O Nó Górdio

O Senhor Primeiro Ministro foi hoje à televisão levando no bolso Aristóteles e no gesto Alexandre da Macedónia:

– Foi azar. – disse.

Foi belo. Há que estar atento aos elefantes.

Isto é que é a ética republicana?

O 1º Ministro pede (por despacho) esclarecimento urgente ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera, I.P., à Autoridade Nacional de Protecção Civil e à Guarda Nacional Republicana? E os ministros, secretários de estado que tutelam, formalmente e politicamente, aqueles organismos?

Quando os lobos uivavam

aquilino-ribeiro-quando-os-lobos-uivam[António Alves]

Tenho todos os livros de Aquilino Ribeiro. Autor clássico com uma escrita regionalista e panteísta. Desconfio que grande parte das pessoas, hoje, na era da escrita simplificada ajustada ao “sms”, julgará que Aquilino falava uma espécie de brasileiro do nordeste.
Mas não, escrevia num português maravilhoso.
O mesmo português que a minha avó materna, natural de Sever do Vouga, falava.
Mas isto vem a propósito de quê? Dos incêndios, pois claro. Querem saber onde tudo começou? Em Salazar, pois claro. E por muito que custe aos teóricos do “antigamente é que era bom”, é a mais pura das verdades. Leiam “Quando os lobos uivam“.

E depois da tragédia

As imagens e informações que nos chegam das áreas afectadas pela tragédia de Pedrógão Grande chocam, revoltam e fazem-nos sentir pequenos, impotentes. Dezenas de mortos, centenas de feridos e desalojados, uma gigantesca área florestal ardida, casas destruídas, animais carbonizados, colheiras arrasadas, o pânico e sofrimento das pessoas, um cenário desolador. Ano após ano, a história repete-se. Eterniza-se.

Existem muitos culpados, sabemos quem eles são, mas daqui a umas semanas as massas acabarão por esquecer e virar a página. Como fizeram com os milhares de fogos de 2013 ou com o grande incêndio na Madeira do ano passado. E não, não o fazem por serem insensíveis ou más pessoas. Fazem-no porque a vida é uma correria, porque são inundadas de informação nova a cada minuto, porque o campeonato recomeça em Agosto, porque o Verão vai ser de poluição eleitoral, enfim, por uma mão cheia de razões. Lambem-se as feridas, enterram-se os mortos, a vida recomeça e a dor permanece apenas entre aqueles que verdadeiramente viveram o inferno das chamas. [Read more…]

Pedrógão Grande e a segurança interna

Aquilo que se passou, e está a passar, em Pedrógão Grande, é uma falha multidimensional no cumprimento de deveres fundamentais que cabem ao Estado. Uma das dimensões dessa falha, que até agora não parece ter merecido a atenção devida, pelo menos publicamente, é a da própria Segurança Interna. Não só no plano civil, mas também no plano militar.

A exposição das populações e do território ao tipo de risco que o incêndio de Pedrógão representa, e que neste caso se traduziu numa catástrofe humana, não é assunto do âmbito estrito da Administração, mas abrange a própria Segurança Interna e o serviço de informações, civis e militares, do Estado Português. Não é compreensível que uma fragilidade desta dimensão não seja conhecida desses serviços e que os mesmos não tenham alertado as hierarquias respectivas para a possibilidade de um acontecimento desta natureza, resultante da falência combinada dos sistemas de comunicação, de organização e de operacionalização dos meios de defesa e combate a uma ameaça repetidamente anunciada, expondo as populações e o território.

Premiar o Abandono, Castigar o Cultivo

As causas do estado da floresta portuguesa estão mais do que discutidas, como se disse no Domingo, no Público, “Não há rigorosamente nada de novo a dizer“. Apesar disso e sem menosprezar todos os outros factores que contribuem para a presente situação, penso que vale a pena destacar a seguinte a opinião de Pedro Bingre do Amaral sobre o ordenamento das florestas e a responsabilização dos proprietários:

Passa o tempo, vão-se descobrindo as carecas

O dinheiro dos funcionários públicos estica. “Tribunal de Contas: Governo de Passos usou ADSE para maquilhar contas públicas“.

Tudo correu mal, Senhor Presidente.

[Raquel Varela]

Li os jornais, todos. O que li foi o caos, foi exactamente o contrário do que anunciou Marcelo R. de Sousa ao país – tudo correu mal. Se ontem estava convencida que a eterna questão da propriedade é a chave, hoje acho que há outro factor tão ou mais grave. O que está a desenhar-se no horizonte é uma combinação de dois factores explosivos – o eucalipto e a ruptura da protecção civil, a má gestão pública dos recursos humanos especializados, numa palavra, a erosão do Estado Social. [Read more…]

​Arranje-se um culpado, por favor!

[Rui Naldinho]

Portugal foi mais uma vez atingido pela fúria da natureza, cuja lógica destruidora não teve contemplações com quem passasse à sua frente. Lamentar o sucedido, venerar os mortos e dar-lhes o repouso merecido é uma obrigação moral e cívica, para com os que tiveram a infelicidade de estar naquele local há hora errada.

Mas a natureza também pode ser regeneradora. Vamos ver como e o que se plantará sobre as cinzas de tão fatídico incêndio. Será que aprendemos alguma coisa? Ou cometeremos agora e sempre, os mesmos erros? [Read more…]