Premiar o Abandono, Castigar o Cultivo


As causas do estado da floresta portuguesa estão mais do que discutidas, como se disse no Domingo, no Público, “Não há rigorosamente nada de novo a dizer“. Apesar disso e sem menosprezar todos os outros factores que contribuem para a presente situação, penso que vale a pena destacar a seguinte a opinião de Pedro Bingre do Amaral sobre o ordenamento das florestas e a responsabilização dos proprietários:

Sobre Helder Guerreiro

Mantenho o tretas.org, um wiki onde fazemos investigação e preparamos documentação para memória futura do que vai acontecendo em Portugal.

Comments

  1. Isabel Atalaia says:

    Permita-me que deixe aqui um testemunho. Sou co-proprietária de um terreno que herdei do meu bisavô. Situa-se este terreno entre Abrantes e Castelo Branco, Nunca nele se plantaram eucaliptos. As vezes que fomos chamadas de parvas por causa desta teimosia não têm conta. “Em cinco anos estão a ganhar dinheiro”; “toda a gente faz o mesmo”; “Estão em Lisboa daqui a cinco anos fazem umas ricas férias sem chatices”. O terreno com espécies variadas foi totalmente devastado por um incêndio. Este ano foi invadido por uma espécie de pinheiro bravio espinhoso, tão denso que nem os coelhos lá entram. Todos os terrenos que confinam com o nosso estão cobertos com este tipo de vegetação.Corremos “ceca e meca” para tentar encontrar quem me fizesse a limpeza do terreno. Impossível! As máquinas não entram. Primeiro é preciso matar aquele mato impenetrável. Não somos silvicultoras, não percebemos nada de ordenamento território. Procurámos aconselhamento junto de Autarquias, outras instituições e silvicultores locais. Ficámos a saber que este mato que invadiu o nosso terreno foi importado da Austrália, para fazer “muros” para conter o gado, não tem predadores naturais a não ser os eucaliptos. Com esforço lá abrimos estradões e muito contrariadas lá tivemos de plantar duas fileiras de eucaliptos no perímetro do terreno para controlar aquela praga. O mato está seco é impenetrável. Tememos que todo o nosso esforço e dinheiro despendido seja destruído pelo próximo incêndio. Todos os esforços para obter apoio para repor os castanheiros, carvalhos, e outras espécies foram gorados. Não podemos com o dinheiro do nosso trabalho investir sozinhas na reflorestação que o nosso bisavô sempre defendeu. Temos sido assediadas, sim a expressão é mesmo essa – assediadas, pelas “celuloses” para arrendar o terreno. Para quê? Para plantar eucaliptos. Não sabemos até quando vamos manter esta teimosia.

    • JgMenos says:

      Teimosia perigosa.
      Teima quem pode.
      Fundamentalismo inimigo da razão.

    • Obrigado pelo seu testemunho.

      Penso que a situação que acabou de descrever seria ultrapassada se houvesse associações de proprietários, com o know how e recursos necessários para explorar os terrenos. Os proprietários ganhariam alguma coisa com isso e tínhamos a nossa floresta com um mínimo de condições.

      Não sou especialista na matéria, longe disso, mas parece-me que se tivermos explorações com o tamanho suficiente teremos mais formas de rentabilizar os terrenos. Por exemplo, se calhar o seu terreno não justifica (ou não suporta) a compra de maquinaria para o tratar, para fazer a recolha da biomassa, etc. Mas, por outro lado, se tivermos um terreno maior, que englobe várias propriedades de diferentes donos, talvez isso já se justifique.

      • Isabel Atalaia says:

        Muito obrigada pela sua resposta. Efectivamente o terreno de que estou a falar e tipo de investidora que sou não torna possível a compra de equipamento para manter o terreno limpo. É com esforço que fazemos a manutenção e limpezas anuais. Despesa que em nada conta do ponto de vista fiscal. Fica a ideia porque não uma parcela dessa despesa ser abatida `colecta em sede de IRS? Outro problema é que nenhum proprietário dos terrenos confinantes quer ouvir falar de carvalhos, castanheiros, oliveiras ou azinheiras, quando o eucalipto, apesar do risco, dá o retorno que dá (entre 2.5 a 3 vezes o investimento em 5 anos). Pensar na floresta para os netos parece-lhes uma parvoíce. Por um lado compreendo-os. Eu tenho um trabalho, muitas vezes esses proprietários só tem o rendimento do eucalipto. Deviam existir benefícios fiscais e apoios a quem pretende restaurar a flora autóctone e um pensamento político sobre a floresta. Claro que também há muito terreno abandonado e sem limpeza. Na aldeia do meu bisavô já só moram velhos e eu mesma também não vou para nova. Mas não deixa de ser com pena que vejo aquele terreno desaproveitado. Até o cederia ao Estado se fosse para replantar as espécies tradicionais.

    • Nascimento says:

      Do melhor.Obrigado pelo seu testemunho.Vale mais que toda a merda postada noutras caixinhas opinativas.Sei do que fala. Tenho amigos que Lutaram e ainda Lutam contra toda uma maquina autárquica mafiosa.Não ligue ao nojento que acha que ser teimoso e lutar por aquilo que justifica uma Vida não vale apena. Vale! Siga.

  2. Paulo Só says:

    E um problema muito complexo e confesso que também não entendo nada do assunto.No entanto pelo que tenho lido parece-me que a solução da associação para exploração em comum só dará certo em alguns casos, em algumas regiões. Não faz parte do DNA nacional. Além disso há regiões tão acidentadas que não vejo bem o que poderia ser feito, nem pelo Estado (e com que custo) nem se o Estado expropriasse as florestas abandonadas,. Um outro fator de que eu ouvi falar no sul da França é que muito incêndios são causados pelo habitat disperso em regiões de floresta. Talvez fosse o caso de proibir a construção em certas áreas. é um problema que se observa em todo o Portugal: os centros das cidades e as aldeias abandonadas, e as moradias dispersas a 20, 30 kms de distância, o que hoje com os carros não significa mais nada. Por isso acredito que não haja um solução única mas um conjunto que vai desde a questão da propriedade rural, desenvolvimento, urbanismo, finanças, prevenção e meios de combate ao fogo. Poderiam começar por ver como os outros países resolvem o problema nas suas múltiplas facetas. Não é preciso inventar a roda. Mas não fazer nada também não é solução dado o custo em vidas humanas.

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