As expectativas do acordo ortográfico


Ser professor dá-me, graças ao contacto com os jovens, a possibilidade de aprender, com bastante frequência, novas expressões e novas piadas, porque as modas, como é da sua natureza, vão variando entre o tempo e o espaço. Sendo um curioso da língua e da linguagem, fico sempre fascinado com a descoberta do desconhecido e é sempre com prazer que junto mais uma palavra ou mais uma frase à minha colecção de cromos linguísticos.

Recentemente, adquiri uma mutação humorística da célebre resposta “porque sim”, muito utilizada por pais cansados de explicar ordens. Trata-se da resposta “porque+forma do verbo poder”. Há pouco tempo, um jovem lançou como que uma adivinha: “Porque é que os romanos invadiram a Grã-Bretanha?”. Diante do desconhecimento revelado pelos ouvintes, respondeu “Porque podiam.” Simples e barato.

Na semana passada, li na revista dominical do JN uma entrevista a Rui Unas. A palavra “expectativa” surgiu grafada das duas maneiras aparentemente permitidas pelo chamado acordo ortográfico (AO90), como poderão verificar nas imagens publicadas mais abaixo. Por que razão é que o jornalista fez isso? Porque podia, claro, autorizado pelo Priberam, pela Infopédia e pelo Vocabulário Ortográfico Português.

Na realidade, se há facultatividades, se há duplas grafias, o que nos impede de, alegremente, usar as duas grafias num único texto, fazendo, para mais, uma viagem até à Idade Média, quando os copistas escreviam a mesma palavra de maneiras diferentes no mesmo documento? Deveria escrever-se de acordo com o modo como se pronuncia? Pois, mas ninguém vai ligar ao jornalista para perguntar “Desculpe o incómodo, mas gostaria de saber se o senhor pronuncia ‘expectativa’ ou ‘expetativa’?”

Haverá alguma coisa em comum entre o jovem que falou da expansão romana e os autores do AO90? Há, certamente: estão todos na palhaçada. Devo confessar que sinto alguma admiração pelo jovem. Os outros deixaram cair a ortografia e fizeram-na em cacos.

A propósito da palavra “expectativa”, ainda tenho mais qualquer coisa a dizer, mas fica para a próxima. Porquê? Porque posso.

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Comments

  1. Teresa Viegas says:

    Gostei! Dum modo geral gosto do que escreves e, desta vez não foi excepção (eu pronuncio exceção!). Embora a minha “carta de condução” para ensinar seja outra, sou muito curiosa no que toca à nossa língua que vejo cada vez mais mal tratada! Por isso … continua a escrever coisas! Estou a pedir porque … posso

  2. Anónimo says:

    De facto (fato) é assim.
    Em pequeninos ensinaram-nos que “querer é poder”.
    Mais velhinhos, aprendemos que a liberdade tem limites, que temos de respeitar a liberdade dos outros.
    Hoje aprendemos que a língua é um património comum, que é um ser vivo, colectivo, com muitos milhares de anos.
    Que é específica e identificadora da diversidade de povos, das suas culturas, das suas condições e motivações.
    Que, por razões culturais, patrimoniais e práticas, tem que ser compreendida por todos.
    Que não pode ser vendida seja qual for o preço.
    Que a língua não pode ser alterada por decreto, só porque os ignorantes e os selvagens decidiram alienar o património nacional, num negócio do seu miserável proveito.

Trackbacks

  1. […] Prometi, ontem, que voltaria à expectativa, porque posso. […]

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