À sua procura


Enquanto tomo um dos cafés do dia, habituei-me a ver se há novas fotos no “À sua procura”. As fotos vão sendo publicadas a um ritmo lento, mas certo, no Instagram do projecto. São retratos tipo passe, feitos em certo estúdio fotográfico da rua de Cedofeita, no Porto, entre Março de 1968 e Setembro de 1969. No total, umas 11 mil fotografias, número astronómico para tão breve período, sobretudo tendo em conta que terão sido feitas por um único fotógrafo.

Procuro as novas fotos, a cada dia, na esperança de que alguma me seja familiar. Pai, mãe, familiares, vizinhos, amigos, algum daqueles rostos terá para mim um nome, uma história. E a ilusão de que isso acontecerá é um dos muitos pequenos prazeres que, todos juntos, me dão sentido aos dias.

As fotos saíram de um livro de prova de contactos que o fotógrafo catalão Pau Storch comprou numa feira de velharias, quando visitava o Porto. “Queria ver aquelas imagens de perto, os rostos, saber como era a fotografia e aquele Portugal antes de 1974”, contou ele ao jornal Público. 11 mil rostos de homens e mulheres, de crianças e velhos. “Como seria encontrar estas pessoas 50 anos depois? Seria possível? Como estaria a sua vida? Seria possível retratá-las?”

Juntou-se à portuguesa Isa Lopes, procuraram informações sobre o estúdio, descobriram-lhe o nome – “Fotografia Universal”. Foram para a rua de Cedofeita onde, no seu lugar, encontraram um apartamento para turistas. Criaram páginas web, no facebook, no instagram, e aí começaram a publicar as fotos, apelando a quem se reconhecer naqueles rostos, ou saiba quem são os retratados, que contacte a página e ajude a identificar essas pessoas. Há dias, encontraram o primeiro retratado. O número 142195 do álbum chama-se Fernando Ramos. Veio ter com Isa e Pau à rua de Cedofeita, contou um pouco do que tem sido a sua vida desde o momento que a câmara o retratou, reconheceu-se no rosto de 1968 e posou novamente, agora para Pau. É o primeiro de muitos encontros, assim esperamos.

Há nesses rostos em tom de sépia alguma vulnerabilidade, os retratados expõem-se aos nossos olhos do futuro com o que nos parece quase candura. Sabemos que só por um conjunto de eventos mais ou menos acidentais, e que ainda desconhecemos por inteiro, é que essas fotos chegaram até nós. Ver-lhes as fotos que eles não imaginavam que chegariam até aos nossos dias é aceder-lhes a uma espécie de intimidade e é por isso que importa dar-lhes um nome, uma história, humanizar uma série de rostos que apenas têm um número a acompanhá-los.

Há dias, num desses cafés que me acompanham na visita à página, o meu dedo deslizou para a foto seguinte e o rosto que lá estava parecia o do meu pai, não o pai que eu conheci, mas o do rapaz que ele foi antes de mim. Sustive o ar no peito. Era ele? Procurei-lhe o sinal característico na face direita. Não estava lá. Ampliei a imagem, reduzi-a de novo. Não, não era ele. Mas podia ser, pode vir a ser. A desilusão teve o curioso efeito de aumentar a minha esperança, como se o facto de haver alguém parecido com ele fosse um indício de que ele também fora retratado. Ainda não estou disposta a desistir.

E pareceu-me claro que não os buscamos apenas por eles e pelo que poderá significar reencontrar-se num rosto que julgavam perdido, mas que também o fazemos por nós, pela alegria de dar um nome, uma vida, a um rosto sem voz, ou não fosse também esse um modo de contar a nossa história.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

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