A esperança está na cultura

Um livro sobre uma história de amor entre uma israelita e um palestiniano foi retirado dos programas curriculares dos liceus israelitas. Em resposta, Geder Haya tornou-se um dos livros mais vendidos em Israel e “ocupa o primeiro lugar lugar na lista de livros do jornal Haaretz”.
A resposta dos leitores Israelitas só por si agrada-me bastante (assim como a resposta da Time Out de Tel Aviv). Mas também me agrada o comentário de Amos Oz:

“Por que não, então, proibir o estudo da Bíblia, já que se trata de censurar relações sexuais entre judeus e não-judeus?”

Na adversidade, meus amigos, a resposta é ler livros.

 

Miguel Relvas, Paula Teixeira da Cruz e o PS dos Negócios

Não, não estamos em Palermo, Nápoles ou numa ditadura do terceiro mundo. Estamos nesse portugalito onde a Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, não perde a apresentação do livro de Miguel Relvas, o mesmo Relvas que está no centro da investigação do Gabinete da Luta Anti-fraude da União Europeia (OLAF) sobre o financiamento da empresa Tecnoforma através de fundos comunitários em 2004, quando Passos Coelho era gestor da Tecnoforma e o próprio Miguel Relvas, então secretário de Estado da Administração Local, adjudicou 1,2 milhões de euros à mesma Tecnoforma para a formação de funcionários de aeródromos. O Miguelito de costas quentes, estava radiante na apresentação. Parecia um puto perdoado pela mãe depois de partir a cristaleira.

Se tivéssemos um presidente a sério isto seria motivo para demitir a Ministra, mas não sejamos demasiado exigentes.

Aliás a lista de presenças durante a apresentação do livro de Relvas foi muito esclarecedora: Maria Luís Albuquerque, Durão Barroso, Passos Coelho, Luís Marques Guedes, vários secretários de Estado, Fernando Seara (que também não perdeu a apresentação do livro de Domingos Névoa), Marco António Costa, o empresário José Maria Ricciardi e o PS dos Negócios (tal como o definiu Seguro) representado por Jorge Coelho. Se Nuno Crato também comparecesse, Relvas conseguiria o jackpot da falta de decoro.

A grande questão é: o que sabe Relvas para ter ascendente sobre toda esta constelação? Quando a coisa tem esta dimensão o mais provável são questões de financiamento do partido e/ou de campanhas eleitorais. Nah, estou a reinar, votem outra vez nos mesmos, força!

Os amigos de Relvas

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Quando se traça a geografia política dos amigos de Miguel Relvas é impossível ficar indiferente à amplitude da máquina de influências que Relvas montou. Já conhecíamos o poder que continua a deter sobre Passos Coelho e Paulo Pereira Coelho, ambos envolvidos no caso Tecnoforma que está a ser investigado pelo OLAF (Gabinete da Luta Antifraude da União Europeia). Hoje, Durão Barroso assume a filiação ao grupo exclusivo dos amigos de Miguel Relvas apresentando o seu novo livro, no qual Aznar assina o prefácio. Este é o mesmo Durão Barroso que em Abril do passado ano lamentou que o ensino em Portugal perdeu exigência, como é sabido Relvas é a encarnação suprema da exigência do ensino nacional. Mas este é certamente um irrelevante detalhe comparado com o serviço que um ex-presidente da comissão irá prestar a uma pessoa que está a ser investigada por múltiplas fraudes curriculares e é suspeito de beneficiar a Tecnoforma quando foi Secretário de Estado da Administração Local. O ex-político mais descredibilizado do país demonstra assim ter um poder notável sobre o nosso primeiro-ministro e o ex-Presidente da Comissão Europeia. Espero que a Procuradoria Geral da República se interesse por esta questão e sobretudo que comunique muito com o OLAF.

Em Abril, Rodrigo Rato, vice-presidente do governo de Aznar, começou a ser investigado por fraude fiscal. Afinal faz todo o sentido o prefácio de Aznar ao livro de Relvas.

Adaptação de artigo publicado no diário As Beiras a 11/06/2015.

A Simone e o Miguel

Senhores do Observador,

Eu sei que vocês são de Direita e eu até aplaudo a iniciativa e o site está muito giro do ponto de vista gráfico. Mas este tipo de artigos são escusados. Por um homem (Miguel Freitas da Costa) a debitar meia dúzia de lugares comuns sobre a Simone de Beauvoir e o feminismo, um homem que usa a expressão patriarcado entre aspas, é insultoso para a inteligência de quem lê o jornal. Eu sei que são de Direita mas têm mesmo de cair no erro de detestar intelectuais que não partilham das vossas opiniões políticas? Eu fui de Direita durante algum tempo e sempre gostei do Garcia Marquez. Agora que já não sou tanto de Direita continuo a gostar do Jorge Luis Borges. Pode-se ser de direita e gostar do Mário Cesariny. Não, a sério, juro que é verdade. Não estamos no século XVIII em que todos temos que imitar os philosophes. As percepções literárias mudaram e a forma como lidamos e experimentamos a literatura também.

E depois, meus amigos, vocês são os primeiros a queixar-se das pessoas que dizem, erroneamente, que não há intelectuais de direita. Haver há, nenhum escreve é para o Observador. O que é uma pena.

Adeuzinho e leiam mais livros, está bom?

“Contribuintes, vocês são o elo mais fraco”

banco bom banco mau

“Começou a ser escrito há mais de um ano e teve uma recta final alucinante porque, qual novela, não paravam (não param!) de acontecer coisas aos seus protagonistas. Chegou hoje às livrarias. E eu ainda estou num certo estado de estupefacção. Espero que gostem.” Rute Sousa Vasco

Obrigada por este bocadinho, François! (III)

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Na montra de uma livraria em França onde o livro da ex de Hollande não está à venda, um poster de um filme imaginário com menção ao caso do tweet contra Ségolène Royal com que Trierweiler desafiou Hollande

Alguns livreiros recusam-se a vender o livro de Valérie Trierweiler, Merci pour ce moment, revoltados que estão com o fenómeno estapafúrdio gerado por um livro que, com justeza, consideram sem qualidades, apesar de ter vendido numa só semana o que a maior parte dos escritores franceses não consegue numa vida literária. [Read more…]

Quando os lobos julgam a justiça uiva

No dia 25 de Abril de 1974, de manhã, cheguei ao Liceu de V. N. de Famalicão, terra onde vivia, e não havia aulas. De acordo com o que nos disseram havia mudanças e ninguém sabia muito bem o que se iria passar. Uma coisa ficamos logo a saber, não íamos para a tropa! (ir para a tropa significava, para mim e para os meus amigos, então com 16 anos, ir para a guerra, e falávamos muito disso).

Durante toda a manhã ficamos nas imediações do Liceu, entretanto fechado, em pequenos grupos e a conversar sobre o que ainda não percebíamos muito bem. Lembro-me de dois aviões que passaram nos céus, e não eram os da TAP. De tarde, e depois de mais informações, quer de alguns professores quer de alguns pais, ficamos a saber algo mais. Tudo iria mudar.

Para mim, verifiquei logo uma mudança, alguns livros que havia em minha casa, escondidos pelos meus pais, começaram a estar à vista, junto com os outros. Lembro-me de alguns do Miguel Torga, do Aquilino Ribeiro, e outros, que um amigo de meus pais trazia às escondidas do Brasil (Roberto das Neves, um célebre anarquista, Tomás da Fonseca, etc.). E assim tratei logo de ler alguns desses livros que estavam proibidos. Lembro-me do Bichos, do Torga, e Quando os lobos uivam, do Aquilino Ribeiro. Este retrata o que foi a expropriação violenta dos terrenos baldios (que tem uma administração própria, em regime comunitário) pela administração fascista do Estado Novo, com a consequente plantação de pinheiro em grandes parcelas do nosso território, e que matou a economia local em muitas localidades. O romance descreve essa luta, as perseguições e a repressão, com mortos.
Proibido, pois.

Junto com este havia outro, editado no Brasil, que hoje conservo. Trata-se da transcrição da  acusação e da defesa em tribunal do Aquilino por causa daquele livro.

Passados 40 anos do 25 de Abril, relembro esse, intitulado Quando os lobos julgam a justiça uiva.