O Barclay Card

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Hoje não foi no supermercado, hoje foi no sagrado momento de uma viagem de comboio; a menina a recibos-verdes-e-comissões do Barclay Card ligou-me para me dar um cartão grátis, uma proposta irrecusável. A menina vai-me desculpar mas não estou interessado. Mas este cartão é muito bom , não traz custos, agradeço mas não estou interessado. Repete o mesmo duas ou três vezes. E por alguma razão especial? – pergunta a resoluta menina. Respondo que com a banca tenho uma relação difícil, da banca só quero distância. Mas passou-se alguma coisa? – não, várias. Mas este cartão é diferente. Não estou interessado. E pode comunicar ao seu director: banca comigo era na linha de tiro, todos. Vou então transmitir, mas este cartão é muito bom. Obrigado. Foram três minutos de tempo deitado fora para mim e para menina que não me conseguiu oferecer um Barclay Card.

Cursos vocacionais: e agora?

muito se escreveu sobre os cursos vocacionais e o que há para escrever servirá apenas para tornar ainda mais negras as cores deste fundamentalismo ideológico de Nuno Crato. O modelo escolar alemão claramente dividido em duas vias está mais do que experimentado e muito longe de produzir os resultados esperados, isto dando de barato que é possível importar modelos organizacionais tal como se importa um opel ou uma salsicha.

Os cursos vocacionais estão a ser espaços para as coisas mais absurdas, nomeadamente, agressões bárbaras a colegas de escola, a professores e a funcionários. A coisa está em tal estado que já há diretores a pedir a colegas que aguentem as coisas até ao fim do ano porque não há nada mais a fazer.

Aprendizagens zero, com taxas de insucesso muito perto dos 100%.

Só que agora, temos um problema. Alguns cursos do 2º ciclo chegam agora ao fim do equivalente ao 6º ano e a estes alunos só resta uma de duas coisas:

– passam nos exames nacionais e podem transitar de via, entrando no ensino regular (7º ano);

– não passando, ficam retidos no 2ºciclo ou então a escola é obrigada a criar um vocacional de 3º ciclo (equivalência a 7º, 8º e 9º) para continuar a desgraça.

A primeira hipótese é tão provável como o Porto ser prejudicado por um árbitro – é uma hipótese possível, mas apenas académica.

No segundo caso, fazer avançar a cangada para o terceiro ciclo resulta apenas numa forma de continuar a fazer de conta. Manter o grupo no 2ºciclo é apenas repetir o erro.

E, enquanto isso, professores, funcionários e direções desesperam com um retrocesso aos anos 80, ao tempo em que a minha geração abandonou a escola algures entre o 7º e o 8º…

Repare caro leitor que estes vocacionais são claramente promotores (indutores!) de abandono escolar, num país que tem uma escolaridade de 12 anos. Dirão os menos atentos que quem não quer estar na escola, deve sair.

Pois, mas saindo, vão para algum lado, não?

Para as prisões? Ou para as Juventudes Partidárias?

Palpita-me que estamos perante a quadratura do círculo.

O Pelotiqueiro

pelotiqueiro

No seu artigo no Público de sábado, Pacheco Pereira entende as mentiras do Primeiro Ministro e a densidade que o mesmo concede à sua própria palavra como fruto de uma geração de políticos que se caracteriza por um “amoralismo que não é um pragmatismo”, nem sequer “um oportunismo”, mas “uma ignorância e uma indiferença, um egoísmo obsessivo, mas de muito pouco alcance”. Mais tarde, salientando que a sua vigarice vocabular não é sequer muito sofisticada e que “o dolo é muitas vezes grosseiro”, conclui que é obsceno e imoral o Primeiro Ministro tratar assim as pessoas.

Pacheco Pereira é um esteta e a sua insuficiência enquanto político nesse simples facto radica. A geração de políticos a que se refere quando pensa no Primeiro Ministro não é propriamente amoral porque a ideologia que subscreve é todo um programa de vida que se tece numa extensa rede de cumplicidades. Passos Coelho e os seus acólitos obedecem a um preciso código recheado de imoralidades, nos termos do qual os fins justificam os meios e os meios justificam qualquer fim,independentemente da vítima e mesmo do resultado. [Read more…]

O inverno

Silva Gouveia O Rosto

Na praia O Rostro em Finisterra, na Costa da Morte (referência geográfica que já é todo um poema romântico), este inverno trouxe à areia o navio Silva Gouveia, 87 anos depois de ali se naufragar. Era propriedade da Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes de Lisboa, tinha nascido em Middlesbrough 21 anos antes, tripulação e carga salvaram-se, um esqueleto acordado por uma tempestade, com seus visitantes aos domingos, o que resta de um cargueiro de 1200 toneladas onde os marinheiros não ganharam para o susto e a seguradora teve de contratar carros de bois para puxarem a 10 pesetas o açúcar, conta José López Redonda, historiador local.

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Os naufrágios já proporcionaram bons negócios, nada que me arrepie, também nas funerárias se ganha o pão com os mortos, e ali eles acumulam-se, na mesma praia em 1987 se incendiou o Cáson, carregado de químicos, por aqueles lados se deu a catástrofe do Prestige.  Chamavam raqueros aos que, havendo naufrágio, se metiam ao saque. Vem a palavra do inglês wrecker castelhanizado, a fama seria longa, como a ironia de os ingleses esquecerem a sua história de Drakes e outros corsários com que nos fustigaram, ibéricos, e teve um momento alto no naufrágio do Great Liverpool. [Read more…]

Vexame na Eros Porto

Fui, esta tarde, com uma amiga à Eros Porto. Chegadas à bilheteira, pedimos dois bilhetes de casal.

Quem estava a atender, um senhor que falava Espanhol e não Português, sujeitou-nos, logo ali, a diferentes perguntas, todas elas muito invasivas da nossa privacidade. «Viveis na mesma morada?, Sois casadas?, Sois lésbicas? Eu tenho que saber para poder vender o bilhete de casal. Dás-lhe um beijo?»  [Read more…]