O homem que gostava das mulheres

As minhas férias acabaram há uns dias. E para gastar os últimos cartuchos passei as últimas três semanas a ler os livros do Stieg Larsson, a saga Millennium. Li, nesse espaço de tempo, cerca de 1900 páginas. Normalmente não critico livros. Mas a verdade é que nos últimos dias a minha vida revolveu à volta desta colecção. E tenho sem dúvida algumas coisas a dizer.

Os livros de Stieg Larsson não são seguramente literatura da primeira linha, uma obra de genialidade como as que saem da pena de Garcia Marquez ou Thomas Mann. Sublinho isto porque já sei que os intelectuais do costume gostam de olhar para este tipo de livros com o sobrolho franzido e com ar de “estás a ler isso? Com a tua idade lia Dostoievski!”. Ou o sexto melhor poeta bielorrusso. Descansem. Stieg Larsson não é um génio da História da Literatura. Mas se tivesse que descrever a obra dele há uma expressão que me parece muito apropriada: São francamente bons. Estão bem escritos, bem construídos e extremamente bem pensados. Estão bem relacionados. Quem escreve ou já tentou escrever ficção, sabe que uma das coisas mais difíceis de conseguir fazer é estabelecer ligações, ou seja, fazer com que tudo bata certo, com que tudo faça sentido. Larsson faz isso na perfeição. É óbvio que há um ou outro pormenor que escapa, uma ou outra coisa que seria muito difícil de acontecer na vida real. Mas mesmo assim, para a quantidade de personagens que são criadas, para os vários enredos que coexistem é fantástica a maneira como ele consegue conjugar tudo isto. Este é um dos muitos factores que explicam o sucesso desta colecção.

[Read more…]

A rapariga que finalmente se viu livre do calhamaço sueco

Lisbeth Salander (adaptação ao cinema de "Millennium")

Pronto. Acabei. Tão cedo ninguém me venha falar da Lisbeth Salander nem do Super Sacana Blomkvist. Isto foi uma espécie de uma doença súbita, com períodos de acalmia após a conclusão de um volume, logo atormentados pelos sintomas de abstinência que me compeliam a começar o ler o seguinte.

Falo da trilogia “Millennium”, do sueco Stieg Larsson. Eu até pensava que não gostava. Basta um livro ser um sucesso de vendas em todo o mundo para eu desconfiar que não gosto. Mas a porra da história bem contada, um policial escorreito, a angústia dos nossos tempos tão bem descrita nessa fusão improvável de estatísticas, personagens ficcionais sólidas, linhas de mobiliário Ikea, gadgets e peças de roupa, tornam as quase duas mil páginas  num vício de que não nos livramos até ao último volume. [Read more…]