E as pessoas?

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N’O Insrugente pergunta-se “O país empobreceu com Salazar?“, prontamente se respondendo que não. Não sei que idade terá o autor da prosa mas eu, que apenas vivi 6 anos em ditadura, recordo-me bem que as pessoas eram pobres. E que era uma festa quando a tia da França trazia caramelos. E de fazer sandes de pão com açúcar amarelo e azeite, que isto da marmelada e do doce de tomate não duravam sempre.

Os cofres tinham ouro mas as pessoas passavam mal. De nada importa se o país, essa abstracção, era rico; as pessoas é que contam. São as pessoas que passam fome, têm doenças e não estudam para trabalharem. Um país não se atira da ponte, em desespero. Não desiste dos sonhos, porque é preciso salvar bancos. As pessoas formam um país, não é o país que faz as pessoas.

Não deixo de notar, curiosamente, uma colagem ao bordão “o país está muito melhor“, trazido a público pelo líder da bancada parlamentar do PSD. “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”, Montenegro dixit. E as pessoas? Já temos excedentes orçamentais, quando há fome na rua; mais um passo e também teremos ouro nos cofres.

Escreve ainda o autor do post, logo depois de apontar o dedo à falácia que ele acha existir na história económica portuguesa:

 É evidente que Portugal era um país bem mais pobre do que é hoje no tempo do Estado Novo. Assim como o resto do Mundo.

Assim como o resto do Mundo. Nós éramos pobres mas os franceses, os americanos, os italianos, os alemães, os ingleses e o resto do Mundo não passavam duns pés rapados. Não, não existe falácia alguma neste sóbrio texto.

Parece que o “regime do Estado Novo pode ser acusado justamente de vários atentados à liberdade, é um regime politicamente indefensável, mas o que não pode ser acusado é de ter empobrecido o país”. E as pessoas, Montenegro, perdão, Carlos Guimarães Pinto?

Comments

  1. sinaizdefumo says:

    Devia de ser um bô petisco a sua sandes; eu que sou mais antigo comi muntas côdeas de broa cum leite em pó que era distribuído mensalmente na igreja; era só ter o cuidado de num aspirar o pó e estava feito o lanche. 🙂
    Ora bem, mas isso era só pra desenjoar da lagosta porque mui prósperos erum esses tempos, eu é que num me apercebia, enfim faltavum-me os gráficos!

  2. Carlos Guimarães Pinto says:

    Meu caro, a explicação é dada no início do texto. As pessoas viviam muito pior em 1970 do que vivem hoje? Sem dúvida. Viviam melhor do que em 1927? Também sem dúvida nenhuma. Não faz sentido comparar bem estar económico no mesmo país entre anos tão longínquos, daí a utilização de riqueza relativa (o gráfico está lá no texto). A honestidade em política também passa por criticaro regime pelo que ele foi (uma ditadura política) e não pelo que ele n foi (uma época de empobrecimento). O país era, e é, pobre. O Estado Novo conseguiu fazer o país menos pobre e teve mais sucesso nisso do que a III República. Quando às pessoas, nada como ler o estudo do Pedro Lains http://e-archivo.uc3m.es/bitstream/handle/10016/2616/wp-08-08.pdf;jsessionid=4BF9F1AF77CD5913011371B4D7B2C41C?sequence=2 .


    • A tese do Pedro Lains (e refiro-me ao livro) tem as suas falácias. A primeira é usar o PIB per capita, quando na década de 60 e até 74 mais de um décimo da população activa emigra. A outra é medir o crescimento económico sem pesar a sua relatividade.
      O atraso económico era de tal ordem, pela década de 50, que esse crescimento, indiscutível, merece como legenda uma frase do Marx (do Groucho, não se assustem): degrau a degrau subimos até aos mais altos patamares da miséria.
      O facto é que chegamos a 74 com dois indicadores básicos da qualidade de vida na cauda europeia: analfabetismo e mortalidade infantil. Nem falemos de pobreza, habitação, peso do sector primário na economia, etc. E hoje ambos, um mais do que outro, estão noutro patamar, nada miserável muito pelo contrário.
      Quanto a comparações com a I República convém não esquecer que além da sua curta duração (18 anos vs 48) atravessou uma Guerra Mundial onde participámos, parecendo que não, complica.
      Não tenho nada contra que economistas participem no estudo da História económica, mas já tenho muito contra que a orientem, da mesma forma que historiadores dedicando-se à investigação em economia não costuma dar bons resultados.
      Porque o erro fundamental é metodológico: investigamos História económica e social, e não apenas economia, faz parte da natureza da ciência histórica a sua transversalidade. É ver as obras de referência mundiais sobre o assunto, a começar no Pierre Leon. Mas enfim, estamos habituados, em Portugal basta saber ler e escrever para se fazer investigação histórica, até o Freitas do Amaral massacrou a vida do pobre Afonso Henriques.


      • Freitas do Amaral não massacrou a vida de Afonso Henriques pela simples razão de que não falou sobre o nosso 1º rei, mas de alguém que Freitas imaginou que tivesse sido o nosso 1º rei. Tratou-se de uma obra de ficção. Muito má por sinal.
        Quanto à 1ª república acontece o mesmo que ao Estado Novo. É obrigatório tomar partido ora por um ora por outro. Isso é disparatado. Entre os dois que venha o diabo e escolha. A 1ª república foi um disparate de burgueses ressabiados pela falta de sangue azul e o Estado Novo a consequência natural desse disparate. Os disparates em regra têm um preço alto, tal como os Ucranianos irão descobrir em breve.

  3. Anti-Comunista de Plantão says:

    Meus caros, eu estou de acordo que havia muita injustiça no tempo do Salazar.

    Mas seria a culpa mesmo do Salazar ou do atraso estrutural que Portugal já carregava consigo desde o século XIX?

    Salazar fez o que se podia fazer com o que havia na altura. Sem “ajudas” de FMI’s, Bancos Mundiais, Uniões Europeias, etc…

    Porque é que atacam tanto o homem como se tivesse sido o demónio na terra. Acaso o Estaline, o Pol Pot, o Mao Tsé-Tung ou mais algum desses carniceiros do mundo socialista foram melhores???

    Não foi honesto nas contas públicas? Alguma vez andou metido em escândalos de sacos azuis, freeport’s, esquemas de scut’s, luspontes, parecerias público-privadas, etc..????

    Sim, foi ditador, coisa que sempre assumiu e nunca negou!

    Sim a PIDE torturava comunistas. Mas esses mesmos comunistas não andavam a defender regimes que faziam igual ou muito pior aos seus próprios cidadãos???

    Quantas Catarinas Eufémias não morreram nos Gulag’s soviéticos???

    Sim, Salazar teve relações político-económicas com Hitler. E Estaline também as teve antes de 1941, assim como praticamente toda a Europa, incluíndo a Grã-Bretanha…

    E já agora que gostam tanto de falar do ouro que Salazar recebeu de Hitelr. Que tal falar do ouro que os repúblicanos espanhóis roubaram ao povo espanhol para mandar de barco para a União Soviética de Estaline…

    Salazar foi uma criatura do seu tempo, uma época em que o Mundo era profundamente mais violento e bruto do que é hoje. Um tempo em que a violência doméstica era o prato do dia e a violência política uma norma instituída. Aliás, os republicanos também fizeram uso da violência e da repressão através dos seus grupos de caceteiros e ao contrário de Salazar, deixaram o país falido e na bancarrota…

  4. JgMenos says:

    Desde a mais pura pieguice caramelizada, sempre a lógica progressiata identifica o bem estar com o acessório e o excesso.
    E é isso que se reflecte nas suas políticas, tanto mais louvadas quanto mais evidente o facilitismo que incorporam.
    E não saem disso NUNCA!


  5. Pois, foi por isso que eu fui contrabandista. Não havia coisas boas na loja, e também não havia propriamente dinheiro no colchão… mas o País, ah o País, era rico e tinha muitas reservas de ouro!


  6. Há uma coisa que sempre me fez confusão. A impossibilidade de falar de Salazar e do Estado Novo com a objectividade necessária para expurgar e exorcizar o mal que ele fez ao país e aquilo que devemos ou não corrigir. O Estado Novo não empobreceu o país. É um facto, não uma teoria. O país era paupérrimo no final do século XIX e assim continuou. Com algumas melhorias que não evitavam nem a pobreza nem a emigração. A própria política de emigração que deveria ter sido orientada para as colónias não o foi por medo do enriquecimento da população, que o Estado Novo não desejava. Houve possibilidade de enriquecer a população durante o Estado Novo? Essa deveria ser a discussão. Mas por muito mau que foi Salazar e por muito mal que lhe desejamos não se pode afirmar que o país tivesse empobrecido. Pobre era e remediado continuou.

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