Postcards from London #2

‘what is that landscape? / it is the landscape in my head’

tenho a sensação que nada fiz senão andar, hoje. andar na paisagem. andar à chuva. subir e descer escadas. andar. na paisagem que tenho na cabeça. andar por dentro das paisagens que outros têm ou tiveram na cabeça.

revisito de manhã a tate britain. o kiefer já não mora ali. mudaram-no para a modern mas também ali não está em exibição. fico um pouco desapontada com este desarranjo na paisagem que tenho dentro da cabeça. mas visito o mar de turner, tempestuoso, esbatido, violentamente poético. o céu de turner. igual ao mar. visito o resto, também, está bem de ver. blake. moore. e os demais cujas paisagens se exibem nos meus passos. saio da tate britain já é hora de almoço. ando um pouco ao longo de millbank. apanho um autocarro embaciado até parliament square e de novo se repetem paisagens, gestos. apanho o metro para southwark. quando saio chove copiosamente. tanto que resolvo almoçar num pub mesmo ali em frente. não chove dentro do pub e por momentos até penso sol dentro da minha cabeça.

quando saio do pub, uma hora mais tarde, está um vento gélido, mas a chuva parou. caminho pela blackfriars road até à ponte com o mesmo nome e um pouco antes de entrar nesta desço as escadas à direita e avanço ao longo do tamisa, amarelado e triste. chego à tate modern. passo a tarde toda a revisitar paisagens conhecidas. há, no entanto, uns quadros de cy twombly que nunca tinha visto. enormes. magníficos. mas não os prefiro às suas quatro estações. as paisagens amontoam-se na minha cabeça e, a certa altura, preciso de café. um cigarro num dos terraços sobre o tamisa. reconheço a paisagem. cumprimento-a. é grátis, como são grátis as entradas nas exposições permanentes das duas tates. há países a sério, é verdade. às vezes esqueço-me embrulhada no quotidiano cada vez mais sombrio da minha própria terra. triste paisagem que sacudo rapidamnte da cabeça, neste instante.

quando saio da tate modern já escureceu. atravesso a millenium bridge. a london bridge lá ao fundo está iluminada. uma cor que fica bem nesta paisagem, subitamente alterada pelo azul intenso. do outro lado o london eye são uns pontinhos vermelhos. caminho, quando alcanço a outra margem, até à estação de metro de blackfriars. ando. ando. ando. outra vez. no metro volto a reparar nas pessoas sempre debruçadas sobre os seus telemóveis e tablets. nas pessoas que não reparam em nada a não ser nessas paisagens que vão tecendo com os dedos minuciosa e rapidamente. euston square. a gower street, que hoje ninguém estendeu à minha frente. o hotel. o quarto. lembro-me que às 20h havia bebidas de boas vindas ao congresso. mas doem-me os pés. amanhã e depois lá irei ver as paisagens (re)imaginadas da ruralidade, que outros (e eu a eles) me desvendarão. tenho fome. e algum sono. saio para comer. outro sítio simpático. ao regressar bebo uma cerveja no pub da esquina.

duas espanholas conversam na mesa ao lado. conversam sobre homens. Sobre a sua frieza, nesta noite tão fria como a descrição que deles fazem. ouço a conversa, paisagem familiar em qualquer língua, mesmo naquela que apenas falo comigo. penso que daqui a uns meses a rapariga que teve o seu desgosto de amor, com um desses homens frios – ‘hijo de puta’, chama-lhe ela, a meu ver, pelo que entendi da conversa, bem – que, aqui e ali, ao menos uma vez, já fizeram parte da paisagem de todas as mulheres, terá encontrado outro amor. desejo-lhe, sem me meter na conversa, que sim. ela quer uma família, ouvi-a dizer duas ou três vezes. é a sua paisagem. a que há mais tempo persegue e cria e recria a cada ‘hijo de puta’ que lhe aparece ao caminho.

quando saio, continua sem chover e o frio estilhaça-me. ao entrar no quarto, onde não posso andar mais de 10 ou 15 passos, reconheço a disposição dos móvéis. o cheiro. é já paisagem este quarto. já poderia dar esses 10 ou 15 passos às escuras (e dou-os mais tarde, sem que os dê) e isto lembra-me o projeto que vi na tate modern, de artur zmijewski. ‘blindly’. invisuais que pintam paisagens e elementos da natureza. coisas que nunca viram mas imaginam. a um deles, depois de acabar o seu quadro, o autor do documentário pergunta: ‘que paisagem é essa?’. o pintor temporário, permanentemente cego, responde: ‘é a paisagem dentro da minha cabeça’. como são todas, em cada um de nós. Suponho eu.

Comments


  1. Uma perguntinha só , o dispensar de maiúsculas , é opção estilística ou defeito do teclado?

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