Portugal e o rating da Fitch: dating with ratings


Na passada sexta-feira António Costa mostrou-se satisfeito com uma decisão da Fitch, ao mesmo tempo que Passos Coelho a desvalorizava, afirmando que não era a primeira vez que a agência dava uma visão positiva sobre a dívida portuguesa.

Com efeito, depois da derrocada de 2011, foi preciso esperar até Abril de 2014 para a Fitch atribuir-nos um “BB+; Outlook Positive”. Esta revisão manteve-se sem alteração até Março de 2016, altura em que foi revista em baixa para “BB+”, tendo assim ficado durante um ano, até ao passado dia 16.

Este relato é factual. Passemos agora à análise.

Passos Coelho declarou o seguinte:

“Já tivemos, portanto, à bica [sic] de poder sair do lixo mas a Fitch, em Março de 2016, baixou outra vez a perspectiva para estável (…) Isto aos mais atentos deve querer dizer que nós perdemos um ano. Alguma coisa se passou para que, em vez do passo seguinte ter sido tirar Portugal do ‘lixo’, ter sido voltar a pôr em ‘estável’, para ver o que se ia passar” [P]

Aplicando a sua própria lógica, na revisão a seguir à de Abril de 2014, em Setembro de 2015, Portugal teria saído do “lixo”. Ou será que foi mais um ano perdido, e durante o seu seu próprio mandato? Acontece que a realidade é mais complexa, tanto nessa altura como agora, mas o discurso demagógico tem apelo eleitoral.

A justificação da Fitch para baixar o rating refere a fraca execução orçamental de 2015, com défice acima de 3% (já descontando o BANIF), levando à não saída do procedimento por défice excessivo, tal como planeado. A ausência de resultados no final do mandato contribuiu, claramente, para esta inflexão.

A Fitch sublinha ainda que a redução do défice teve por base um crescimento modesto, em vez de se basear em medidas estruturais. Nada que já não soubéssemos. O país não se reformou com Passos Coelho. Apenas ficou mais pobre, graças ao aumento brutal de impostos. A única mudança que o governo PSD/CDS trouxe foi a redução do custo do trabalho, graças a cortes salariais e redução de encargos das empresas com os trabalhadores.

A perspectiva que a Fitch tinha em 2016 sobre a Governação de António Costa era também muito negativa, o que contribuiu para a revisão em baixa. A agência apontou uma visão demasiado optimista sobre a evolução da economia, antecipou dificuldades com o Bloco e com o PCP e recordou o impacto negativo do BANIF e do Novo Banco nas contas públicas. Um misto, portanto, de percepção e factos. Estes últimos resultaram da inacção do governo PSD/CDS, o qual, sabedor das consequências negativas que o esperavam caso agisse, empurrou com a barriga a resolução da situação dos dois bancos. Quanto à percepção, todos nos recordamos muito bem do constante clima de desacreditação da solução Geringonça, que foi, durante mais de um ano, a estratégia da PàF para voltar ao poder. Desde o Conselho de Finanças Públicas da Teodora Cardoso, passando pelo amigo Schäuble e sempre com vinda do Diabo do Passos Coelho, houve um clima negativo que foi activamente mantido e que, seguramente, há-de ter pesado nas decisões da Fitch e outras.

A Fitch errou, o António Costa teve sorte com o contexto internacional e Passos Coelho mais valia estar calado em vez de andar a apontar dedos. Até porque quem aponta um dedo tem três dedos virados para si.

A última revisão da Fitch não faz uma única referência aos erros de avaliação que cometeu. Não é a primeira vez e, seguramente, não será a última. Novamente, algo está muito errado quando uma empresa – chamemos as coisas pelos nomes – consegue manipular a economia de um país. A solução nunca chegará por parte de um país individualmente e precisamos de continuar a participar neste puzzle. A Fitch coloca objectivos ambiciosos para pudermos continuar a subir na escada do seu rating.

Essencialmente, isto continua torto pelos lados de cá e não precisamos de uma Fitch para o dizer. E o que é podemos fazer quanto a isso? Pretender que estávamos no bom caminho quando nenhum Orçamento de Estado foi cumprido ou aproveitar o momento actual para um pequeno alívio? Como vimos, muito do que se passa no mundo financeiro são percepções, por isso prefiro a segunda opção.

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