PIM-PAM-PUM — O legado político do último congresso do PPD/PSD

José Xavier Ezequiel

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(Ou de como o “milagre económico” pariu um ratus norvegicus)

PIM — Aproximam-se eleições. Passos Coelho tenta reposicionar-se um pouco mais à esquerda. ‘Descobriu’ que a social-democracia portuguesa nasceu na ala liberal do marcelismo. Nem josé hermano saraiva (a caixa baixa é propositada) seria tão bom revisionista. No entanto, Passos Coelho é outra coisa — é um artista de palco tão frustado, que nem o La Féria o quis para menino de coro. Passos Coelho é o verdadeiro artista transmontano exilado na porcalhota. Se vivesse em Nova Iorque, seria empregado de mesa para o resto a vida. Em Queens, na melhor das hipóteses. E o Segismundo nem sequer seria para aqui chamado.

PAM — Santana Lopes sonhou ter o sábado à noite no Coliseu (dos Recreios) só para ele. Marcelo, regressado à pressa das Ilhas Adjacentes, roeu-lhe a corda. Entreteve muito prazenteiramente os congressistas e acabou a soirée, apesar de Passos Coelho, candidato da social-democracia-marcelista à presidência da república das laranjas. Temos festa. Imagino uma campanha com telefonemas de valor acrescentado mais IVA. Quem ganhar terá o raro privilégio de lanchar pastéis-de-nata-e-chá-de-camomila com o comediante Marcelo Rebelo de Sousa. O “povo livre” vem-se. Em orgasmos múltiplos de “alegria cristã”.

PUM — Gabe-se a lealdade de Passos Coelho. Um amigo é um amigo (sobretudo se conhece todos os nossos rabos de palha). Propôs (perdão, impôs) Miguel Relvas como número um da ‘sua’ lista ao conselho nacional do Partido. Obteve a menor votação, de sempre, de um líder partidário em funções semelhantes. Um verdadeiro embaraço partidário. A acrescentar ao embaraço nacional pela incontornável existência da criatura. A ‘amizade’ é fodida (perdoe-se-me o mau ‘francês’).

PS (salvo seja) — Ontem, segunda à tarde, o assunto do fórum da SIC Notícias (para quem não se recorda, é liderada pelo militante número um do PPD/PSD, Francisco Pinto Balsemão) não foi, como seria de esperar, o congresso do Partido. Foi a derrota do Futebol Clube do Porto, em casa, com o moiríssimo Estoril-Praia. E, ainda por cima, através de um ‘pénalte’ marcado contra o Porto (sem espinhas) nos últimos minutos do jogo. Onde é que já se viu uma coisa assim? Definitivamente, “Portugal está muito melhor”. Por muito que os portugueses estejam pior.

Então e o PS propriamente dito? Isso, por enquanto, não interessa para nada. Nem sequer vem ao caso.

Apontar nem sempre é feio

Visita de Angela Merkel a Jerusalém. Foto:  Marc Israel Sellem.

Porquê?

“Que mal fiz eu a Deus!?”, é frase que se ouve muito por estes dias.

Tendo algo do mecanismo projectivo que nos ensina Freud, é uma frase que dá jeito a quem não percebe o que lhe está a acontecer ou, verdadeiramente, não está disponível ou não tem coragem de assumir a sua própria falta e, já que acusar Deus de frente o pode levar às profundas do inferno, aceita, difusamente, que alguma coisa terá feito para merecer castigo. Isso dispensa-o, entre outras coisas, de fazer alguma coisa de concreto em relação ao que lhe acontece e enfrentar verdadeiros responsáveis, perdidos no nevoeiro do seu receio.

Os nossos irmãos brasileiros têm expressões bem mais divertidas, em que, dizendo, no fundo o mesmo, são muito mais afirmativas e explícitas em relação à possível ofensa feita à divindade, merecedora de dura retribuição por parte do altíssimo. O tempo e o espaço desaparecem nestas imprecações. Assim, exclamam: “Eu joguei pedra na cruz!”. Concretizada a natureza da ofensa, está justificada a punição que a vida impõe. Permitam-me pois que, na senda dos desabafos brasucas, ao assistir aos acontecimentos políticos dos últimos dias, eu grite: “Eu lavei cueca na manjedoura”!!