muito ‘cheerful’ no entanto, pelos altifalantes das carruagens, das estações, dos autocarros.

em todo o lado, esta agressividade delicada ou esta delicadeza agressiva. é verdade que há imensas regras a cumprir, algumas nem dás por elas até chegar o momento em que as infringes. mais tarde ou mais cedo, vai acontecer. é nesses momentos que sentes uma profunda saudade do teu país, mesmo que tenhas saído há poucos dias e para lá regresses daqui a nada. saudades da flexibilidade, da delicadeza que é geralmente genuína, da agressividade que o é também de forma autêntica. acho que a nossa sorte – nossa, dos portugueses – é estarmos mesmo em toda a parte, para sermos delicados uns com os outros, coisa importante, especialmente quando existe esta distância fria.
acordei mais tarde do que queria. muito cedo, ainda assim, para os meus hábitos. estava sol ao abrir a janela que dá para a gower street. um dia glorioso posso até dizer, particularmente nesta cidade quase sempre cinzenta. olhei para o relógio em sobressalto. ainda não estava dramaticamente atrasada para o início do congresso, mas ao pequeno almoço bem podia dizer adeus. olhei as duas maçãs e o café instantaneo que alguém me deixou no quarto e suspirei. servirão até chegar à rua, pensei. enfiei-me no minúsculo duche resignada.
quando acabei, estava a secar-me, batem à porta e ao meu ‘yes?’ surpreendido, uma voz masculina responde em português: ‘não veio tomar o pequeno almoço, vinha perguntar-lhe se quer que lhe traga um tabuleiro’. fico uns segundos perplexa a olhar para a porta fechada através da qual alguém fala comigo na minha língua e com tanta gentileza. juro que me apeteceu abri-la e abraçar o senhor, mas ainda não me tinha vestido e por isso respondi apenas ‘obrigadinha (e há lá coisa mais portuguesa que obrigadinha?), é muito simpático, eu desço já, se me puder guardar um café agradeço’. ele diz que sim e ouço os seus passos afastarem-se da porta. seco o cabelo em pouquíssimos minutos, visto-me, calço-me, agarro na mala e nas tralhas e saio. desço os três andares simpáticos, embora alcatifados. ao fundo das escadas uma rapariga diz-me ‘bom dia’. e eu – que até agora só tinha falado, no hotel, com um inglês e uma belga – digo-lhe com um sorriso: ‘mas quantos portugueses trabalham aqui?’. ‘três’, responde ela. e eu digo-lhe que sou contente pela simpatia. ela diz que já me trazem o café (um café bom, português em tudo, já o havia notado ontem) que me sente na sala. eu sento-me e aparece o homem que me falou de trás da porta, com um café e dois croissants e um sumo de laranja. noutros sítios, atrasas-te meia-hora e tens de comer na rua. aqui perguntam-te se queres que te levem o pequeno almoço ao quarto! digo ao senhor ‘que simpático, muito obrigada’, com o meu melhor sorriso que, bom, não é grande coisa, mas a culpa não é minha*. tagarelamos um bocado. tenho uma sensação de aconchego, que transporto para a rua enquanto ponho os óculos de sol e depois caminho até euston square. um dia glorioso, já o disse. o sol nas fachadas dos prédios, nos ramos das àrvores sem folhas, nos rostos dos que passam. é uma pena que me vá fechar em salas de aulas e anfiteatros daqui a nada.
tomo o metro e saio em baker street, logo à minha frente o madame tussauds – que visitei uma vez há quase 20 anos e bastou-me para nunca mais – e logo do outro lado o edíficio principal da universidade de westminster. tenho um cigarro aceso na mão e dirijo-me para a entrada. um segurança avança rapidamente para mim e diz-me com um ar agressivo: ‘you can not smoke inside the perimeter’… eu páro espantada, estou na rua, qual perímetro? ele repete: ‘you can not smoke inside the perimeter, that white line’… olho para o chão, em frente à entrada principal da universidade um quadrado desenhado a branco marca um perímetro que quem não anda de olhos baixos jamais verá. dentro do quadrado não se pode fumar, apesar de ser tão rua como dois centímetros além dele. recuo para fora do perímetro, murmurando um ‘i’am sorry, i didn’t notice that’. o segurança olha-me como se eu fosse uma assassina que irá matar prematuramente toda a gente em seu redor, com o fumo de um cigarro minúsculo. sinto-me quase assim, é verdade, até reparar nos outros assassinos como eu que puxam dos seus cigarros fora do perímetro de segurança e fumam como quem detona pequeníssimas bombas de normalidade à minha volta.
acabo de fumar e entro no edíficio. no grande e moderníssimo hall, uma fila de barreiras, tal e qual como nas estações de metro, e vários seguranças. vejo as pessoas passarem um cartão que eu não tenho, vou à receção e abrem-me uma das barreiras. registo-me na conferência. vou para a sessão que me interessa. seria tudo ainda mais moderno e ‘clean’ se não fossem as malditas alcatifas. quase todos são britânicos. estão aqui apenas duas pessoas que conheço e com quem trocarei palavras verdadeiramente simpáticas e sem perímetros de segurança, como sempre. de resto não reconheço ninguém mais. são sobretudo arquitectos e designers e outros artistas. as comunicações são interessantes, geralmente. duas ou três são apenas perplexidades de quem quer falar das imagens do rural a partir de perspetivas disciplinares onde estas questões não são habitualmente tratadas. perplexidades que me são familiares, tal como as respostas que encontram, afinal. são o meu perímetro, é verdade, a linha dentro da qual me movo, embora eu não costume traçà-la à minha volta. e nisto, como no obrigadinha e no gosto por espaços sem barreiras, sou absoluta e descomplexadamente portuguesa.
*já agora, digo. o hotel é o Arosfa Hotel, gower street, 83, uma localização central, um pequeno almoço inglês (que ainda não consegui tomar) com bom aspeto, e claro… as pessoas mais simpáticas do mundo.

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