AO90 visto por Ernâni Pimentel

Por: Ivo Miguel Barroso
ERNÂNI PIMENTEL

ERNÂNI PIMENTEL é Professor, Escritor, Palestrante e Presidente da Vestcon (um grupo editorial do Brasil).
Em 2010, fundou o Movimento “Acordar melhor”.
Foi escolhido pelo Senado brasileiro para ser um dos Coordenadores do Grupo de Trabalho Técnico que está a avaliar o Acordo Ortográfico no Brasil.
Recentemente, juntamente com o Senador PASQUALE CIPRO NETO, foi recebido na Assembleia da República.
ERNÂNI PIMENTEL respondeu às nossas perguntas.

– Quais as razões pelas quais o Professor ERNÂNI PIMENTEL se opõe ao Acordo Ortográfico de 1990
ERNÂNI PIMENTEL – São várias a razões e encontram-se no sítio www.simplificandoaortografia.com . Mas, entre elas, o anacronismo, que faz o AO90 basear-se em regras cujo fundamento é a pura e simples memorização, ou “decoreba”, que não mais cabem no ensino do século em que vivemos. O aluno e o cidadão de hoje querem entender os fatos e não decorá-los. A educação moderna deve ser prática, objetiva e lógica, até para mostrar o lado emotivo e criativo do saber humano. No Brasil, os exames nacionais de concursos públicos e pré-acadêmicos estão valorizando acertadamente o raciocínio lógico, mas as regras dessa ortografia são de séculos passados, eivadas de ilogicidades. 

Pode dar exemplos, para ilustrar essas ilogicidades?
ERNÂNI PIMENTEL – Persistem regras como: “Grafam-se com j, as palavras derivadas do árabe, do tupi e das línguas africanas”, mas não se ensinam quais são essas palavras, então o aluno só as decora mas não sabe aplicá-las. E mais, a regra não funciona em muitos casos. Como se explica que estender se escreve com s e extensão com x, se ambas vêm do latim com x? Por que cor de bonina, cor de laranja, cor de violeta se escrevem sem hífen e cor-de-rosa com? Por que giravolta sem hífen e gira-mundo, gira-pataca com? Por que guarda-chuva e manda-tudo com hífen e mandachuva sem? Que sentido faz estudar uma regra cuja lista de exceções termina em reticências? Que lógica existe em justificar exceções por “estarem consagradas pelo uso”, se o acordo só existe porque precisa mudar o uso? Onde a razoabilidade de se mexer na ortografia sem consultar os protagonistas do ensino, que são os professores?

– Quais as acções que o Movimento “Acordar melhor” tem tomado contra a entrada em vigor do AO90?
ERNÂNI PIMENTEL – O Movimento “Acordar Melhor” provocou e participou de audiências públicas, promoveu centenas de palestras esclarecedoras sobre os problemas que precisam ser corrigidos no acordo, colheu milhares de assinaturas de professores e alunos; e impetrou uma ação popular fundada na ofensa ao princípio democrático, na medida em que o acordo foi concebido sem a devida consulta ampla aos setores diretamente envolvidos como o dos professores, dos pedagogos, dos jornalistas, dos escritores… e na violação ao principio da razoabilidade, em função das ilogicidades, incoerências, contradições e falsidade de  premissas e argumentações.

– Em que estado está esse processo judicial (que intentou nos tribunais brasileiros contra o Acordo e o “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”)?
ERNÂNI PIMENTEL – Atualmente o processo encontra-se pendente de apreciação no Tribunal Regional Federal da 1ª Região e pode ser acessado aqui.

– O Senado concordou consigo quanto às ilogicidades do AO90, na audiência pública em 2012?
ERNÂNI PIMENTEL – Nas duas audiências públicas, uma em 2009 e outra em 2012, promovidas pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal, as falas dos organismos e cidadãos convidados mostraram opiniões críticas convergentes e harmoniosas, ao passo que ninguém ousou defender os absurdos expostos, em ambas as oportunidades. Todos os senadores e participantes presentes, sem exceção saíram, então, convencidos de que era preciso fazer alguma coisa. Tanto assim, que trabalharam pelo adiamento do prazo e criaram o Grupo de Trabalho Técnico para simplificar e aperfeiçoar as regras do Acordo.

– Que papel teve o Professor e o seu Movimento no adiamento do fim do prazo de transição para 31 de Dezembro de 2015?
ERNÂNI PIMENTEL – Não só ajudamos a provocar as audiências públicas, mas também participamos delas e dos encontros com a Ministra-Chefe da Casa Civil e com o Ministro da Educação, aos quais expusemos a necessidade de se aperfeiçoarem as atuais regras, em benefício da educação e do ensino da língua portuguesa. Nossos argumentos, apoiados pelos Senhores Senadores da Comissão de Educação, foram importantes para convencer o Executivo a adiar o prazo final de implementação do Acordo, até 31 de Dezembro de 2015.

– Qual a sua intenção e dos membros da Comissão de que faz parte no Senado brasileiro em relação à vigência deste Acordo Ortográfico?
Pretendem ficar-se pelo adiamento do fim do prazo de transição (que termina em 31-12-2015) ou não pretendem o Acordo Ortográfico de 1990 de todo?
ERNÂNI PIMENTEL – Estamos trabalhando num programa ousado, que requer a participação igualitária de professores de todos os países de língua oficial portuguesa. A Academia de Letras de Brasília promoverá em 2014, em 10 de setembro, Dia Internacional das Línguas, um Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico, para reunir sugestões dos laboratórios ortográficos realizados nos oito países signatários. Estamos sugerindo e convidando  professores e alunos de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste a, até junho de 2014, debaterem e exercitarem possibilidades simplificadoras da escrita, com base nos artigos motivadores do www.simplificandoaortografia.com e nos que também podem vir a ser ali postados. A meta é conseguir um sistema ortográfico que contemple três componentes objetivamente mensuráveis: menor número de regras, maior abrangência, menor número de exceções. Os relatórios e sugestões desses grupos devem ser encaminhados ao CELLP – Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa, da Academia de Letras de Brasília, até o dia 10 de julho de 2014. Em 10 de setembro, no Simpósio, com a presença dos participantes de todos os países envolvidos, o CELLP apresentará as três propostas que mais objetivamente se aproximaram da meta e cada um dos autores defenderá a sua. Será, então escolhida uma, que, inclusive pode reunir sugestões de outra ou das outras finalistas. Até 10 de outubro de 2014, os participantes de cada país no Simpósio levarão a suas autoridades nacionais competentes a mesma proposta, como subsídio para implantação das simplificações. Haverá então cerca de 14 meses até o final do prazo de implantação do Acordo, para as autoridades dos oito países votarem as simplificações e melhoras necessárias.

– Pretende a imediata suspensão do AO90, para que o assunto seja devidamente reanalisado e repensado
ERNÂNI PIMENTEL – Preferimos respeitar o prazo estendido de implantação, por isso criamos a estratégia descrita na resposta anterior. Os professores interessados a participar dessa força-tarefa, podem comunicar-se conosco via prof.ernani@simplificandoaortografia.com. Insistimos no convite a todos os países de língua oficial portuguesa.

– O Brasil tem “aplicado” o AO90 ou os instrumentos de alegada “aplicação” do mesmo?
ERNÂNI PIMENTEL – Os organismos oficiais e a imprensa brasileira têm aplicado o AO90, orientando-se pelo VOLP, embora esse vocabulário, estranhamente, esteja desrespeitando em alguns pontos o que foi acordado. A população e os professores, atônitos, não se sentem capazes e seguros com tantas exceções e soluções arbitrárias impostas pelo VOLP.

– Qual pensa ser o sentimento dominante na sociedade brasileira em relação ao AO90?
ERNÂNI PIMENTEL – De um modo geral, a grande massa nem sequer sabe que mudanças foram propostas pelo AO90. Professores e alunos fingem saber. Mas objetivamente é impossível encontrar um só professor tranquilo com o assunto. Com essas regras, ninguém jamais saberá escrever, inclusive eu.

– A sua mensagem, de rejeição do AO90, tem “passado” para a opinião pública brasileira?
ERNÂNI PIMENTEL – Na medida do possível. Nas palestras que proferimos, 98% dos presentes assinam o manifesto pela simplificação das regras. A grande imprensa não nos tem dado destaque. Quando o fizer, esperamos que aconteça logo, temos certeza de que maciçamente o grande público estará ao nosso lado, porque, realmente a inserção social de nossos povos e a ampliação do espaço de nossa língua no panorama mundial depende, mesmo, de uma ortografia simples e objetiva.
Queremos explicar que o Movimento Acordar Melhor teve seu ciclo encerrado, por ter atingido seu objetivo com o adiamento do prazo para o final 2015 e com a criação do Grupo de Trabalho Técnico da Comissão de Educação do Senado para simplificar e aperfeiçoar o acordo. Encerrou-se para nós a etapa nacional de crítica e abriu-se agora a fase internacional, com o Simplificando a Ortografia, voltada para a análise das opiniões divergentes e convergentes sobre as regras ortográficas, na busca harmônica da melhor solução, para todos os países envolvidos.

Uma Petição contra o AO irá ser discutida no dia 20 de Dezembro, no Parlamento português. De fora, como encara esta iniciativa?
ERNÂNI PIMENTEL – Importante que o Parlamento ouça a indignação do seu povo e que se oponha, nesse período democrático, a fortalecer imposições autocráticas, superficiais e irresponsáveis, como a desse AO90.

– Recentemente, pediu uma audiência na Assembleia da República. Como foi recebido, juntamente com o Dr. PASQUALE CIPRO NETO?
ERNÂNI PIMENTEL – Fomos muito bem recebidos por todos os integrantes da Comissão de Educação Ciência e Cultura, da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, e do Grupo de Trabalho da Aplicação do Acordo Ortográfico. Embora representassem várias posições diferentes, que muito bem souberam expor, ouviram de nós a necessidade e possiblidade de se adequarem as atuais regras ortográficas à visão racional, objetiva e científica de nossa época, permitindo o barateamento da educação, a inclusão social de nossos povos, a ampliação do universo de leitores, o fortalecimento internacional de nossa língua e a ampliação da atratividade de nossas culturas para os estrangeiros. Após as exposições do Professor Pasquale e minha, chegamos a ouvir dos Senhores Deputados que a data final de implantação do acordo está mantida, mas se até lá surgir uma proposta que realmente represente vantagem para Portugal e demais países envolvidos, por que não analisá-la? Saímos, então, satisfeitos por entender que tanto no Senado Brasileiro como na Assembleia da República de Portugal está aberta a possibilidade de reparo e melhora da situação atual.

– Como sabe, o AO está a ser “aplicado” em Portugal. Como vê esta situação, perante as críticas que vários sectores científicos e da sociedade civil, tanto de Portugal, como do Brasil fizeram em relação ao AO90?
ERNÂNI PIMENTEL – A classe política cometeu o engano de atropelar os setores científicos e pedagógicos da sociedade civil, que felizmente souberam reagir e levantar sua voz. Vejo que a crise nos trouxe a um momento sumamente importante para a história de nossos povos, pois podemos sim, despindo-nos das subjetividades e dos pequenos interesses pessoais e grupais, construir uma parte importante dos alicerces – racionais, objetivos, pragmáticos – de uma nova educação e de um novo patamar na evolução de nossos povos e países.

Comments

  1. Miguel says:

    Não há nada mais perigoso do que pessoas cheias de boas intenções falando a favor da lógica, do progresso e da ciência. Onde é que eu já ouvi dicursos destes antes?

    Este Pimentel é mais um pedante que pensa que descobriu algo que vai revolucionar a pedagogia. Quanta presunção pensar que ele, de todos, consegue trazer lógica a um sistema que se desenvolveu espontaneamente durante séculos, acumulando contribuições de milhões de pessoas ao longa da sua existência. Este homem realmente se acha mais inteligente do que todas as centenas de milhões de homens e mulheres que aprenderam português antes dele?

    Certamente que se os brasileiros aprendem mal a língua e têm altas taxas de analfabetismo, é porque o ensino no Brasil não vale nada. Ora, o inglês é uma língua muito mais ilógica, segundo os critérios deste senhor, e porém tem uma incrível taxa de literacia. Não culpem a língua, culpem os incompetentes à frente do sistema educativo brasileiro. E deixem o sistema educativo português de fora destas tretas.

  2. samoia says:

    Em resposta aqui ao Miguel que parece ter lido um texto diferente daquele que eu li, pois aquilo que o Ernâni Pimentel, pedante ou não, quer fazer é precisamente o contrário desse alegado pedantismo que é a preservação da integridade de uma Língua em função não de princípios políticos e económicos mas por princípios culturais, educativos e linguísticos. Oh Miguel leia novamente o texto sobretudo aquela parte que diz:

    “O Movimento “Acordar Melhor” provocou e participou de audiências públicas, promoveu centenas de palestras esclarecedoras sobre os problemas que precisam ser corrigidos no acordo, colheu milhares de assinaturas de professores e alunos; e impetrou uma ação popular fundada na ofensa ao princípio democrático, na medida em que o acordo foi concebido sem a devida consulta ampla aos setores diretamente envolvidos como o dos professores, dos pedagogos, dos jornalistas, dos escritores… e na violação ao principio da razoabilidade, em função das ilogicidades, incoerências, contradições e falsidade de premissas e argumentações”.

    O seu Primeiro-Ministro José Sócrates alguma vez promoveu uma discussão democrática do assunto, ou não passou ele quase directamente à construção forjada de um novo acordo, assim como do Parque Escolar, das autoestradas e não esqueçamos claro o Plano Nacional de Barragens. Há intelectuais e há linguistas, o Sócrates não é nenhum deles.

    Uma coisa é certa neste acordo, discordo logo não é um acordo.
    Mas há outras pessoas que só sabem dizer ámen!


  3. “Samoia”, o primeiro-ministro José Sócrates, goste-se ou não dele (e eu não gosto), incluiu no seu programa de governo a aplicação do acordo ortográfico. Esse programa de governo foi a votos e teve a maior votação nas eleições de 2009. Já os anteriores governos eleitos, todos eles, tinham incluído a aplicação do acordo nos seus programas de governo. Chama-se a isto democracia. Sabe o que é?

    O movimento acordar melhor é pouco mais do que um embuste criado por um conjunto reduzido de interesses privados brasileiros, sobretudo de gente que quer promover-se para vender os seus cursos, nem que seja à força de processar tudo o que se mexa. É tudo menos democrático. E de “linguístico” tem muito pouco, é feito de professores sem o mínimo mérito académico, a começar por quem o dirige.

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