Enquanto tudo arde…


Escrevi este texto em 2004, na altura em que escrevia para o Caderno Centro do Jornal de Notícias crónicas mensais.  Escrevi em Agosto. Não tinham morrido mais de 60 pessoas num só incêndio florestal. A tragédia da morte acontecia, mas em menor escala. Seja a que escala for, a morte nestas circunstâncias, é uma situação inaceitável num país supostamente desenvolvido. No ano seguinte, em 2005, conhecemos os piores incêndios florestais de que há memória. Também escrevi, no mesmo jornal, sobre isso.

Deixo-vos aqui o texto de 2004. Passaram 13 anos. 13. E nestes 13 anos o abandono dos territórios rurais, a ausência de prevenção adequada, a falta de limpeza das florestas, a expansão do eucalipto e do pinhal, a ausência de uma política de ordenamento florestal, o não funcionamento dos instrumentos existentes, tudo isto apenas piorou.

«Enquanto tudo arde… estamos de férias. Como de costume, em Agosto, o país pára quase completamente. O interior fica ainda mais deserto. Em Agosto o país assemelha-se ainda mais a uma jangada prestes a afundar-se por excesso de carga na ténue linha que nos separa do mar. Pomos os óculos de sol, com lentes cor-de-rosa ou azuis e, de repente, parece-nos tudo mais leve. Enquanto pelo país que se deixou ficar para trás, as árvores vão ardendo, alheias ao nosso descanso. Alheias ao nosso alheamento.

A surpresa não é muita. Alguém se lembra de um verão em Portugal sem incêndios florestais? Até pareceria mal se não ardesse qualquer coisa! Pelo menos enquanto houver área florestada para arder, nunca haveremos de ser surpreendidos pela ausência das chamas. No ano de 2003 defrontámos-nos com os piores incêndios de que há memória. Portugal foi notícia no mundo devido aos 422 mil hectares ardidos. Os piores de sempre? Tenhamos calma e alguma fé!

Este ano vamos já nos 108 mil hectares. E Agosto ainda agora vai a meio, anunciando-se Setembro igualmente quente. Até ao momento tem havido mais fogos de pequenas dimensões que no ano passado e do que nos anos anteriores. Positivamente surpreendente? Nem por isso. Aquilo que ficou por arder no ano de 2003 não terá sido muito. Contrariamente àquilo que é comum pensar-se, o fogo posto (ah, como gostamos de pensar que somos um povo de lança-chamas!) não tem sido o responsável pela maior parte dos incêndios. Efectivamente, o fogo posto está confirmado como causa de incêndios em apenas quatro mil hectares, ou seja, numa área igual à afectada por fogos iniciados por tarefas agrícolas elementares como queimadas e renovações de pastagens.

É confortável pensarmos que a maior parte dos portugueses que não está de férias durante os meses de verão se diverte a incendiar aquilo que nos resta de floresta. É socialmente confortável este pensamento que, por um punhado de euros, há, entre nós, pessoas capazes de queimar tudo. A favor do madeireiros e das grandes empresas de construção civil de olhos cobiçosos nos terrenos. Porque isso nos isenta de culpas e da assumpção dos nossos comportamentos negligentes (lembram-se da última vez em que atiraram uma beata acesa pela janela do carro?). Isenta também de culpas os proprietários que não procedem em devido tempo à limpeza das suas matas e florestas.

Mas, mais que socialmente confortável a ideia de que Portugal é um país de incendiários conforta os nossos governantes. Isenta-os das suas responsabilidades. Deixa-os prosseguirem as férias de consciência tranquila. Veja-se o texto de Armando Sevinate Pinto (Ministro da Agricultura até 16 de Julho de 2004) no jornal Público do passado dia 3 de Agosto. Diz o ex-governante, à mistura com algum pesar pelo facto de ter cessado as suas funções, que «foi desde sempre evidente e previsto que a Agência (para a Prevenção dos Fogos Florestais – APFF) (…) não poderia desenvolver em tempo útil nenhum trabalho efectivo de coordenação em matéria de prevenção contra os fogos relativos ao verão de 2004. Os seus objectivos nunca foram de curto prazo. Além disso, a Agência não tem nas suas atribuições nenhuma competência em matéria de luta e de combate contra incêndios. Dizer-se agora que a Agência está atrasada por incúria do Governo e que esse atraso é responsável pelos fogos é um perfeito disparate».

Disparate? Ao ler este excerto, distraídos entre um mergulho no mar e uma cerveja fresquinha, quase que poderíamos pensar que os incêndios só começaram em Portugal em 2003. Em 1991, por exemplo, arderam 182 mil hectares; em 1998 os cálculos permitidos pelas imagens de satélite apontam para 225 mil hectares ardidos. Foi só ontem que Portugal começou a arder? Foi só ontem que a prevenção deveria ter sido iniciada e a APFF criada? E o (des)ordenamento florestal, foi só ontem detectado? E a desertificação humana da maior parte das nossas áreas do interior, foi também só ontem iniciada? Fomos claramente apanhados de surpresa, porque Portugal nunca foi um país de risco nesta matéria. De facto, como poderíamos prever e prevenir o que, até ontem mesmo, desconhecíamos que poderia acontecer? Compreendem-se, assim, as palavras do senhor engenheiro Sevinate Pinto. Tal como é assim que se compreende a ausência de objectivos a curto-prazo da APFF.

Para quê ter pressa neste caso quando, daqui a uns anos, não restará uma única árvore para queimar? Nesse tempo futuro, a Agência poderá trabalhar com bastante mais eficácia e, finalmente, cumprir os elevados objectivos para que foi criada.

Até lá, boas férias.»

(texto publicado no Jornal de Notícias – Caderno Centro, 19 de Agosto de 2004)

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