Cumpriu-se

portugal flag

Coisas que me agradam muito:

  •  A vitória da Selecção.
  •  O Éder a marcar no fim; um momento de ironia e de justiça poética que pôs em causa a minha visão do universo e das leis que o governam.
  • O Quaresma a mostrar o melhor de si mesmo e o melhor de nós.
  • O Renato que aos 18 anos teve de enfrentar uma miríade de gente a chamar-lhe mentiroso e mesmo assim conseguiu ajudar a equipa em momentos importantes.
  •  O exorcismo de 2004. Já merecíamos.
  •  A prova que o futebol é – e deve sempre ser – um jogo de equipa, de interajuda, de solidariedade. A queda de um jogador – mesmo um jogador tão extraordinário como Ronaldo – não impede a vitória se houver vontade e espírito de sacrifício.
  • Ontem andei por Lisboa e as pessoas estavam visivelmente felizes. Isso apaziguou a cínica que vive em mim.

Coisas que me desagradam:

  • O poder político a aproveitar-se descaradamente de uma vitória da selecção e as tentativas confrangedoras de aparecer nas imagens com os jogadores.
  • Qualquer dia (hoje não porque estou feliz e gostava de continuar por mais algum tempo) temos de falar sobre esta coisa das generalizações. Já não temos 20 anos para fazermos reduzirmos milhões de pessoas a epítetos ridículos e/ou insultuosos.
  •  Portugal ainda não ter ganho a Eurovisão.

Notas sobre o Brexit

 

 

  • Algumas almas pretendem apresentar o referendo como uma vitória dos eurocépticos contra a União Europeia. É verdade. Mas não é toda a verdade.

 

  • Esta campanha foi baseada na discussão sobre a imigração. Tornou-se um voto contra a entrada supostamente desenfreada de imigrantes vindos da União Europeia (o caso mais notório, polacos e búlgaros). Provas? Quem está à frente da campanha foi Nigel Farage e Boris Jonhson. A palavra chave da campanha foi Imigração.

 

  • Isto não quer dizer que todas as pessoas que votaram Leave são racistas ou xenófobas. Isso é uma visão redutora e simplista. Muitas votaram porque têm de facto preocupações legítimas sobre o futuro da União Europeia. E os votos, todos eles, seja porque razão forem, têm legitimidade e devem ser aceites. É a democracia.

 

  • Contudo, é inegável que muitas outras pessoas votaram em nome daquilo em que em Inglaterra se chama “the little Englander mentality”.  Mais do que isso, a campanha foi conduzida de acordo com essa mentalidade. Isto quer dizer o quê exactamente?

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Carta de amor a Lisboa

Lisboa

Normalmente não gosto de colocar aqui publicações do facebook mas esta notícia supera-me. Ainda tive uma vaga esperança que fosse mentira. Não é.  Vivo em Lisboa desde sempre. Os meus pais iam ao Jamaica. A minha mãe ainda vai. Ainda há uns meses estive no Europa.

O Diogo Faro tem toda a razão. A Lisboa que eu amo não é esta Lisboa dos hostels, dos tuk-tuk, dos rankings, dos mercados, do diabo a quatro mais um hamburguer gourmet. Não é que os hamburguers gourmet não sejam bons mas eu posso comer um hamburguer com um ovo, bacon e compota de frutos silvestres em qualquer sítio do mundo. O que não posso é ir ao Bairro Alto em qualquer sítio do mundo e sentar-me nos degraus das casas com um copo de plástico. E lá ficar pela madrugada dentro já depois dos bares terem cumprido a hora do fecho. O que não posso é ir ao Europa ou ao Jamaica em Londres, está bem? Não posso ir aos alfarrabistas da Baixa em Berlim. Não posso ir a Nova Iorque e passar à porta de uma tasca e ouvir um marmanjo invariavelmente bêbado embrulhado num fado vadio. Não posso ir ás Catacumbas no Rio de Janeiro. Não posso ir ao Japão comer ameijoas no Baleal. Não posso pagar uma renda altíssima e desajustada ao nível de vida dos Portugueses só porque vivo no Castelo ou em Alfama. Na Suécia eu não posso ver a placa do Eça mesmo por cima do Nicola. Não posso sentar-me nos degraus do Dona Maria à espera que a peça comece enquanto vejo a malta a brincar nas fontes do Rossio.

A Lisboa que eu amo é a Lisboa das tascas, dos eléctricos vazios às oito da noite ou oito da manhã (A única hora em que se apanha lisboetas no eléctrico) das discotecas na Rua Nova do Carvalho, daquele kiosque no Príncipe Real, a Lisboa dos putos a empoleirarem-se nos coretos, é a Lisboa em que o dono de um salão de cabeleireiro para homens sabe a que horas acaba a hora de almoço do alfarrabista do lado e da modista em frente, é a Lisboa em que os bairros são pequenas aldeias onde toda a gente se conhece, onde há donos de restaurantes que já vinham do tempo dos nossos pais, dos nossos avós. A Lisboa que eu amo é a Lisboa do Galeto, do Stop, do Jesus (Do Goês).  É a Lisboa dos casais a namorar na rua do Alecrim enquanto estorvam quem quer passar. A Lisboa que eu amo é a Lisboa em que se grita na Bica “O Bairro Alto é que é!” e sai um insulto de uma janela porque só um lisboeta é que sabe onde acaba a Bica e começa o Bairro Alto. A Lisboa que eu amo é a Lisboa das lojas empoeiradas e despretensiosas, com bustos do Eça e do Herculano. A Lisboa dos miúdos – e miúdas – a andarem à “boleia” na porta de trás dos eléctricos. A Lisboa do Bairro onde se encontra toda a gente. A Lisboa que eu amo é a Lisboa dos prédios antigos, mal pintados, todos diferentes e desalinhados, a Lisboa descuidada, que parece que acabou de acordar, a Lisboa da calma do café ao fim da tarde ali nas Arcadas do Martinho ou no Miradouro da Graça. A Lisboa que eu amo é a Lisboa que se galga e conhece a pé, com muito esforço, e não numa coisa acolchoada que só faz barulho.

A Lisboa que eu amo merece mais do que este planeamento ridículo, do “dá dinheiro então faz-se”, sem visão, sem futuro, sem nada. Uma visão que só pretende tornar Lisboa, a minha Lisboa, numa cidade genérica, igual ás outras que foram ganhando fama à custa de rankings e restaurantes com estrelas michelin. Uma Lisboa sem lisboetas. E não me lixem, mas os lisboetas fazem Lisboa, os lisboetas são Lisboa. Ignorantes, curiosos, mal-dizentes, bairristas, mal-educados ou educados de mais, doidos por novidades mas detestando a mudança, com um respeito indiferente pela diferença. Isto são os lisboetas. Lisboa é deles. É nossa. É minha. E estragarem-ma é que não permito. Nem admito.

 

Porquê?

Porque é que não pode deixar de haver brinquedos para menina ou menino? Como é que isto vos afecta? Porque é que uma menina não pode ter um carro e um menino uma boneca? Objectivamente, qual é o problema? Que hecatombe é que isto vai acarretar?

Porque é que os gays não podem casar, adoptar? Como é que isto vos afecta?

Porque é que o James Bond não pode ser negro? Pode viver no século XXI, ter uma chefe mulher em vez do homem dos livros do Fleming, e lutar contra talibans em vez de soviéticos mas não pode mudar a cor de pele?

Porque é que uma personagem qualquer de um franchising não pode ser gay? É assim tão estranho achar que numa galáxia far far away pode haver um homossexual?

Isto não é politicamente correcto em acção.

Isto é só a realidade em acção.

E não vos afecta absolutamente nada. Nada. Rien. Nickles.

Os pobres e pouco instruídos

É um bocadinho irritante esta recente mas não original tendência de se dizer que “as pessoas que votam no Trump são pobres e pouco instruídas” (o que deu origem à frase de Trump “I love the poorly educated!”). Não é que isto não seja verdade mas também aposto que há imensos “pobres e pouco educados” (“pouco educado”, um eufemismo que define pessoas que não chegaram às universidades) que votam na Hilary ou no Bernie Sanders – contudo, estes candidatos são vistos como a preferência das “educated middle classes”.

A causa deste conservadorismo bacoco e preconceituoso que tem vindo a ser a cara do Partido Republicano não se encontra na pobreza ou na educação mas sim num sistema que propícia estas situações. O que é que interessa a pessoa ser educada e estar na universidade se cresceu num Estado em que a Evolução não é ensinada nas escolas? Ou num Estado em que a bandeira da Confederação está hasteada em edifícios públicos?

Entristece-me ver parte da esquerda a ir neste discurso dos “pobres” e “pouco educados” sem o questionar, não percebendo que isto é só mais uma forma de demonizar a pobreza.

A um Mestre: Umberto Eco

 

SPETT.UMBERTO ECO A NAPOLI (SUD FOTO SERGIO SIANO)

O Riso liberta o vilão do medo do diabo, porque na festa dos tolos o Diabo aparece pobre e tolo, portanto controlável. Mas este livro poderia ensinar que libertar-se do medo do diabo é a sapiência. Quando ri, enquanto o vinho lhe borbulha na garganta, o vilão sente-se senhor, porque subverteu as relações de senhoria: mas este livro poderia ensinar aos doutos os enigmas argutos, e a partir daquele momento ilustres, com que legitimar a subversão. Então transformar-se-ia em operação do intelecto aquilo que no gesto irreflectido do vilão é ainda e felizmente operação do ventre. Que o riso seja próprio do homem é sinal dos nossos limites de pecadores. Mas deste livro quantas mentes corruptas como a tua extrairiam o extremo silogismo, pelo o qual o riso é a finalidade do homem! O riso, desvia, por alguns instantes, o vilão do medo. Mas a lei impõe-se através do medo, cujo verdadeiro nome é temor de Deus. E deste livro poderia partir a centelha luciferina que transmitiria ao mundo inteiro um novo incêndio: e o riso designar-se-ia como a arte nova, ignorada até de Prometeu, para anular o medo.

Umberto Eco, O Nome da Rosa. 1980.

A melhor forma de homenagear qualquer escritor, especialmente um génio como Eco, é lendo-o.

 

Schadenfreude

O alemão tem esta palavra muito apropriada – schadenfreude. Ela define um sentimento de prazer perante os infortúnios de outras pessoas. Há quem diga que só o alemão é que poderia ter uma palavra que define este prazer um tanto ou quanto perverso. Eu não concordo que seja uma particularidade alemã. Eu acho que é um prazer profundamente humano. É egoísta e maldoso, mas nós também somos um pouco isto – não há estados naturais que nos valham. Pessoalmente, a mim não me alegra particularmente o infortúnio da maior parte das pessoas, salvo raras excepções.

Por exemplo, alegra-me que um dos últimos actos de Cavaco Silva como Presidente da República vá ser o de aprovar, practicamente ao mesmo tempo, duas temáticas que claramente lhe desagradam: o fim das taxas moderadas para as mulheres que abortam e a adopção por casais homossexuais. Não deixa de ser uma metáfora interessante para o fim do termo de Cavaco Silva. Consola-me um bocadinho. O País avança, senhor Presidente. Mesmo consigo. Mesmo apesar de si.