Marcellus vobiscum!

Um dia um anjo do Senhor – que digo eu, um arcanjo! – aparecendo a Marcelo, ordenou-lhe: “Marcelo, filho de Baltazar, serás presidente de todos os portugueses, que é essa a vontade do Altíssimo!”. Marcelo ficou perplexo, já que, sendo jurista, pensava serem indispensáveis os votos dos eleitores, mais que a vontade divina, para atingir tal desiderato. Porém, sendo crente, não se lhe pôs dúvida nem hesitação sobre o caminho a seguir. Pelo que, engolindo em seco, gaguejou humilde: “Assim seja”.
O anjo lá foi à sua vida – seja o que for que tal signifique, que o modesto escriba nada sabe sobre costumes angelicais – resmungando para com as suas penas qualquer coisa pouco abonatória para O encomendante de tais tarefas.
E foi assim que Marcelo, o inocente, passo a passo, abriu o caminho à sua inevitável ascensão, caminho que não deixou de incluir um baptismal mergulho nas águas do rio onde nadam as Tágides. 
E é vê-lo, hoje, lançando as suas bênçãos, apelos, conselhos, prédicas, reparos, paternais censuras e, até, uma ou outra ameaça de sobrolho erguido, perante os olhos maravilhados dos seus seguidores os quais, por observarem que tudo vem de alguém que nunca pôs as mãos na política real – nunca se embrenhou nas redes de intriga social, nunca foi presidente do PSD, nunca foi governante, nunca foi candidato a nada, nunca votou a favor e contra nada, nem contra a lei do Serviço Nacional de Saúde, abrenúncio! , numa palavra, nunca fez política nem defendeu interesses e causas que não as que, agora, lhe são sopradas do alto, sendo inocente do pecado original – o procuram e o seguem nem que seja para com ele registar digital imagem que a posteridade agradecerá. Marcelo, o puro. Marcelo o único impoluto. Marcelo, o escolhido.
Por isso, oh meus irmãos descuidados, quando ouvirdes a palavra de Marcelo, sabei que, pela língua que se agita entre os seus dentes, passa a verdade, sempre a verdade.
Para nós ficam as dúvidas, as angústias, as inseguranças, o mal viver. Nós, os muitos cuja única dádiva divina foi a ventura de viver no tempo de Marcelo, o imaculado.
Erguei, pois, as mãos aos céus – mas não agora que está frio, chuva e um vento do caraças – e, prostrados, agradecei. Marcellus vobiscum!

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “…
    Por isso, oh meus irmãos descuidados, quando ouvirdes a palavra de Marcelo, sabei que, pela língua que se agita entre os seus dentes, passa a verdade, sempre a verdade.”

    José Gabriel

    Li isto algures, e até gostei!

    O POTE DA VERDADE (se é sensível, não leia este conto)

    Estava a decorrer um julgamento no tribunal de Fajão, e a certa altura uma testemunha fez o seu depoimento e rematou:
    – Isto é que é a verdade.
    O Juiz, ao ouvir falar em verdade, perguntou ao Delegado e ao Escrivão o que era aquilo, a verdade.
    Afinal, ninguém ali sabia o que era: só sabiam que era uma coisa que vinha de Coimbra.
    Então encarregaram o oficial de diligências de ir a Coimbra buscar a verdade.
    Ele foi, levou um grande pote para trazer cheio de verdade, e quando chegou à entrada de Coimbra, ali por alturas do Calhabé, perguntou onde era a Universidade, pois lhe pareceu que na Universidade é que encontraria verdade com fartura.
    Calhou passarem por ali uns estudantes, e ao verem aquele serrano de carapuça e tamancos abertos, vestido de burel, a perguntar onde era a Universidade, para lá ir buscar a verdade, logo acudiram dizendo: Deixe cá isso connosco, e amanhã às tantas horas esteja aqui, que nós trazemos o pote cheio de verdade.
    O homem concordou e entregou-lhes o pote.
    Dali os estudantes foram para a sua «República», e nessa noite todos «fizeram» para dentro do pote. Depois puseram-lhe um pano na boca e amarraram-no muito bem, e no dia seguinte, de manhã, lá estavam no sitio combinado, com o pote da verdade.
    «Aqui está o pote cheio de verdade. O senhor leve-o com muito cuidado, e não o abra nem o deixe abrir senão quando chegar a Fajão, e diante do Sr. Juiz e das autoridades da vila, porque a verdade é uma coisa muito fina, evapora-se com muita facilidade».
    O oficial de diligências, todo satisfeito, lá foi para Fajão com o pote da verdade.
    Chegado a Fajão, dirigiu-se à Praça, em frente da Câmara. Logo constou que tinha chegado a verdade, e todos se juntaram: o Juiz, o Pascoal, o Escrivão e as demais autoridades. Diante de todos foi destapado o pote, colocado em cima de um poial, e o Juiz foi o primeiro a cheirar.
    —«Parece que é merda!…», disse ele.
    E o oficial de diligências respondeu:
    —«É verdade!»
    Seguidamente todos cheiravam, e todos diziam:
    «Realmente parece que é merda».
    Mas o homem respondia sempre: —«É verdade!»
    ….
    Contos de Fajão – Recolha de Monsenhor Nunes Pereira
    Edição do Museu Antropológico de Coimbra

    • Ana Moreno says:

      E o que se conclui disto, Rui?
      Ouvi de um advogado que a Justiça não pretende apurar a verdade, mas sim uma versão plausível…. parece-me isso lamentável, não? Versões plausíveis é capaz de haver muitas e variadas…

      • Rui Naldinho says:

        A Justiça deveria procurar acima de tudo a legalidade, e não a plausibilidade.
        Mas para se cumprir essa função, a Lei deve ser objectiva, Clara, evitando a todo o custo, a subjectividade. Não sendo de todo possível, deve minorar-se os seus efeitos.
        Em Portugal há Leis que quase se contrariam, o que me parece uma aberração.
        Acresce que na argumentação, cada um tem a sua “verdade”. Segundo o seu ponto de vista, seja ele emocional ou racional. Mas, mau mesmo, é quando ele está em conformidade apenas com os seus interesses, e esses interesses colidem com o do coletivo.

      • Paulo Marques says:

        Regra geral, a verdade é impossível de descobrir. A memória das testemunhas é extremamente falível e maleável. A perícia técnica só dá probabilidades, mesmo na análise de ADN e impressões digitais.
        Além disso, há o motivo (para agravar ou minorar), que também não é nada certo.
        Mesmo na lei há diversas e justificadas opiniões sobre a relevância da intenção do legislador.

        • Rui Naldinho says:

          Exactamente. E aí reside grande parte do problema da nossa legislação.

          • Paulo Marques says:

            Aqui e em todo lado; mau era não ter nenhuma, porque corruptíveis também os tribunais são em ditaduras.


  2. http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2018/12/marcelo-ate-rima-com-amarelo.html

    : ) cuidado que ele vai aparecer por detrás dos arbustos !

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