A rapariga que finalmente se viu livre do calhamaço sueco

Lisbeth Salander (adaptação ao cinema de "Millennium")

Pronto. Acabei. Tão cedo ninguém me venha falar da Lisbeth Salander nem do Super Sacana Blomkvist. Isto foi uma espécie de uma doença súbita, com períodos de acalmia após a conclusão de um volume, logo atormentados pelos sintomas de abstinência que me compeliam a começar o ler o seguinte.

Falo da trilogia “Millennium”, do sueco Stieg Larsson. Eu até pensava que não gostava. Basta um livro ser um sucesso de vendas em todo o mundo para eu desconfiar que não gosto. Mas a porra da história bem contada, um policial escorreito, a angústia dos nossos tempos tão bem descrita nessa fusão improvável de estatísticas, personagens ficcionais sólidas, linhas de mobiliário Ikea, gadgets e peças de roupa, tornam as quase duas mil páginas  num vício de que não nos livramos até ao último volume.

No seu ambiente de policial negro do século XXI, entre hackers e autoridades corruptas, Larsson criou uma alegoria perfeita para esta época: a insubordinação civil contra um sistema opressivo personificada numa hacker com ar de gótica, pouco dada a qualquer tentativa de socialização, desconfiada do próximo, violentada desde a infância, e com um código moral feito à medida. E não é que se gosta da moça?

Se já leram, não preciso de vos dizer mais nada. Se ainda não começaram, estão a tempo de escapar. Mas no instante em que abrirem o primeiro volume já não se safam.

Comments


  1. Conheço o sentimento. Os dois primeiros já estão. Vou para o terceiro. Admito que, se calhar, vou ler devagar, ainda mais devagar que o costume. Tenho medo que acabe.


  2. Estou a meio do terceiro (em francês) e vou lendo cada vez mais devagar pois vai ser difícil encontrar um vicío equivalente com estes ingredientes. Apercebo-me que afinal, da Suécia, só sabia clichés.

  3. carla romualdo says:

    Estou de acordo, Jorge, o livro revela uma Suécia bastante mais imperfeita do que a imagem que os europeus do sul têm dela

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