A Júlia procura noivo

vestido

Conheço a Júlia desde sempre. Lá na aldeia éramos vizinhas, mas até à altura da escola primária, contactávamos pouco uma com a outra.

Nos primeiros anos, era eu que andava a “conhecer mundo” (como se até aos 6 anos tivéssemos consciência disso), primeiro pela grande cidade, com os avós e, mais tarde, pela “estranja” com os pais e os avós, quando o único mundo que a Júlia conhecia era o da “bica” e do chafariz, para ajudar a mãe, a criar aquela prole de 10 filhos, já que a única irmã mais velha que tinha, não era muito amiga de trabalhar.

Na escola primária da aldeia, a Júlia dava nas vistas: os resultados escolares não eram os melhores e a coisa acabava normalmente à reguada ou a poder da cana-da-índia (mas isto só até surgir uma professora novinha, que tudo fez mudar). A forma da Júlia reagir era fazer xixi sentada na tábua da carteira, daquelas que tinham uma parte de cima inclinada, e que povoavam as salas de todas as escolas primárias do país, de frente para o quadro preto e as fotos do Marcelo Caetano, do Salazar e do crucifixo.

Na pequena escola primária, ninguém queria ficar sentado ao lado da Júlia, que acabou por ser empurrada para o fundo sala, sozinha, numa carteira, na zona junto a porta de entrada, onde o calor da braseira nunca chegava no inverno, o que a fazia sentir-se ainda muito mais desconfortável, já que as vestes que envergava, nunca eram as necessárias para fazer face ao frio daqueles longos invernos, de má memória.

A verdade é que a Júlia acabou por fazer a 4ª classe, muito depois da idade normal, fruto de tanta reprovação e acabou por sair de lá mal sabendo ler, escrever, fazer contas ou sequer saber as estações e apeadeiros das várias linhas que atravessavam o país e as colónias.
Já maiorezitas encontrávamo-nos amiudadamente no chafariz a lavar as roupas da família. Eu com um ou dois alguidares e a Júlia com seis ou sete, dos quais tinha que dar conta, em tempo recorde, antes que a mãe aparecesse de verdasca na mão, insultando-a de várias coisas, sendo que a melhor de toda era o “calona”, expressão muita usada naquela zona.

E foi nessas longas estadias a esfregar a roupa na pedra, que a nossa amizade se foi cimentando. A Júlia conversava imenso comigo e contava dos seus sonhos de arranjar um marido que a tirasse daquela vida e lhe desse mimos, coisa que nunca soubera muito bem o que era no seio daquela família, para a qual, mais não era, que um bom par de braços prontos a trabalhar, sem muito refilar.

Eu continuei na escola e com a mudança de terra, da sede do concelho (onde só se podia fazer o 9ºano) para a cidade mais próxima para frequentar o 10º ano, e de apanhar o autocarro as 6.45 horas e só chegar depois das 19 horas a casa, fui perdendo aquele contacto diário com a Júlia. Um dia soube que se tinha ido embora para o Alentejo, com um rapaz que conhecera num dos bailes da aldeia.

A partir daí encontrava-a normalmente nas festas de verão, em Setembro.

No primeiro ano, já trazia uma criança nos braços. “Não é linda a minha menina?” – perguntou radiante de orgulho e alegria. Sem concordar muito, lá anuí que sim e cheia de pressa para ir ter com os amigos com realidades mais semelhantes à minha da altura, lá a deixei no canto onde a tinha encontrado, a falar sozinha, muito gorda e coberta de roupas que nem a minha mãe – que já achava “velha” – alguma vez usaria.

Passaram mais uns anos sem saber dela. Deixara de vir a festa.
Quando a voltei a ver, tinha já 4 filhos, estava viúva e voltara para o casebre, onde os pais, e os irmãos mais novos, ainda habitavam porque não tinha sítio para onde ir.

O homem que lhe prometera carinhos, tinha sido caseiro numa herdade do Alentejo, enchera-a de filhos e sem que nada o fizesse prever (ou talvez sim, pelo excesso de vinho) morrera ou partira para outros mundos (isto para quem acredita que há mundos fora deste), deixando-a sem tecto e sem meios de subsistência. Os pais, não a podiam suportar em casa, fruto das dificuldades com que já se debatiam e da falta de espaço para comportar uma prole tão vasta.

Júlia estava desesperada para sair dali. Sem habilitações, nem conhecimentos ou expediente, que a pudessem colocar em qualquer fábrica, na cidade próxima, uma vez mais, disse-me, que andava a procurar noivo para a tirar dali. Aquela gordura excessiva foi desaparecendo, as roupas foram ganhando decotes e ajustaram-se mais ao corpo, as pernas moviam-se rapidamente nas modinhas dos bailes semanais, em que os rapazes faziam rodas, por fora dos pares que dançavam no meio do recinto do salão e piscavam o olho as raparigas com quem queriam dançar. Júlia era das que rodava a noite toda e que permitia mais avanços aos que ali procuravam o mesmo que ela, ou somente uns avanços para uma noite mais animada.

A escolha, recaiu então sob um tractorista, duma aldeia próxima. Júlia lá foi, para um outro casebre, onde, mais filhos vieram, a fome dos outros foi sendo mitigada, enquanto no seu corpo iam ficando marcadas as surras que lhe serviam de carinho, que o homem era macho, e macho que é macho, não deixa a mulher que lhe serve de criada, andar nos braços de outros, nos bailes e festas da aldeia, como ela tanto gostava. O tempo foi passando e um dia, para seu grande alívio, o tractor virou-se e ele lá ficou finado com as tripas ao léu.

Foi a liberdade que lhe bateu a porta! É que, debaixo do olho de Júlia, já andava um outro que, uma vez mais, tudo lhe prometera e, ainda por cima, na cidade. Entretanto já os mais velhos rebentos da prole, haviam saído de casa e reiniciado o mesmo ciclo que, anos antes a mãe Júlia iniciara.

Uma vez mais, os nossos contactos perderam-se. Ia sabendo notícias dela pelos irmãos nas minhas raras e espaçadas visitas ao café da aldeia. Que sim, que estava tudo bem, que finalmente acertara, não tinha mais filhos, já era avó e ele gostava muito dela. Presumi que seria feliz.

Um dia apareceu-me no Facebook um pedido de amizade da Júlia.

Hesitei em aceitar, depois de olhar o mural: muitos santos, muitas mensagem de imagem cintilantes com textos sem jeito, muitos convites de jogos e nas poucas coisas escritas imensos erros ortográficos. Não tinha paciência para tudo aquilo!

Um dia recebo uma mensagem dela, perguntando se não a tinha conhecido ou se tinha esquecido de dela, pois ela nunca me esquecera e tinha-me como uma grande amiga.

Acabei por aceitar e durante uns tempos fomos conversando. Mas, de um dia para o outro, o perfil dela desapareceu. Reconheço que não fiz grande esforço para saber o que se passou, mas, em Setembro passado, voltei a encontrá-la.

Contou-me então, que o homem que lhe tinha prometido amor eterno, a havia trocado por outro, mais rica de carnes, formas e de meios financeiros, a tinha metido na rua, ainda com dois filhos menores e que de um dia para o outro se viu sem tecto, sem o que comer ou dar de comer aos dois rapazes pequenos que ainda tinha a cargo. A “sorte” foram as “doutoras da Segurança Social” que a ajudaram, lhe arranjaram um quarto e lhes deram comida. Mas agora ia ficar uns tempos pela aldeia, aproveitando a apanha da pêra e da vindima, para depois ir para a cidade maior, reconstruir a vida, agora sem homem, que já estava farta de tudo e tinha o coração ferido para acreditar num outro qualquer.

De Setembro para cá, nada mais soube dela, mas, há uns dias, surgiu-me um novo pedido de amizade da Júlia na mesma rede social. Percebi então que está a fazer formação para aprender a tratar de cavalos, mas continua desempregada.
Vive agora num quarto, na maior cidade das redondezas, com outras raparigas, que lhe servem de companhia para percorrer as discotecas e danceterias da região. Está muito mais magra, apesar de ainda bastante exuberante de carnes e gorduras.
Agora o mural está cheio de fotos dela, com grandes planos de uma cara cheia de rugas (que tenta esconder com maquilhagem de má qualidade e de aplicação duvidosa), ou de corpo inteiro em poses supostamente  provocantes, junto a cortinados coloridos, que ela própria comenta (e é a única) como sendo “sexe“, “lollllluuuiii” ou “ela eeee” e se pergunta “se alguma ves da vida eu vou ser felis”. No mural tem desabafos como “na minha vida kero ser felis kero encontrar o amor da minha vida”. É uma romântica.
Busca a ternura e o amor que nunca teve, quer no seio da família, de quem era criada, quer nos vários casamentos, arranjados na pressa de sair da miséria em que vivia, mas que acabou por manter, ou até piorar. A falta de formação, a coragem ou as oportunidades, parecem não ter deixado que seguisse em frente sozinha, criando os filhos, de quem se foi despegando assim que os seus braços serviam para trabalhar. E tudo parece querer agora repetir-se.
Apesar de nunca me ter dito, é óbvio, que a Júlia procura um novo noivo. Sente-se só e diz que tem saudades dos “dos meus grandes amigos” e que “na minha vida estou sozinha sem ninguém” – escreve.

A Júlia procura noivo.

Tem um novo ciclo para iniciar.

Comments

  1. São says:

    Mais um excelente texto! Beijos.

  2. Ana Amorim says:

    De repente senti-me transportada para uma página de um qualquer livro de Camilo Castelo Branco…gostei!

  3. Salette Saraiva says:

    Obrigada por me ter deixado conhecer a Júlia. Faz-nos sorrir e chorar . Senti ,perfeitamente , a amargura , a tristeza , a inocência , e a teimosia de recomeçar. Mesmo que não seja da melhor maneira , ela quer recomeçar. E no recomeçar há , sem dúvida , coragem mas também muita dor.
    Gostei muito.
    Obrigada .

  4. Andreia Cambez says:

    Excelente, adorei a leitura. Obrigada 🙂

  5. belinda says:

    A Júlia somos todos nós que acreditamos no amor. Para ela o amor é um escape de uma vida de miséria. O que acaba por ser um ciclo vicioso na sua vida. Mas é a esperança no amor que lhe dá algum conforto e até mesmo alguma felicidade.

  6. Francisco Cunha says:

    Bonito texto. Gostei. Infelizmente, há pelo mundo fora muitas Júlias. So podemos desejar k a Júlia encontre um noivo que, finalmente, a faça feliz.


  7. Enxoval que não vai com a noiva… tarde ou nunca diz o ditado popular, que a sua luz não se apague, um belo relato de uma vida a Preto e Branco, mas que o seu horizonte seja pintado á cor do seu desejo…

  8. mena says:

    Tantas “Júlias” neste Mundo triste! Que esta e muitas outras mulheres, encontrem a felicidade desejada! Todos temos direito a ser felizes, dependendo da óptica de felicidade de cada um! Ajudemo-nos uns aos outros para a construção da felicidade interior que mereçemos! Haja côr e brilho na vida de todos nós! Gostei muito do texto!!!

  9. Rosário Sousa says:

    Muito bom e muito real. Parabéns!

  10. Patrícia Costa says:

    adorei a leitura!! transporta-nos mesmo…. muito bom texto!!

  11. Fernando Santos says:

    Há muitas “Júlias” por aí, … e “Júlios” também.
    Gostei bastante do texto, espero que a Júlia seja feliz.


  12. Que a Júlia encontre finalmente o mimo verdadeiro. E que tu, amiga, não deixes de escrever. Não te voltes a calar! Quem tanta histórias tem para desfiar- e que tão bem as sabe contar – não pode optar pelo silêncio. Continua, por favor. 😉


  13. Gostei muito do texto, há muitas Julias espalhadas por aí….. Continua é sempre bom ler o que escreves, espero pelo próximo ansiosamente! 🙂


  14. Um relato que vai muito para lá da vida da própria Júlia, ou de uma vivência pessoal, um relato actual, que nos faz pensar sobre o que se passa no nosso ensino presente, e nas consequências de toda uma sociedade menos favorecida, menos instruida, menos evoluida menos livre, onde o acesso ao ensino, á saúde e á justiça pode pesar demasiado no futuro de todos nós. Um excelente texto…


  15. O noivo, – qual, Miro, que pintou com as suas palavras só tem um noivo: Marcelo!


  16. O noivo, – qual, Miro, que pintou com as suas palavras~, só tem um nome: Marcelo!

  17. Cristina Martins says:

    Gostei muito…já tinha gostado e fiquei a gostar mais ainda…bjinho

  18. José Manuel da Cunha says:

    Muito bom, Narração bem conseguida e de agradável leitura. Keep up the good work. Kisses & hugs.


  19. a vida real nas mãos da Júlia, a maquilhagem nas palavras e um grande pero no imediatismo desta vida. Maria Almeida bem esgaçada a crueza desta vida e o lugar, nem que seja num instante, para o sonho de quem almeja sempre melhor tranquilidade.

  20. Isabel Branco Pires says:

    A Júlia transportou-me para as que nos habitam.. A procura do Amor mitigado, que pode libertar e extinguir a dor e que nos ludibria a existência.
    A procura impossível do pacificação com o passado, que vai somando mais o desespero.
    Desejo que a Júlia compreenda a tempo como pode ter um pouco de serenidade.

    Excelente texto.
    Continua a deleitarmo-nos com o teu talento.
    Um Beijo.

  21. Anabela says:

    o texto está bem escrito, mas a Júlia que tenha juízo, arranje trabalho e que se deixe da vida de putedo.


  22. Adorei! Um regresso ao passado, às origens. A prova de que as julias não aprendem! Continua!

  23. Laura Morgado says:

    Adorei este texto!! Escreves muito bem. Parabéns.
    Obrigada por te lembrares de mim.
    Beijinhos


  24. E há tantas julias por ai ainda….
    Bom texto, gostei bastante!

  25. Rute says:

    Começo a gostar muito dos teus textos….estás virada para uma bibliografia 😀
    Continua que tens muito jeito a sério!!!
    Esta Júlia mete me pena mas há muitas mais assim…
    Beijinhos

  26. Inês Soares de Castro says:

    Magnifico texto!!!

  27. Maria João says:

    Gostei muito até porque todos tivemos uma Julia na nossa vida

  28. Hermínia gomes says:

    De repente, recuei no tempo e parei na minha infância e adolescência…conheci muitas Júlias na aldeia e na cidade e sempre me doeu vislumbrar o futuro delas. Aliás, foi essa realidade, que sempre me fez caminhar e não desistir de lutar. Que futuro?! Sem formação, não pode haver liberdade e independência, algo, que tanto custou ás mulheres conquistar! E tu Maria, sabes tão bem retratar essa realidade e outras realidades cujo silêncio é preciso vencer! Consegues chegar tão bem a quem te lê, por favor, nunca deixes de partilhar os teus sentires. Ajudas e muito a repensar formas de VIVER e formas de SENTIR. Que as Julias aprendam a caminhar…mesmo devagar…mas caminhar!

  29. Antonio Gaspar says:

    Coitadinha da Julia.
    Comecei a ler e a devorar a estória.
    Era quase impossível que o fim do conto fosse diferente.
    Sem cultura e sem inteligência, os casamentos eram a liberdade que nunca alcançou.
    Restou-lhe apenas a esperança, a esperança de ser feliz.

  30. Artur says:

    Gostei,
    a Júlia parecia à partida condenada… (a uma existência prolongadamente dura) apenas por ter nascido, e deixou-me curioso, quanto ao destino dos que dela nasceram….pois pareciam igualmente condenados logo à partida

  31. Manuel Joaquim says:

    Qual Julia é esta? Elas são milhares e por isso não sei qual é! É querer muito: um noivo e ser feliz? Parabéns, pois estás a escrever cada vez melhor! Continua pois quero ver a tua evolução e até podes encontrar um noivo e seres feliz!

  32. sonia freitas says:

    Já os avós diziam que a esperança é a ultima a morrer.

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