Postcards from London #3

Perímetros de segurança… ou os fumadores que nos matam a todos, tão prematuramente, ou ainda a arte, tão delicada afinal, de ser português

londres – e não é o único lugar do reino unido ou do mundo em que senti já isto – é uma cidade que mistura a agressividade com a delicadeza. sim, é aparentemente possível ser delicado e agressivo, ao mesmo tempo. tudo é possível, já o sabemos, e as cidades e as pessoas são sempre tantas e imensas coisas que se torna difícil estabelecer perímetros em redor dos comportamentos, dentro dos quais caibam noções claras e arrumadas. as pessoas tratam-te por ‘love’ e por ‘darling’ como em mais nenhum lugar, com um tom animado e querido, como se fosses um velho amigo e, no momento seguinte, se alguma coisa não lhes soa bem no que dizes ou no que fazes olham-te com uma agressividade, ainda por cima fria, que te faz querer fugir dali. Olhas em volta, em toda a parte e as ordens gritam-te num silêncio agressivo, do asfalto – ‘look left’, ‘look right’, no metro ‘mind the gap’ , ‘keep your ticket’, ‘this side to go up’, ‘keep on the right’… – e outras vezes gritam-te mesmo, num tom de voz muito ‘cheerful’ no entanto, pelos altifalantes das carruagens, das estações, dos autocarros.
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Sim, façam obras e comprem equipamentos…

… que depois é tudo para mandar para o lixo.

Os benefícios do tabaco

Fátima Reis, uma investigadora dos malefícios do tabaco, constatou em restaurantes que “havia pessoas a fumar a cerca de um metro de distância da porta e foi observada entrada de fumo no estabelecimento.” Fátima Reis suponho que também deve ter visto automóveis a um metro de distância de algumas dessas portas mas não nos conta se observou o fumo dos escapes a caminho da cozinha.

Emília Nunes, da Direcção-Geral de Saúde, tem um ideal: “que as pessoas não fumassem em casa ou quando vão no carro com terceiros, mas isso são questões que não podemos legislar”.

Podia argumentar contra a nova lei do tabaco que se avizinha. Podia demonstrar que o verdadeiro sonho de Francisco George é proibir o tabaco e provavelmente todos os vícios. Quer ele que eu viva mais anos, não tenho a pretensão de lhe explicar que um ano da minha de fumador me pode ter dado mais pequenos prazeres que dez da sua ocupados a preocupar-se com a minha saúde. Podia escrever os insultos que me inspiram, e merecem, estes purificadores da existência humana,

Não vale a pena, neste caso confio em dois ministros, o das Finanças e o da Saúde. Ambos sabem que os impostos pagos pelos fumadores pagam os tratamentos de todos os cancros pulmonares e mais uns tantos, e acreditam na poupança que a estatística que nos dá menos anos de vida provoca na Segurança Social.

Quando aterramos no reino da imbecilidade nada como invocar o vil metal: resulta quase sempre.

na fotografia Oscar Niemeyer, nascido em 1907, fumador, retirada do excelente Volúpia na Tabacaria onde podem apreciar centenas de imagens de fumadores muito pouco anónimos

A protecção dos trabalhadores contra o fumo em segunda mão (fumadores passivos)

A ACOP exige revisão da lei antitabáquica.

Mercê da subversão das normas e da estranha opção que acabou por se sedimentar, os trabalhadores dos estabelecimentos de bebidas (cafés, snack bares e similares) “qualificados” como “azuis” (em que se fuma indiscriminadamente) não têm qualquer protecção.

Com a extrapolação da regra para os restaurantes, independentemente da área prevista por lei, fenómeno análogo se observa, vale dizer, durante o período laboral ficam expostos, sem remissão, ao fumo dos comensais fumadores, não se poupando aí sequer os menores que acompanhem os seus familiares.

Há locais de trabalho em que as zonas reservadas aos fumadores são contíguas (sem qualquer protecção acrescida) às que se consignam às tarefas laborais, o que subverte em absoluto o escopo da lei.

Não houve, por razões compreensíveis, qualquer investimento nas zonas de fumo das instalações laborais, o que causa natural incomodidade aos trabalhadores que fumam com as quebras sensíveis que se registam nos ritmos de trabalho e no rendimento específico de cada um e todos.

Situações de manifesta desigualdade e ausência de proporcionalidade entre os que fumam e os que resistem ao tabaco e aos produtos do tabaco.

Com a exposição dos trabalhadores, em situações climatéricas de ponta, às inclemências do tempo, as enfermidades disparam e o absentismo, ainda que não medido pelas estâncias do poder e as estruturas da saúde, cresce exponencialmente.

Referência ao facto de a OMS haver sustentado, desde sempre, que não há sistemas eficazes de extracção de fumos, mas o mais grave é que, por razões de economia, mesmo os precários sistemas implantados nos estabelecimentos de restauração, de bebidas, cafetaria e similares, só episodicamente funcionam com os efeitos negativos daí decorrentes.

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Um último cigarro – dedicado ao amigo Adão Cruz

Amigo Adão, eu li os seus textos de hoje (este e depois este) e assenti em silêncio a tudo o que li. Eu sei que reduzi o risco de contrair múltiplas e terríveis doenças. Admito que recuperei o meu paladar e a capacidade de subir sem parar os intermináveis lances de escadas da minha casa e que até, provavelmente, o meu hálito melhorou, embora não me sinta avalizada para afirmá-lo. Eu sei que foi uma decisão adulta, sensata, ecológica, e que pode ter prolongado o meu tempo de vida. Mas eu trocaria todos esses benefícios por só mais um cigarro fumado sem o remorso da fraqueza de vontade nem a angústia da recaída.  Um só cigarro, sem réplica, e eu não me importava de voltar a arfar a meio das escadas.

Eu reconheço que fumava de mais: nos dias bons um maço completo, nos maus perdia a conta aos cigarros que fumava. E só deixei por completo o tabaco porque estava grávida. Se estivesse em causa apenas a minha saúde teria continuado a fumar sem hesitações. Não há racionalidade no vicio, já sabemos, a compulsão exige ser comprazida. Mas eu justificava-me alegando que o tabaco, com todos os seus malefícios, não induz estados alterados de consciência, não turva tanto assim o discernimento. Não provoca alucinações, não nos leva a fazer figuras tristes, desde que não se considere triste ser a única pessoa a sair da camioneta na paragem de descanso a meio de uma viagem Lisboa-Porto, às três da manhã, com 1 ou 2 graus lá fora, e um vento de cortar (daí que há quem diga que os fumadores morrem mais cedo não devido ao tabaco mas às condições a que são expostos, sempre a apanhar correntes de ar). Enfim, que há dependências mais nocivas, quero dizer. E a companhia digna e silenciosa de um cigarro fumado ao cair da noite, quando se pondera uma decisão difícil ou se lambe a ferida de um desengano? E o fumo conspiratório de uma reunião de amigos, quando o brilho das imagens que se lançam é proporcional à espessura da nuvem que nos vai cobrindo? E o alívio, ainda que momentâneo, do cigarro da espera, aquele que vem aplacar a ansiedade dos grandes momentos, aquele que parece aquietar os batimentos cardíacos, por muito traiçoeiro que isso seja, eu sei, amigo Adão, na verdade faz o contrário? Tudo isto se perde. E parece certo que as vantagens do abandono do tabaco não se vêem de imediato, não.  Vão chegando pouco a pouco, como que para testar a resolução do ex-fumador. Tudo isso acabou para mim. Não me permito sequer colocar a hipótese de voltar a fumar. Mas, juro-lhe, amigo Adão, se fosse apenas um, sem hipótese de recair na armadilha da dependência…