Postcards from London #4

Ride with Pride, despite this is a highway to nowhere


quando chego à universidade de westminster, depois de ter dado de caras com a estátua do sherlock holmes mal saio do metro, há pessoas de cabelos coloridos a fumar dentro do ‘perímetro’. e balões em vários tons de rosa e uma passadeira arco-íris. apesar de ir fazer a minha apresentação hoje duvido que tanta animação seja por minha causa e estou, evidentemente, certa. trata-se de uma festa organizada pelos estudantes lgbt – ‪#‎ridewithpride‬.
o átrio da universidade está transformado numa feira, com pessoas coloridas, com palcos onde se canta e toca. quase me dá vontade de esquecer a apresentação e ficar por ali a apreciar a agitação e a observar as pessoas. mas depressa realizo que a música é horrível e, por isso, decido ir para a sala 303.
a apresentação corre bem. os meus colegas gostam principalmente dos traillers dos filmes, que apresento, especialmente de ‘dot.com’ e de ‘ainda há pastores?’. No final e ao almoço e cá fora no ‘perímetro’ (se hoje a regra é infringir as regras, eu aproveito) enquanto se fuma um cigarro no meio dos balões cor-de-rosa, muitos hão-de vir falar comigo e dizerem ‘que coisa interessante! nunca tinha pensado em analisar o rural no cinema’ ou ‘os filmes que analisaram têm legendas em inglês?’ ou diante da minha resposta de que pelo menos os trailers tiveram de ser legendados pelo Diogo em inglês, ‘oh! sim, é esse o problema dos filmes portugueses, sabe? é tão difícil encontrar obras legendadas?’. Sei. Acontece o mesmo com muitas outras coisas. esta espécie de demissão de sermos vistos e compreendidos. mas, no entanto…
na sessão em que apresento a minha comunicação, apresentam também dois britânicos que falam (como habitualmente) com um sotaque cerradíssimo e um alemão que fala (naturalmente) um inglês perfeito. apesar disso, no espaço devotado à discussão, ele começa uma resposta a uma questão que lhe puseram como ‘i am sorry that my english is not that good’. aquilo, como sempre, inquieta-me. quando chega a minha vez de responder começo exatamente por aí. e digo que apesar de o meu inglês não ser bom não vou pedir desculpa por isso, já que (o congresso é sobretudo constituído por britânicos, serão talvez 90%) tenho quase a certeza que ali poucas pessoas, ou nenhumas, falarão português, italiano ou mesmo francês ou outra língua qualquer. os que não são britânicos acenam com a cabeça aprovadoramente. os britânicos sorriem. era o que me faltava! – vou pensando enquanto respondo com o meu sotaque português – pedir desculpa por saber comunicar em várias línguas diante de gente que só comunica numa e com um sotaque que mais ninguém entende completamente!! ‘ride with pride’, que diabo!
percebo, e já o escrevi algumas vezes, que os cientistas devam comunicar em inglês. tem de haver uma língua comum entre nós, para nos entendermos e interagirmos. o inglês é bom para isso, por muitas razões. mas daí a termos (os não nativos) que pedir desculpa por não possuir o irrepreensível sotaque britânico de quem vai tomar chá com a rainha… vai uma distância enorme. raramente me orgulho de ser portuguesa, mas o português é uma língua extraordinária e o meu sotaque quando falo inglês é genuinamente português e nisso faço até alguma questão. e então?
almoçamos melhor que ontem. a comida não é uma questão relevante para estas pessoas do centro e do norte da europa, já o sabemos. e, também aqui, a minha condição de ‘europeia do sul’ me traz conforto. a seguir ao almoço vou a uma sessão sobre desenvolvimento rural. um colega espanhol apresenta uma comunicação sobre o abandono de várias áreas rurais. os processos e as dinâmicas são em tudo semelhantes aos que se observaram em muitas partes de portugal. na discussão os britânicos visivelmente não entendem o nosso ‘countryside’ e as suas transformações. é outro mundo. é outro campo. é outro olhar sobre as coisas. no espaço para discussão, aproveito para chamar a atenção para isso, que o campo não é todo igual ao valorizado e belíssimo (geralmente) ‘british countryside’ e que em espanha, tal como em portugal e na grécia, a severa crise económica e financeira tem contribuído muito para desmantelar o que resta. sem alternativas. juan, o espanhol, concorda e acentua. diz que o dinheiro da união europeia serviu sobretudo para construir estradas, autoestradas, ‘highways to nowhere’ exclamo eu. os outros riem-se. mas de facto, se fores espanhol, português, grego, italiano (do sul)… não tem assim tanta graça.
quando o congresso acaba ainda é relativamente cedo e ainda está claro na rua. resolvo ir passear. vou até tower bridge, no metro, que hoje funciona mal e com muitas supressões. vejo a tower of london, imponente. a tower bridge sobre a qual vai anoitecendo. os barcos que prometem uma vista inesquecível estão logo ali. apanho um, para ver londres anoitecer à minha frente, já esquecida do mundo rural em portugal, esse mundo sobre o qual vai anoitecendo desde há muitos anos sem que ninguém se importe muito. o passeio vale cada ‘pence’. londres que se ilumina devagar, vista desde o tamisa vale bem uma visita. saio do barco em westminster, em parliament square, caminho devagar com o big ben iluminado e impressionante e a abadia assustadora, quando as nuvens se abrem e a lua espreita como um sinal de um deus que não existe. apanho o metro na estação de westminster… já antes de ontem havia tido a mesma sensação – parece um quadro de escher. mais precisamente ‘relativity’. com os seus tubos metálicos enormes, as escadas que se cruzam e se descruzam, o seu gigantismo frio nas entranhas da terra.
no fundo, tudo se resumirá a isto, pessoas que vão anoitecendo, em diferentes cenários, devagar, algumas com orgulho de serem o que são, outras de serem de onde são e outras ainda de falar uma língua que é o seu país. todas, no entanto, estão na mesma estrada que eu. uma estrada que avança – quantas vezes demasiado depressa – para lugar nenhum.

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