A Mocidade Portuguesa e as armas nas escolas

mocidade_portuguesaPaulo Ricca

Com 10 ou 11 anos de idade, finais dos anos 60, frequentava eu o 1.º ano do 1.° ciclo do secundário no então Liceu D. Manuel II, e éramos obrigados a ter duas “aulas” semanais patrocinadas pela Mocidade Portuguesa. Uma eram as chamadas “actividades”, em que se faziam umas palhaçadas proto-militares com a farda completa vestida; outra, era uma aula de “desporto”, que na maior parte das vezes em nada se distinguia de uma aula de ginástica (era ministrada no ginásio, ou ao ar livre nos campos de jogo).
E digo na maior parte das vezes porque o monitor das ditas aulas se lembrou certo dia de fazer algo diferente: levou para o ginásio uma espingarda de pressão de ar, pendurou um alvo com círculos concêntricos na parede, e mandou formar fila para que cada um afinasse a pontaria e desse um tiro.

Catraios daquela idade ainda nem das feiras tinham prática em fazer tiro ao alvo, pelo que o resultado foi o que seria de esperar: muito chumbo na parede, e um ou outro que atingiu o alvo ficou longe do centro. Perante tal inabilidade, o monitor, cujo nome esqueci, era um desses “chefes de quina” ou “de castelo” da MP, resolveu ser pedagógico; apontando o círculo mais pequeno do alvo, informou: “vocês têm que pensar que, à distância de cem metros, a cabeça de um preto é deste tamanho!”

Lembrei-me deste episódio, claro, a propósito desta polémica das armas nas escolas nos EUA, e as soluções da besta do presidente. Porque nos distantes anos 60 em Portugal se “normalizava” o uso de armas entre os estudantes, desde que fosse para matar os maus. Estudantes neste caso ainda recém-saídos do ensino primário.

Fiquei atónito com aquela aula. E revoltado. Ainda não tinha nada do que viria a chamar “consciência política”, mas talvez o episódio tenha ajudado a criá-la. Isso e ter lido “Os Miseráveis” pouco depois.

Quanto ao monitor, espero que tenha tido um mau 25 de Abril.

Comments


  1. Olá, colega (se me permite). Também por lá passei, uns anos antes, estava a guerra colonial no seu início. Vivi, pois, a mesma experiência, com a diferença de não ter tido, que me lembre, um monitor desse calibre. Quando recordamos esses tempos, parece quase impossível… que tenha sido possível. E, no entanto, são muitos os monitores que sobreviveram até aos nossos dias, aqui, nos EUA, em tantos lados. Felizmente, há também aqueles que, lendo “Os Miseráveis”, ou “A Mãe”, ou “Esteiros”, ou “Subterrâneos da Liberdade”, ou “Princípios Fundamentais de Filosofia”, se livraram definitivamente do lodo do racismo e, mais genericamente, de uma consciência agrilhoada e refém de um primitivismo infame.

    • ZE LOPES says:

      Eu também passei, brevemente, diga-se, por uma experiência semelhante. Esqueciam-se era de dizer que a cabeça de um “branco” era do mesmo tamanho, à mesma distância. Muitos viriam a descobri-lo na prática lá pelas áfricas.

      Também conheci alguns dos ex-monitores que, por alturas do 25 de Bbril já estavam muito longe das “mocidades”. A entrada na universidade, com o ambiente de luta constante que se vinha a desenrolar desde o final dos anos 60 fazia muita diferença.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Pelo que vejo na política, o referido instrutor possivelmente será hoje um quadro importante de um qualquer partido político.
    Não refiro o partido ou partidos, porque, infelizmente, o mimetismo foi tal que até personagens como Freitas do Amaral e Basílio Horta, aparecem hoje ligados ao PS, para não esquecer o famigerado cavaco, um toco de madeira ligado à democracia.
    É assim no reino dos tugas…

  3. Graça Horta says:

    T
    Tenho 69 anos. Como sou rapariga escapei a estas aulas desportivo/militares.
    Apenas tinha de conmprar o emblema e creio que cozê-lo na bata.
    O que me pergunto, é como é que eu, as minhas irmãs, muitas das minhas amigas e amigos, sobrevivemos sem nos tornarmos racistas, a estas histórias da “cabeça de um preto”, das anedotas nos diários da tarde, em que aparecia um desenho com um caldeirão e um negro com um osso atravessado na cabeça, a cozer um branco, ao chamado “Preto da Casa Africana”, encarregado de transportar as mercadorias compradas pelas “madames”, até aos seus carrões com motorista, parados à porta… and so on…
    Como é que não ficámos racistas?

    • JgMenos says:

      Há de facto uma forte possibilidade de há época não serem idiotas.

      Só mais tarde é que o corretês esquerdalho a levou a essas dúvidas parvas.

  4. JgMenos says:

    Nunca no meu tempo foi a Mocidade Portuguesa obrigatória.
    E em finais dos anos 60 estava há tempos na universidade.

    Foi o papá que te obrigou, Ricca?

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Não sei qual o seu tempo, poi o Senhor é claramente uma pessoa sem tempo.
      No meu tempo de liceu – a Mocidade Portuguesa era mesma obrigatória quando se deixava a Escola Primária e se entrava no Liceu… E não me venha dizer que isto não é verdade.
      Sabe do que fala?

    • ZE LOPES says:

      Era obrigatória sim senhor! Dependia era de quem dirigia os liceus. Naquele em que eu estudei quando mudou o reitor a “Mocidade” acabou. Foi substituída por atividades circum-escolares.

      Aliás, um encartado direitrolha como V. Exa.devia saber isso perfeitamente. Estou deveras admirado.

  5. JgMenos says:

    «a cabeça de um preto» deu-lhe para a consciência política!
    Conheci um caso que foi um cassetete a fazer esse serviço.

    Já os votos para o monitor (teria ele aí os seus 20 ou 22 anos?) são forte indício de consciência esquerdalha – uma espécie degenerada da consciência política.

    • ZE LOPES says:

      Agora podemos conhecer a origem do célebre Trauma Abrilesco. Deve ter sido um acontecimento muito traumático para V. Exa! Só falta revelar quem brandia o cassetete. Mário Soares? Alvaro Cunhal? Francisco Louçã? Arnaldo de Matos?


  6. Alguém aí acima acabou de ler e pensou “eh pá, este monitor podia ter sido eu”, e ficou zangado. Compreende-se. Precisa que lhe dêem mimo e lhe perdoem a má educação.

    • JgMenos says:

      Nunca fiz parte da Mocidade Portuguesa, mas se tivesse sido não ficava armado em vítima de traumas.
      A cabeça de um preto era um alvo bem sugestivo, como em 61 o tinham sido as cabeças do brancos para muitos pretos…ou devo dizer negro, ou afro-afro…ou um raio que parta tanta mariquice.

  7. Bento Caeiro says:

    O monitor, segundo averiguações que efectuei – do calibre das que são feitas pelo ministério público em casos de violência doméstica (aquelas em que se fica a saber o que se passou, só depois da mulher morrer às mãos da besta do marido) -, após o 25 de Abril (apesar do susto que apanhou, mas que rapidamente lhe passou com uma simples aspirina), foi agraciado pelo presidente cavaco com uma comenda de serviços prestados e está muito comodamente a gozar a reforma dada pelo mesmo senhor. Lembra, com frequência esses belos tempos e, mesmo o episódio da espingarda – aliás, até afirma que nesse momento ficou convencido que iríamos perder as colónias. Recentemente foi em romaria a Santa-Comba-Dão homenagear Salazar. O Menos também esteve lá, com um grupo de amigos.

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