O que dizer deste livro?

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Sttau Monteiro escreve-o em 1961 mas podia perfeitamente escrevê-lo em 71 ou 81 ou 91. O livro, na realidade, começa quase sem época. Isto é, a expressão Estado Novo nunca é referida e a primeira referência a um tempo é uma menção à guerra colonial. Assim se percebe, juntamente com a introdução de Pedro, o período em que as personagens vivem. Isto não é de menos pois a indefinição revela já algo do carácter generalista da história. Pessoas como o Gonçalo, a Teresa, o António e, graças aos céus, o Pedro, vão sempre existir.

O livro é profético. Sttau Monteiro via claramente o fim do Regime apesar do mesmo só vir a cair 14 anos mais tarde num belo dia de Abril. Contudo, o que está em causa não é “apenas” o fim do regime em Portugal mas a questão da classe. Aquilo a que Sttau Monteiro chama a “lógica de classe”, ou seja, a injustiça que é conscientemente perpetuada por uma classe privilegiada que despreza os que não nasceram com tais privilégios. Parafraseando o Gonçalo, as classes altas arranjam sempre mecanismos para se proteger, superando inclusivamente os próprios regimes que as suportam e que elas suportam. Este livro não é mais do que a velha história dos  mais fortes a baterem nos mais fracos e a conseguirem safar-se com isso. Ou quase.

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A minha última viagem ao Trindade

Fui ver a Última viagem de Lenine ao teatro Trindade, posta em cena pelo grupo, Não Matem o Mensageiro. No fim, na sessão de perguntas e respostas com o escritor da peça, o actor único (um brilhante André Levy) e membros da companhia acima referida, foi dito que todo o teatro é político mas esta companhia, ao menos, assume-se. Gostei desta abordagem precisamente pela honestidade. O debate do que pode ou não ser político, quais as formas de arte mais ou menos politizadas, qual a definição de política em si, é extenso e não muito importante para este texto em particular.

O teatro, contudo, é sem dúvida uma das formas de arte mais verdadeiramente políticas que existem. Pela própria ideia de representação e do que ela implica, pelo elo que se cria entre o público e os actores, pelos artifícios literários e gestuais usados.

Estamos em 2016, a precisamente um ano de uma daquelas grandes efemérides da História, a Revolução de Outubro. Seria importante e saudável que houvesse um debate adulto e responsável sobre os acontecimentos revolucionários, sobre o que significou a revolução de Outubro, sobre Lenine e as restantes personagens históricas que o rodeavam. Em qualquer debate deve-se ouvir os vários pontos de vista. Esta peça apresenta um ponto de vista, uma interpretação de Lenine, baseada numa minuciosa pesquisa de factos, com cartas citadas literalmente, com episódios reais a serem mencionados ou retratados. É evidente que há uma grande margem para discordar do ponto de vista e da interpretação, tal como a pessoa lê Gramsci ou Jorge Luís Borges e não tem de acreditar ou apoiar tudo o que lê. Mas não é por isso que não se deve ver ou alimentar este tipo de peças, que se assumem engagés,  em defesa de uma posição.  É ridículo que tenhamos chegado a um tal ponto de absolutismo sectário misturado com alguma indiferença que não consigamos apreciar as complexidades da História, o que ela tem para nos oferecer e que se continue a perder as oportunidades para pensar, pensar a sério, sem falácias e generalizações.

A peça é assumidamente brilhante. André Levy é extraordinário num registo dificílimo, o do monólogo. O texto está muito bom. A quarta parede é ignorada com um recurso apropriado ao humor. Do ponto de vista artístico, está praticamente perfeita. Do ponto de vista político, meus amigos, não dá para fazer spoiler. É ir ver.

Ainda o Nobel

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(Jean-Baptiste Auguste Leloir: Homer, 1841.)

Devo dizer que discordo de Francisca Prieto aqui no Delito. “A literatura é, simplesmente, para ser lida. Não tem outra função, não é apenas uma parte de outra coisa maior.”  Este foi um argumento que vi replicado em vários sítios. Mas não creio que seja de todo assim. Até ao século XVII na Europa, os livros eram lidos em voz alta para uma sala de pessoas (na corte, por exemplo). A literatura não era tanto lida como era ouvida e como era um exercício colectivo. As cantigas de amigo que são a base de qualquer programa de literatura portuguesa, eram originalmente cantadas.

Mais importante: Homero – a ter existido – não sabia ler nem escrever e os seus épicos sobreviveram por via oral até alguém os decidir fixar em escrita. Não podemos dizer simplesmente que Homero já não é relevante pois viveu há muito tempo. Homero é a base de toda a literatura ocidental e quem pensa em literatura e no que ela é hoje não o deve perder de vista.

Hoje em dia, em África e na Índia a oralidade continua a ser uma forma de contar histórias que não têm certamente menos valor do que as ocidentais histórias escritas.

No caso de Dylan, nem sequer estamos a falar na ausência total de um texto porque ele existe sendo “apenas” cantado.

Tudo isto para dizer que a nossa visão de literatura como algo ligado obrigatoriamente a um texto que tem de ser lido individualmente é muito recente.  Eu nem estou necessariamente a favor do Nobel a Dylan. Preferia que o prémio tivesse ido para outros possíveis candidatos. Mas parece-me salutar que a Academia tenha uma visão lata do que é Literatura, uma visão lata da importância da Palavra, seja ela escrita ou oral e especialmente, uma visão que obviamente sabe de onde tudo isto veio.

O Nobel

A ideia de que o Nobel da literatura premeia alguém que é o melhor de todos é um bocado ingénua para não dizer impossível (o melhor de todos é o Tolstoy e já não lhe podemos dar um prémio).
O que o Nobel premeia é alguém que é muito bom de uma forma consistente e que a maior parte das vezes o merece verdadeiramente. Não é a questão de ser o melhor de todos mas é sim de ser muito bom e de ser premiado em resultado disso. Se formos a pensar no Nobel em termos competitivos enlouquecemos.
É óbvio que há pessoas que o receberam e que não mereciam e pessoas que não receberam e que mereciam. Mas o Nobel premiou, ao mesmo tempo, pessoas como Thomas Mann, Saramago, Garcia Marquez, Toni Morrison, Gunter Grass ou Neruda . Ou seja, o desprezo que muitos sentem em relação ao Nobel da literatura pode ser compreensível mas simultaneamente parece-me de mau gosto rejeitá-lo e reduzi-lo a um prémio atribuído por razões políticas. Por muitos génios que não foram reconhecidos, muitos outros foram.

Peniche

Forte de Peniche, Portugal

Forte de Peniche, Portugal

 

Esta notícia do Observador dá conta de uma série de edifícios históricos que são ou vão ser concessionados a privados. Muita coisa se podia dizer em relação a este assunto. Podia dizer-se que se por um lado há formas de rentabilizar edifícios históricos que não incluem a transformação em hotéis ou restaurantes, por outro, na actual situação económica e até cultural do país, é inevitável que isso aconteça. E na realidade esta é uma forma fácil e rentável de aproveitar edifícios com excelente potencial e que estariam condenados ao abandonado e à degradação. Eu compreendo. Eu até concordo.

Em Oeiras por exemplo, o Palácio dos Arcos esteve abandonado durante anos e anos e agora é um hotel. O hotel não mudou a traça exterior do Palácio. De qualquer forma, o Palácio não é muito relevante historicamente – o máximo a que se pode arrogar é de que teria sido do Palácio que Dom Manuel teria visto as naus a partirem para a Índia. Bonito mas uma lenda. O caso do Palácio dos Arcos e a sua transformação em hotel é uma decisão acertada. O hotel veio dinamizar a região. Reformou e manteve um edifício pelo qual a autarquia nunca tinha mostrado interesse. E de facto, com todo o respeito pela memória histórica do Palácio dos Arcos, não se pode dizer que seja um marco importante da história de Portugal. Poderá sê-lo em termos de história local mas Oeiras tem outros grandes marcos como o próprio solar do Marquês.

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Cumpriu-se

portugal flag

Coisas que me agradam muito:

  •  A vitória da Selecção.
  •  O Éder a marcar no fim; um momento de ironia e de justiça poética que pôs em causa a minha visão do universo e das leis que o governam.
  • O Quaresma a mostrar o melhor de si mesmo e o melhor de nós.
  • O Renato que aos 18 anos teve de enfrentar uma miríade de gente a chamar-lhe mentiroso e mesmo assim conseguiu ajudar a equipa em momentos importantes.
  •  O exorcismo de 2004. Já merecíamos.
  •  A prova que o futebol é – e deve sempre ser – um jogo de equipa, de interajuda, de solidariedade. A queda de um jogador – mesmo um jogador tão extraordinário como Ronaldo – não impede a vitória se houver vontade e espírito de sacrifício.
  • Ontem andei por Lisboa e as pessoas estavam visivelmente felizes. Isso apaziguou a cínica que vive em mim.

Coisas que me desagradam:

  • O poder político a aproveitar-se descaradamente de uma vitória da selecção e as tentativas confrangedoras de aparecer nas imagens com os jogadores.
  • Qualquer dia (hoje não porque estou feliz e gostava de continuar por mais algum tempo) temos de falar sobre esta coisa das generalizações. Já não temos 20 anos para fazermos reduzirmos milhões de pessoas a epítetos ridículos e/ou insultuosos.
  •  Portugal ainda não ter ganho a Eurovisão.

Notas sobre o Brexit

 

 

  • Algumas almas pretendem apresentar o referendo como uma vitória dos eurocépticos contra a União Europeia. É verdade. Mas não é toda a verdade.

 

  • Esta campanha foi baseada na discussão sobre a imigração. Tornou-se um voto contra a entrada supostamente desenfreada de imigrantes vindos da União Europeia (o caso mais notório, polacos e búlgaros). Provas? Quem está à frente da campanha foi Nigel Farage e Boris Jonhson. A palavra chave da campanha foi Imigração.

 

  • Isto não quer dizer que todas as pessoas que votaram Leave são racistas ou xenófobas. Isso é uma visão redutora e simplista. Muitas votaram porque têm de facto preocupações legítimas sobre o futuro da União Europeia. E os votos, todos eles, seja porque razão forem, têm legitimidade e devem ser aceites. É a democracia.

 

  • Contudo, é inegável que muitas outras pessoas votaram em nome daquilo em que em Inglaterra se chama “the little Englander mentality”.  Mais do que isso, a campanha foi conduzida de acordo com essa mentalidade. Isto quer dizer o quê exactamente?

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Carta de amor a Lisboa

Lisboa

Normalmente não gosto de colocar aqui publicações do facebook mas esta notícia supera-me. Ainda tive uma vaga esperança que fosse mentira. Não é.  Vivo em Lisboa desde sempre. Os meus pais iam ao Jamaica. A minha mãe ainda vai. Ainda há uns meses estive no Europa.

O Diogo Faro tem toda a razão. A Lisboa que eu amo não é esta Lisboa dos hostels, dos tuk-tuk, dos rankings, dos mercados, do diabo a quatro mais um hamburguer gourmet. Não é que os hamburguers gourmet não sejam bons mas eu posso comer um hamburguer com um ovo, bacon e compota de frutos silvestres em qualquer sítio do mundo. O que não posso é ir ao Bairro Alto em qualquer sítio do mundo e sentar-me nos degraus das casas com um copo de plástico. E lá ficar pela madrugada dentro já depois dos bares terem cumprido a hora do fecho. O que não posso é ir ao Europa ou ao Jamaica em Londres, está bem? Não posso ir aos alfarrabistas da Baixa em Berlim. Não posso ir a Nova Iorque e passar à porta de uma tasca e ouvir um marmanjo invariavelmente bêbado embrulhado num fado vadio. Não posso ir ás Catacumbas no Rio de Janeiro. Não posso ir ao Japão comer ameijoas no Baleal. Não posso pagar uma renda altíssima e desajustada ao nível de vida dos Portugueses só porque vivo no Castelo ou em Alfama. Na Suécia eu não posso ver a placa do Eça mesmo por cima do Nicola. Não posso sentar-me nos degraus do Dona Maria à espera que a peça comece enquanto vejo a malta a brincar nas fontes do Rossio.

A Lisboa que eu amo é a Lisboa das tascas, dos eléctricos vazios às oito da noite ou oito da manhã (A única hora em que se apanha lisboetas no eléctrico) das discotecas na Rua Nova do Carvalho, daquele kiosque no Príncipe Real, a Lisboa dos putos a empoleirarem-se nos coretos, é a Lisboa em que o dono de um salão de cabeleireiro para homens sabe a que horas acaba a hora de almoço do alfarrabista do lado e da modista em frente, é a Lisboa em que os bairros são pequenas aldeias onde toda a gente se conhece, onde há donos de restaurantes que já vinham do tempo dos nossos pais, dos nossos avós. A Lisboa que eu amo é a Lisboa do Galeto, do Stop, do Jesus (Do Goês).  É a Lisboa dos casais a namorar na rua do Alecrim enquanto estorvam quem quer passar. A Lisboa que eu amo é a Lisboa em que se grita na Bica “O Bairro Alto é que é!” e sai um insulto de uma janela porque só um lisboeta é que sabe onde acaba a Bica e começa o Bairro Alto. A Lisboa que eu amo é a Lisboa das lojas empoeiradas e despretensiosas, com bustos do Eça e do Herculano. A Lisboa dos miúdos – e miúdas – a andarem à “boleia” na porta de trás dos eléctricos. A Lisboa do Bairro onde se encontra toda a gente. A Lisboa que eu amo é a Lisboa dos prédios antigos, mal pintados, todos diferentes e desalinhados, a Lisboa descuidada, que parece que acabou de acordar, a Lisboa da calma do café ao fim da tarde ali nas Arcadas do Martinho ou no Miradouro da Graça. A Lisboa que eu amo é a Lisboa que se galga e conhece a pé, com muito esforço, e não numa coisa acolchoada que só faz barulho.

A Lisboa que eu amo merece mais do que este planeamento ridículo, do “dá dinheiro então faz-se”, sem visão, sem futuro, sem nada. Uma visão que só pretende tornar Lisboa, a minha Lisboa, numa cidade genérica, igual ás outras que foram ganhando fama à custa de rankings e restaurantes com estrelas michelin. Uma Lisboa sem lisboetas. E não me lixem, mas os lisboetas fazem Lisboa, os lisboetas são Lisboa. Ignorantes, curiosos, mal-dizentes, bairristas, mal-educados ou educados de mais, doidos por novidades mas detestando a mudança, com um respeito indiferente pela diferença. Isto são os lisboetas. Lisboa é deles. É nossa. É minha. E estragarem-ma é que não permito. Nem admito.

 

Os pobres e pouco instruídos

É um bocadinho irritante esta recente mas não original tendência de se dizer que “as pessoas que votam no Trump são pobres e pouco instruídas” (o que deu origem à frase de Trump “I love the poorly educated!”). Não é que isto não seja verdade mas também aposto que há imensos “pobres e pouco educados” (“pouco educado”, um eufemismo que define pessoas que não chegaram às universidades) que votam na Hilary ou no Bernie Sanders – contudo, estes candidatos são vistos como a preferência das “educated middle classes”.

A causa deste conservadorismo bacoco e preconceituoso que tem vindo a ser a cara do Partido Republicano não se encontra na pobreza ou na educação mas sim num sistema que propícia estas situações. O que é que interessa a pessoa ser educada e estar na universidade se cresceu num Estado em que a Evolução não é ensinada nas escolas? Ou num Estado em que a bandeira da Confederação está hasteada em edifícios públicos?

Entristece-me ver parte da esquerda a ir neste discurso dos “pobres” e “pouco educados” sem o questionar, não percebendo que isto é só mais uma forma de demonizar a pobreza.

A um Mestre: Umberto Eco

 

SPETT.UMBERTO ECO A NAPOLI (SUD FOTO SERGIO SIANO)

O Riso liberta o vilão do medo do diabo, porque na festa dos tolos o Diabo aparece pobre e tolo, portanto controlável. Mas este livro poderia ensinar que libertar-se do medo do diabo é a sapiência. Quando ri, enquanto o vinho lhe borbulha na garganta, o vilão sente-se senhor, porque subverteu as relações de senhoria: mas este livro poderia ensinar aos doutos os enigmas argutos, e a partir daquele momento ilustres, com que legitimar a subversão. Então transformar-se-ia em operação do intelecto aquilo que no gesto irreflectido do vilão é ainda e felizmente operação do ventre. Que o riso seja próprio do homem é sinal dos nossos limites de pecadores. Mas deste livro quantas mentes corruptas como a tua extrairiam o extremo silogismo, pelo o qual o riso é a finalidade do homem! O riso, desvia, por alguns instantes, o vilão do medo. Mas a lei impõe-se através do medo, cujo verdadeiro nome é temor de Deus. E deste livro poderia partir a centelha luciferina que transmitiria ao mundo inteiro um novo incêndio: e o riso designar-se-ia como a arte nova, ignorada até de Prometeu, para anular o medo.

Umberto Eco, O Nome da Rosa. 1980.

A melhor forma de homenagear qualquer escritor, especialmente um génio como Eco, é lendo-o.

 

Schadenfreude

O alemão tem esta palavra muito apropriada – schadenfreude. Ela define um sentimento de prazer perante os infortúnios de outras pessoas. Há quem diga que só o alemão é que poderia ter uma palavra que define este prazer um tanto ou quanto perverso. Eu não concordo que seja uma particularidade alemã. Eu acho que é um prazer profundamente humano. É egoísta e maldoso, mas nós também somos um pouco isto – não há estados naturais que nos valham. Pessoalmente, a mim não me alegra particularmente o infortúnio da maior parte das pessoas, salvo raras excepções.

Por exemplo, alegra-me que um dos últimos actos de Cavaco Silva como Presidente da República vá ser o de aprovar, practicamente ao mesmo tempo, duas temáticas que claramente lhe desagradam: o fim das taxas moderadas para as mulheres que abortam e a adopção por casais homossexuais. Não deixa de ser uma metáfora interessante para o fim do termo de Cavaco Silva. Consola-me um bocadinho. O País avança, senhor Presidente. Mesmo consigo. Mesmo apesar de si.

Jean-Luc Mélenchon e os bons conselhos

jean luc

 

jean luc 2

 

DiEM

O lançamento do movimento Democracia na Europa está a acontecer agora em Berlim.

 

Viva o Presidente de 50% de 50% dos Portugueses!

 

  • Não votei em Marcelo embora confesso que o novo Presidente me é uma figura simpática. Sinceramente, acho difícil alguém detestar Marcelo. Não é uma pessoa que provoque esse tipo de sentimentos fortes, como o ódio ou, por oposição, o amor fanático. Não é sequer um Cavaco Silva. As pessoas não discutem (não discutiriam) durante décadas por causa de Marcelo como o fazem com Soares ou Cavaco.
  • Consola-me que Marcelo ficará na história mais como uma figura da chamada opinião pública do que como Presidente. A não ser que declare guerra à Espanha ou assim. Esperemos que não porque eu gostava de ir a Barcelona ainda este ano.

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A República ao nível da imprensa desportiva

“Se os portugueses me elegerem Presidente de Portugal, dos primeiros gestos que terei, um deles será para o Ronaldo”, assegurou o candidato presidencial no âmbito de uma visita ao Museu do CR7, no Funchal, no decorrer da deslocação em campanha eleitoral que efetua hoje à Madeira.

Nessa altura, acrescentou, “milhões de portugueses vibraram em uníssono com a vitória dele, como vibram todas as semanas com aquilo que de bom tem feito pelo país”.

O candidato realçou que o jogador “tem sido um caso de excelência, de exceção e Portugal é conhecido em todo o mundo – sou testemunha disso – não por outras razões muito importantes que poderiam existir, mas chega-se a um miúdo ou a uma pessoa de mais idade e diz-se ‘Portugal, Portugal'” e a resposta é “Ronaldo, imediatamente”.

 

J’Accuse, agora e sempre

j'accuse

Foi a 13 de Janeiro de 1898 que Émile Zola publicou o seu “J’accuse” no jornal Parisiense Aurore. Uma carta aberta ao Presidente da República Félix Faure onde era denunciada a injustiça do julgamento e prisão de Alfred Dreyfus, oficial francês e judeu, acusado de traição (e efectivamente condenado por isso). Excepcionalmente, numa época em que o anti-semitismo estava absolutamente disseminado pelas sociedades europeias,  Zola teve a humanidade suficiente para perceber a imoralidade – e o perigo – do preconceito, denunciando o anti-semitismo do governo e dos oficiais que trataram do caso.

A seguir à publicação da carta, Zola foi condenado a pena de prisão. Fugiu para Inglaterra onde continuou a lutar por Dreyfus que tinha sido enviado para o exílio numa ilha na Guiana Francesa. Mais tarde, em 1899, Dreyfus regressou a França e ofereceram-lhe um perdão – por um crime que não tinha cometido. Em 1906, foi oficialmente exonerado tendo-lhe sido atribuído a Legião de Honra.

Zola morreu em 1908 e Dreyfus estava presente aquando a transferência das suas cinzas para o Panteão nacional.

Versão Portuguesa da carta.

 

A esperança está na cultura

Um livro sobre uma história de amor entre uma israelita e um palestiniano foi retirado dos programas curriculares dos liceus israelitas. Em resposta, Geder Haya tornou-se um dos livros mais vendidos em Israel e “ocupa o primeiro lugar lugar na lista de livros do jornal Haaretz”.
A resposta dos leitores Israelitas só por si agrada-me bastante (assim como a resposta da Time Out de Tel Aviv). Mas também me agrada o comentário de Amos Oz:

“Por que não, então, proibir o estudo da Bíblia, já que se trata de censurar relações sexuais entre judeus e não-judeus?”

Na adversidade, meus amigos, a resposta é ler livros.

 

Intenções de voto

Eu ás vezes até penso que podia votar no Marcelo que não deixa de me ser uma figura simpática, mas depois lembro-me que ele quis passar um vídeo promocional de Portugal (este) na Alemanha em que havia um Pai natal magrinho e um capitão de Abril com uma espingarda de brincar e desisto imediatamente.

7 de Janeiro

Charliekosher

 

Hoje, dia 7 de Janeiro, um ano depois dos atentados que vitimaram os jornalistas do Charlie Hebdo, vamos lembrar-nos de que aquelas pessoas morreram porque faziam desenhos. Morreram porque rejeitavam todas as ideologias relacionadas com a religião. Porque as criticavam, porque gozavam com elas, porque se riam delas. Morreram no século XXI, em França, na Europa, porque gozavam com uma religião – com todas as religiões.

Lembrem-se também de que os terroristas atacaram um supermercado kosher e mataram quatro Judeus. Este não foi só um crime contra a liberdade de pensamento e de expressão. Foi um crime anti-semita. Lembrem-se que o anti-semitismo continua vivo na Europa.

Espero que cada pessoa que abra a boca para acrescentar aquele “mas” após o “matar é mau…” se lembre disso. Desejo que hoje essa gente fique assombrada pelo ódio a tudo o que de bom pode existir numa sociedade, a liberdade de expressão e de pensamento, e por um dos mais antigos e repugnantes crimes contra a humanidade, o anti-semitismo.

 

O jornalismo em Portugal

Pelo menos três jornais portugueses, o Record (que entretanto apagou a notícia), o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias estão a publicar uma notícia falsa. Supostamente, o treinador do Rayo Vallecano disse que Cristiano Ronaldo lhe metia nojo. Vai daí, os jornalistas tugas, feridos na sua dignidade, apressaram-se a publicar a notícia e as declarações sem se incomodarem a procurar uma fonte credível.

Infelizmente, a notícia é falsa. Começou com uma conta falsa no Twitter e assim se propagou. Bem sei que é difícil fazer source checking de todas as notícias online (são muitas e constantes) mas numa altura em que os leitores recorrem cada vez mais ao formato online, espera-se um maior rigor nestas notícias – embora assumo que este caso tenha mais a ver com o vigor pseudo-patrioteiro dos jornalistas.

Gostaria de ver, agora, um pedido de desculpas da parte destes jornais (e de outros que provavelmente também publicaram a notícia) aos leitores e ao treinador do Rayo, Paco Jémez.

(É também caso para perguntar até onde vai esta incompetência. Hoje é um treinador de um clube espanhol mas amanhã, ou hoje mesmo, pode ser um primeiro-ministro, um presidente, um orçamento de Estado. Sabe-se-lá onde isto vai parar).

Nota: O DN publicou uma notícia em que clarificava que a notícia anteriormente publicada era falsa. O JN também já veio corrigir a notícia que tinha dado. É excelente ver os jornais e jornalistas a admitir estes pequenos erros, mesmo aqueles que são aparentemente insignificantes.

Nota única sobre as entrevistas de José Sócrates

Uma coisa que me chocou na entrevista de José Sócrates foi a tal negação relativa à vida de luxo.

Eu não sei se José Sócrates está a dizer a verdade ou não. Parece-me que nunca vamos saber e que este caso, ou casos, estão fadados a ter longas pontas soltas. É óbvio, contudo, que Sócrates foi alvo de uma perseguição por parte de alguns órgãos de comunicação social e que este “escrutínio” não foi aplicado noutros casos como o de Miguel Macedo ou mesmo de Ricardo Salgado.

Apesar destas salvaguardas, o certo é que José Sócrates não consegue disfarçar o seu desfasamento da realidade. José Sócrates acha que ir para Paris com 120 mil Euros num ano e 300 mil e tal noutro é uma situação aparentemente normal, e não uma situação de excepção a que muito pouca gente tem acesso – daí ser um “luxo”. O problema aqui não é só de José Sócrates mas é sintomático de toda uma elite governamental e política que não percebe, nem está interessada em perceber, o real valor do dinheiro e das possibilidades da grande, grande maioria das pessoas.

Em defesa da laicidade

 

Há uns meses li uma entrevista de Elisabeth Banditer em que ela dizia uma frase extraordinária: “Não perdoo à esquerda o ter abandonado a laicidade”. Comecei a perceber, como o tenho percebido desde Janeiro, que a Esquerda ocidental está a entrar por um caminho ideológico muito tortuoso e confuso: que perdeu, que está a perder a sua identidade. Desta vez a culpa não é da Direita, não é dos grupos extremistas, não é de ninguém a não ser da própria esquerda e dos próprios elementos de esquerda que esqueceram as suas origens.

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Ser e fazer tudo aquilo que eles detestam

an die freude

Quando eu soube a notícia dos atentados estava a ir buscar o meu irmão a um concerto no Campo Pequeno. A primeira coisa que, naturalmente, me atravessou o espirito foi “e se fosse ele? E se fosse eu?”

Depois achei que seria uma boa ideia tentar ver e ouvir testemunhos dos ataques, das pessoas que sobreviveram. Pensei eu, numa vã e absurda tentativa, que ao ver aquilo eu poderia estar preparada caso me acontecesse. Podia pensar, ora se algum dia estiver num concerto e um sacana qualquer abrir fogo eu posso fazer isto ou aquilo. Esconder-me, baixar-me, fingir que estou morta. Rapidamente percebi que estava só a tentar enganar-me e acalmar-me. Não valia a pena estar a ver aquelas imagens que me deixaram ainda pior do que estava. Não há forma absolutamente nenhuma de controlar. Há sorte. A sorte a que uns podem chamar Deus, a sorte que eu chamo o acaso. O acaso de alguém se sentar dentro ou fora de um restaurante, de estar mais perto da porta numa sala de espectáculos ou mais longe, a sorte de ter decidido não ir a um determinado sitio numa determinada noite, a sorte de ter apanhado trânsito ou perdido o autocarro. A sorte que é lei neste mundo feito de probabilidades.

Durante todo o Sábado não consegui rir-me. Eu rio-me muito e choro muito pouco. Às tantas dei por mim, estupidamente e incompreensivelmente, a chorar. Não com imagens de pessoas mortas mas com uma descrição de pessoas a ajudarem-se umas às outras: os taxistas que não cobraram para levar as pessoas para casa, as pessoas que gritavam os números das portas dos prédios para os que fugiam se puderem refugiar. Porque no meio de toda a desumanidade e crueldade o que é revolucionário é a bondade das pessoas. E só me ri no Domingo, de repente, quando um rapaz diz que a razão pela qual ele e a namorada se salvaram é porque tinham discutido e abandonado a esplanada mais cedo.

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O que responder?

voltaire statue

Voltaire, Dicionário Filosófico, excertos do artigo “Fanatismo”:

Resumindo, todos os horrores de quinze séculos podem ser renovados num só, desde as pessoas sem defesa chacinadas aos pés dos altares, dos reis esfaqueados ou envenenados, um vasto Estado reduzido a metade pelos seus próprios cidadãos, desde a nação mais belicosa até à mais pacífica dividida pela espada desembainhada entre o pai e o filho, os usurpadores, os tiranos, os executores, os parricidas e os sacrilégios violando todas as convenções divinas e humanas pelo espírito da religião: cá está a história do fanatismo e dos feitos.

Não há outro remédio a esta maldita epidemia que o espírito filosófico, que espalha, passo a passo, os costumes dos homens e que impede os acessos do mal. As leis e a religião não chegam para lutar contra a peste das almas. A religião, longe de ser um alimento salutar, torna-se um veneno nos cérebros infectados. Os miseráveis inspiram-se sem cessar no exemplo de Aod que assassinou o rei Églon; de Judith que cortou a cabeça de Holopherne enquanto dormia com ele; de Samuel que desfez o Rei Agag; do padre Joad que assassinou a sua rainha etc. etc. Eles não percebem que estes exemplos, que são respeitáveis na Antiguidade, são abomináveis no tempo presente: eles põem a sua loucura na própria religião que os condena.

O que podemos responder a um homem que te diz que prefere obedecer a Deus que aos homens e que em consequência disso ele está certo de merecer o céu por te matar?

Os líderes dos fanáticos, que colocam os punhais nas suas mãos, são uns velhacos maliciosos. Eles assemelham-se ao Velho da montanha que, diz-se, deu às pessoas fracas uma pequena amostra do paraíso, prometendo-lhes uma eternidade de tais prazeres, desde que eles matassem todos aqueles que ele lhes ordenasse. Em todo o mundo só uma religião não foi conspurcada pelo fanatismo, a dos literatos chineses. Quanto aos filósofos, em vez de serem infectados por essa pestilência, eles foram um remédio contra ela pois o efeito da filosofia é compor a alma e o fanatismo é incompatível com a tranquilidade. Relativamente à nossa santa religião ter sido tão corrompida por estes infernais impulsos, é a loucura dos homens que se deve culpar.

Pior a emenda que o soneto

As declarações de Michael Seufert sobre a inaptidão da JSD são infelizmente outro tiro no pé. No meio de uma série de considerações, o Sr. Seufert afirma:

“E se é um facto que Hitler foi derrotado no momento em que esse exército chegou a Berlim, vindo de Leste, é um reescrever da história chamar-lhe libertação ou celebrar esse dia. É que trocar um ditador – por muito horrível que fosse, como foi o caso de Hitler – por outro – e Estaline jogava com Hitler na liga dos crimes contra a humanidade – não é propriamente ficar livre ou ficar melhor. É trocar uma bota com uma suástica por outra com uma foice e martelo. As duas pisam a liberdade e a vida. Para o povo é igual.”

Vamos lá ver, que a vitória comunista não significou uma libertação é totalmente verdade porque depois foram instauradas uma série de ditaduras comunistas. Contudo, aquele imagem em concreto simboliza a vitória do comunismo, do Exército Vermelho, sobre o Nazismo (porque apesar de todas as atrocidades a verdade é que foi o avanço do Exército Vermelho que ajudou e muito à derrota do Nazismo). Portanto, a analogia é óbvia: a JSD inclui aquela bandeira ali simplesmente como símbolo do comunismo. O que se esqueceram, e o que tem verdadeiramente piada, é que ela é o símbolo da vitória do comunismo sobre o nazismo. Não necessariamente de libertação até porque como foi dito não houve para os Europeus de leste qualquer tipo de libertação. Mas o importante no dia 2 de Maio não era a libertação. Era a vitória. Portanto, a analogia que a JSD estabeleceu nada tem a ver com libertação mas com o facto de associarem, sem querer evidentemente, o anterior governo aos nazis. A bandeira simboliza a vitória comunista sobre uma Berlim em cinzas, a capital da Alemanha Nazi. Aliás, a bandeira é hasteada no dia 2 de Maio, o dia do fim da batalha de Berlim, uma das ofensivas mais sangrentas da segunda guerra, por cima do Reichtag, um dos símbolos do regime alemão. Nada tem a ver com libertação. Tem a ver com triunfo. Como, aliás, a revista TIME aponta neste artigo, dizendo: “The iconic image of Nazi Germany’s defeat”. E acrescenta: ” It was stage-crafted from beginning to end. Khaldei, in fact, had been at his Tass headquarters in Moscow when Soviet forces captured Hitler’s capital. The photographer had received orders from on high — possibly from Stalin himself, it was murmured — to rush there and produce a picture symbolizing the Soviet victory.”

Ou seja, simboliza os comunistas a triunfarem sobre os nazis. E foi essa bandeira que a JSD mostrou.

Post scriptum: Para falar em Libertação, deve-se falar no 8 de Maio. Richard Von Weizsäcker explica porquê, melhor do que ninguém.

Não à romantização da História, sff

No Delito de Opinião, um comentador lamentava a ausência de uma comemoração relativa aos 600 anos da tomada de Ceuta. E eu pensei duas coisas: olha, isto lembra-me que tenho de mostrar ao Paulo um artigo sobre o D. João II e depois pensei, mais validamente, por que raio é que se havia de “comemorar” a tomada de Ceuta. Procurei, procurei e mesmo assim não consegui achar razão em mim para “comemorar” um acontecimento que teve lugar há 600 anos. Comecei então a perceber que o problema não era tanto a tomada de Ceuta mas o verbo aplicado que provavelmente até foi escolhido aleatoriamente pelo comentador, não tendo o valor qualificativo que eu lhe estou a atribuir: A comemoração. Comemorar.*

É óbvio que a tomada de Ceuta se enquadra num contexto de guerra e conquista medieval e que foi o começo de uma série de iniciativas semelhantes no Norte de África. Tudo isto tem um contexto histórico que merece obviamente ser estudado e discutido. Mas comemorar? Porquê? A comemoração de alguma coisa implica que ela é boa. A tomada de Ceuta para os portugueses do século XXI não tem que ser boa. Nem má. Todo o processo que envolveu a tomada de Ceuta e as guerras de conquista no Norte de África relacionam-se com um contexto que uma pessoa do século XXI não percebe, não compreende, não se identifica. Não partilhamos das mesmas ideias, não vemos o mundo e as vivências sociais, políticas e religiosas da mesma forma. E ainda bem que assim é, porque estamos a falar de História.

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Sócrates, o “processador”

Depois do Correio da Manhã, Sócrates processa o Sol.

O Correio da Manhã não é Charlie mas isso não interessa para nada

Hoje em dia gerou-se o lamentável hábito de trazer à baila o Je Suis Charlie a propósito de qualquer assunto relativo à liberdade de expressão. Isto é uma infelicidade porque se está só a banalizar o “ser Charlie”. Como já afirmei antes neste blog, a maior parte das pessoas e dos órgãos de comunicação social não são Charlie. Na realidade, há muito poucos Charlies. Para mim, os verdadeiros Charlie são os originais, os que ainda lá estão a fazer o jornal e poucos outros, como o blogger saudita que foi torturado por aquela coisa muito desagradável que se chama “ter opiniões”. Comparar o Charlie Hebdo ao Correio da Manhã é como José Sócrates se comparar a Luaty Beirão.

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Diálogo possível em 2019

– Está sim, muito bom dia, fala o senhor João Filipe Silva?

– É o próprio.

– Olhe, é da parte da Segurança Social. Estivemos a analisar o seu processo e chegámos à conclusão que lhe foi diagnosticado um cancro terminal há três anos.

– Exactamente.

– Em 2016 não foi?

– Sim senhora.

– Pois e então de acordo com a legislação o senhor já devia ter falecido.

– Ah é?

– Sim, sim. E neste situação, como ainda não faleceu, vamos ter de lhe retirar a pensão de invalidez.

– Mas olhe que eu estou mesmo, mesmo a falecer.

– Mas quem é que me garante que isso é verdade? Disse o mesmo há três anos. E se durar mais três? Ou mesmo seis? São os contribuintes que pagam? Não, não, isto não é o da Joana.

– Ah pronto, então nesse caso, se calhar, o melhor é tentar falecer já.

– Pois, é precisamente isso que eu ia sugerir. É tentar esticar agora o pernil. Veja lá isso, está bem? Se não for do cancro, olhe, atravesse a rua sem ser nas passadeiras, até pode ser que seja atropelado. E com sorte pode ser que seja por um autocarro da CARRIS, assim era certinho.

– Tem toda a razão, a última coisa que eu quero é roubar dinheiro ao Estado.

– Está a ver? Pronto, resolva lá isso que para o próximo mês já deixa de ter a pensão de invalidez.

– OK, obrigadíssimo por ter ligado.

– Obrigado eu, com licença.

O fabuloso destino do Presidente Silva

daniel hannan

Cavaco Silva é de facto uma personalidade extraordinária. Conseguiu vários feitos. Por exemplo, conseguiu por Ambrose Pritchard do carinhosamente chamado Torygraph a defender os comunistas. Só por si isto já é um feito equiparável à gesta Portuguesa no Oriente. Mas há melhor: uns patriotas no Twitter conseguiram convencer meio mundo digital de que se está a operar em Portugal um autêntico golpe de Estado e que já há manifestações na rua e distúrbios em frente ao Parlamento. Várias pessoas no twitter, especialmente britânicos eurocépticos, perguntam por que razão é que a tendenciosa BBC não está a falar disto. Pois, a BBC sempre a apoiar a opressão dos povos e essa ditadura fascista que é a União Europeia.

Porque é que isto é maravilhoso? Porque Cavaco conseguiu com aquele discurso descabido, que não ocorreria ao belzebu, pôr uma parte da opinião pública Europeia do lado da esquerda portuguesa (a tal esquerda que cá não tem legitimidade nenhuma para governar). E depois porque fez precisamente aquilo que pretendia evitar com a indigitação de Passos: dar força aos eurocépticos. Nem são os eurocépticos portugueses porque esses estão reduzidos a uma relativa insignificância. Não, não. Aos eurocépticos verdadeiros e perigosos, aqueles que brevemente podem votar a favor da saída da Grã-Bretanha da União Europeia.

Portanto, senhor Presidente, Bravo.

PS: Quando acabei de escrever este post, um amigo enviou-me este artigo de Frances Coppola na Forbes que segue a mesma linha do artigo de Pritchard. Isto é a marca de um excelente presidente da República: sempre a dar à Pátria o protagonismo que ela merece.