Dói-dói, senhor deputado?

Não há tragédia neste país sem que o aproveitamento político dê o ar da sua graça. Hélder Amaral tem razão nas questões que levanta, mas faz uma péssima figura quando afirma que “não basta um Presidente da República dar beijinhos no dói-dói, e dizer que não há nada a fazer“. Não só porque não é o momento para que um representante eleito se dedique a guerras de propaganda com conteúdos brejeiros, mas também porque Marcelo teve pelo menos a dignidade de se deslocar aos locais afectados pelas chamas, o que não sendo mais do que a sua obrigação, não deixa de ser revelador da nova era que se vive em Belém. [Read more…]

É preciso evitar falar em responsáveis

A verdade sobre o que aconteceu em Pedrógão é insuportável. É esse o motivo pelo qual os agentes políticos e os seus porta-vozes evitam, a todo o custo, falar em responsabilidades. Foi conhecendo já a verdade insuportável que o Presidente da República se apressou a dizer que “fez-se o máximo que se podia ter feito”. Mas não fez. E a própria declaração apressada do Presidente foi o primeiro sinal de que uma gravíssima negligência tinha ocorrido e que a estratégia de protecção mútua dos responsáveis políticos tinha começado.

Enquanto os bombeiros apagam o fogo e as televisões facturam, por detrás da cortina há reuniões permanentes de gabinetes, encontros assessorados por empresas especializadas na gestão da comunicação em ocasiões de crise, há snipers anónimos espalhados pelas redes sociais, cooptados nas juventudes ou entre dirigentes partidários arruaceiros contumazes, mais propensos à cacetada e ao vernáculo de taberna, cuja missão é insultar quem questione a palavra de ordem: é preciso proteger a imagem do governo. É preciso evitar que se fale em responsáveis. Daqui a uma semana já ninguém se lembra disto.

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Sou do país que arde

(Outro texto publicado em Setembro de 2005, no Caderno Centro do Jornal de Notícias, depois de um verão em que se registaram os piores incêndios de sempre em Portugal. Até ver. De novo, 12 anos passados, nada mudou, tudo sobre o que escrevi em 2005, se agravou).

«Há pouco mais de três semanas saí de Portugal. Com um sol abrasador. Com um calor insuportável. Com o país a arder de norte a sul. Regressei na semana passada. Menos calor. Alguma (pouca) chuva, finalmente. No momento em que escrevo, chove sobre a ria ali ao fundo na janela. E eu que gosto do Inverno, mas não particularmente de chuva, recebo estes pingos como uma dádiva. Eu e todos os meus conterrâneos, presumo.

Durante a minha viagem choveu torrencialmente nas duas primeiras semanas. Uma chuva aborrecida para quem está de férias, mas que me soube bem, depois de tanto tempo a respirar um ar cheio de fumo e a trabalhar com tanto calor. Uma destas semanas foi de trabalho. Um congresso europeu de sociologia rural. Debateram-se muitos assuntos, entre os quais o abandono das áreas rurais, que acontece essencialmente na Europa do sul, na Europa mais periférica, naquela onde Portugal se inclui por muitas razões e de onde vai lentamente saindo por outras tantas. Portugal é um país que há muito que deixou de ser rural. Portugal é um país que vai deixando ao abandono vastas áreas de território. Aldeias desertas, florestas com árvores de ninguém, casas em ruínas. Portugal é um país onde a agricultura não tem um peso económico substancial, se exceptuarmos algumas, muito poucas, áreas do Ribatejo. Portugal é um país onde a função social e ambiental da actividade agrícola tradicional, ainda que reconhecidamente importante, também se vai perdendo. Estamos a produzir terras de ninguém. De que ninguém cuida, com que ninguém parece importar-se, a não ser uns esporádicos turistas de máquina fotográfica em punho que se deslocam ao Portugal rural ‘profundo’ para ver os vestígios do que outrora foram as casas, as actividades, as pessoas. Vêm sombras do passado e parecem contentes com isso. Destas aldeias desertas também se foi falando no congresso onde estive na última semana de Agosto. Das novas funções do mundo rural também. Da função turística e de recreio. Da função ambiental. Da função agrícola. Da função florestal. Tudo relacionado, claro. Como tem de ser. Tudo associado na tarefa última: a requalificação do território rural. Desde há 50 anos que em Portugal persistimos em não querer ver (e intervir sobre) a desqualificação de todo o interior, de norte a sul. Daqui a alguns anos, senão mesmo agora, ver-nos-emos confrontados com a difícil tarefa de intervir sobre territórios que já perderam tudo. Qualificar o desqualificado. Repovoar o despovoado. Reconstruir das ruínas. Será ainda possível?

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Sem vergonha na cara!

A posição do Bloco de Esquerda sobre os incêndios em 2015.

Em 19 de Junho de 2017, no twitter de Catarina Martins, às 9.40: “Que venha a chuva. Bom dia.”

 

Enquanto tudo arde…

Escrevi este texto em 2004, na altura em que escrevia para o Caderno Centro do Jornal de Notícias crónicas mensais.  Escrevi em Agosto. Não tinham morrido mais de 60 pessoas num só incêndio florestal. A tragédia da morte acontecia, mas em menor escala. Seja a que escala for, a morte nestas circunstâncias, é uma situação inaceitável num país supostamente desenvolvido. No ano seguinte, em 2005, conhecemos os piores incêndios florestais de que há memória. Também escrevi, no mesmo jornal, sobre isso.

Deixo-vos aqui o texto de 2004. Passaram 13 anos. 13. E nestes 13 anos o abandono dos territórios rurais, a ausência de prevenção adequada, a falta de limpeza das florestas, a expansão do eucalipto e do pinhal, a ausência de uma política de ordenamento florestal, o não funcionamento dos instrumentos existentes, tudo isto apenas piorou.

«Enquanto tudo arde… estamos de férias. Como de costume, em Agosto, o país pára quase completamente. O interior fica ainda mais deserto. Em Agosto o país assemelha-se ainda mais a uma jangada prestes a afundar-se por excesso de carga na ténue linha que nos separa do mar. Pomos os óculos de sol, com lentes cor-de-rosa ou azuis e, de repente, parece-nos tudo mais leve. Enquanto pelo país que se deixou ficar para trás, as árvores vão ardendo, alheias ao nosso descanso. Alheias ao nosso alheamento.

A surpresa não é muita. Alguém se lembra de um verão em Portugal sem incêndios florestais? Até pareceria mal se não ardesse qualquer coisa! Pelo menos enquanto houver área florestada para arder, nunca haveremos de ser surpreendidos pela ausência das chamas. No ano de 2003 defrontámos-nos com os piores incêndios de que há memória. Portugal foi notícia no mundo devido aos 422 mil hectares ardidos. Os piores de sempre? Tenhamos calma e alguma fé!

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Algumas perguntas sobre incêndios

Quem foi o Ministro da Administração Interna que em 2006 decidiu acabar com a carreira de guarda florestal?
Quem foi o mesmo ministro que no mesmo ano recusou um ambicioso Plano de Protecção da Floresta que apostava na prevenção dos incêndios mas que, obviamente, ameaçava os interesses instalados?
Quem foi o Primeiro-Ministro que, em 2016, recusou reverter a medida de extinguir os guardas florestais?
Quem foi o Primeiro-Ministro que há 2 dias defendeu que devemos apostar na prevenção?
Claro! Foi o Passos Coelho.

As notícias e as coisas

As notícias das sarjetas televisivas centraram-se, sobretudo, na busca dos lugares onde não havia bombeiros. “Está aqui o corpo de uma mulher”, zurra uma, “então os bombeiros não lhe ligam nada, não vem cá nenhum?”, relincha outro, “a culpa foi dos bombeiros?”, grunhe outro, “não acha que o primeiro ministro é que devia estar aqui? e o presidente?”, ladra o seguinte. Vamos ligar aos estúdios. Lá, além dos cachorros de regaço habituais, que destilam as segregações opinativas do costume, falam – raras – pessoas que ganharam a legitimidade de quem há muito propõe soluções pertinentes. Volta ao terreno.

Parece que há centenas de bombeiros no terreno, pelo que é cada vez mais difícil aos repórteres encontrar sítios onde não estejam bombeiros, para poderem proclamar que não estão lá bombeiros, sim, onde estão os bombeiros? “A senhora não se sente abandonada?”, guincha o do microfone.

Começam a passar imagens de arquivo, repetindo cenas já dadas e baralhando completamente a percepção da linha temporal dos acontecimentos. Continua a não haver bombeiros. Ouvem-se “personalidades”. Mas não havia bombeiros em lado nenhum, pelo que se pode concluir que os repórteres é que são o heróis destes acontecimentos. Pois se não há imagens de bombeiros em acção, só há sítios onde não há bombeiros… [Read more…]