As pessoas, as causas e vice-versa

Quando os professores fazem greve, há um coro de críticas a Mário Nogueira, considerado um inútil por não dar aulas há vários anos, sendo, para cúmulo, um homem tão poderoso que consegue “instrumentalizar” uma classe profissional inteira constituída por animais ruminantes que se limitam a seguir o líder, sempre sem razão para protestar. Estou à vontade, porque não faço parte do clube de fãs e fiquei ainda mais afastado depois da traição de 2018.

(A propósito, “instrumentalizar” é uma espécie de verbo-coisa com que os críticos de qualquer greve pretendem demonstrar que os grevistas são vítimas acéfalas do instinto gregário, coitadinhos!)

Diante dos defeitos – reais ou não – de um dirigente, as razões para a revolta das classes profissionais são frequentemente desvalorizadas, nem sempre por boas razões, porque há muito avençado à solta.

Pardal Henriques não será nenhum santo e poderá estar a usar a luta dos motoristas como uma rampa de lançamento para voos partidários em más companhias. Curiosamente, ou não, André Matias de Almeida, o representante da ANTRAM tem ligações ao Partido Socialista.

Ninguém, especialmente quando se expõe, pode estar livre de escrutínio ou de críticas, mas o fundamental reside sempre nas causas. A pergunta essencial deve ser uma e só uma: os trabalhadores têm razão para protestar?

Ora, a verdade é que, no geral, governo e patrões estão do mesmo lado, procurando sempre limitar direitos e salários. Manuel Pinho, há uns anos, tentou atrair investimento estrangeiro, usando como argumento os salários baixos dos portugueses. O problema é que este pensamento do então ministro não é uma excepção entre os nossos dirigentes públicos e privados.

Após anos de abusos, espezinhados pela maioria PS/PSD/CDS e (aparentemente ou não) abandonados por sindicatos tradicionais ou tradicionalistas, aonde poderá o trabalhador, bicho da terra tão pequeno, pôr a sua esperança? Repito: parece-me que há muita gente distraída.

Comments

  1. Hermínio Cerqueira says:

    Tinha que vir a filiação partidária à baila ! Então e o Pardalão não vai ser candidato pelo Partido do Marinho Pinto ?
    Este Pardalão com a sua irresponsabilidade já causou mais danos aos direitos à greve dos trabalhadores que todas as campanhas da CIP e do CDS !!!

  2. JgMenos says:

    Compreensivelmente, depois de anos a falar em recuperar ‘tempo perddo’ , ‘direitos perdidos’,quem se sente com força bastante quer apanhar o comboio do funcionalismo público que – com as suas carreiras, diuturnidades e demais mordomias criadas em tempo para compensar salários baixos – são hoje os privilegiados da nação.

    E por se manterem os lirismos abrilescos em leis ideológicas, vêem-se sindcatos humilhados por vrem direitos limitados, não por leis, mas por circunstâncias de governo e de situação política.


  3. As pessoas não imaginam a exploração que se passa no mundo dos transportes. Os jovens não querem abraçar este trabalho e fazem muito bem. Daí que a Europa têm falta de milhares de motoristas. Por ora, os escravos de leste vão suprimindo boa parte dessa falta e começam a importar carradas de brasileiros e venezuelanos para virem para cá amochar dia e noite sem vida familiar.

  4. JgMenos says:

    Como exemplos de evidências:
    – Nunca uma greve por tempo ilimitado pode ter lugar em qualquer circunstância que envolva interesses que não exclusivamente os das partes envolvidas, sem relevância para o interesse público.
    – Nos sectores de actividades integradas, as greves limitadas no seu âmbito (só algumas categorias profissionais) sempre serão a tempo parcial,

    E por aí fora até que a par do respeito do trabalhador, se façam respeitar os trabalhadores.

    • Paulo Marques says:

      E quais são as áreas em que não há relevância para o interesse público, só para a gente saber?

      • JgMenos says:

        Imaginem os lerdos que na indústria dos rebuçados fazem uma greve por tempo indeterminado, ou os coladores de cartazes, ou os porteiros, ou as putas.

  5. Rui Naldinho says:

    Só crítica uma greve quem por deformação intelectual não é capaz perceber uma coisa básica. Por detrás desta há sempre umas quantas injustiças, um inconformismo perante uma paz podre, quantas vezes selada pelo próprio governo e algumas instituições importantes, sejam elas públicas ou privadas, cujo o fim único é enriquecer meia dúzia à custa de muitos, quando não mesmo com subsídios a fundo perdido, mas cuja factura será paga por todos. Tudo, mas sempre tudo a bem da Nação.
    “Um dia a casa vem abaixo!”
    Se Mário Nogueira é criticado por não dar aulas, sendo ele funcionário público pago pelo erário público, já Pardal Henriques não sendo funcionário público, ao que parece advogado de profissão e ex proprietário ou sócio de uma empresa de transportes, só poderá ser criticado pelo carro, um Meseratti.
    “Um dia destes ainda vou ver um sindicalista ser criticado por ser gay, não devendo exercer portanto os seus direitos, na medida em que não é suficientemente macho.”
    Uma greve só tem sucesso se houver uma forte adesão dos trabalhadores a esse movimento, e é neste quadro que deve funcionar o filtro entre as partes em conflito.
    Ao governo compete garantir serviços mínimos, em sectores vitais, mas até aqui deve haver bom senso. Agora esvaziar o direito à greve, nunca.

  6. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    O problema português está nas “focas que abanam as barbatanas para produzir ruído” quando alguma figura com tempo de antena vem lançar as suas opiniões.
    O sr. das selfies falou e quando este senhor fala, aquelas focas que ainda não perceberam de onde ele vem e para onde ele quer ir, desatam a transformar-se em caixas de ressonância.
    E o que é grave é que, na sua qualidade de presidente, fala demais e é inconveniente, parecendo nunca se esquecer da sua qualidade de ex-comentador. Mas não é: é presidente de todos os portugueses (ou deveria ser) e por isso os seus comentários não podem colocar portugueses contra portugueses.
    Mas foi exactamente isso que ele fez.
    Uma greve tem sempre consequências para a comunidade e atinge-a sempre de um modo negativo. E, naturalmente, o seu sucesso está dependente na sua força que se traduz por danos contra a sociedade. Mas antes de mais é um direito, palavra que, parece, o sr. das selfies e as focas que o suportam, ignoram.
    Para destruir vale tudo e se não é pelo facto do representante ter óculos, é porque não usa gravata ou porque guia um Maserati. De repente, não se discute a greve, mas fulaniza-se, como forma de criar repúdio.
    Aliás a forma como o povo português na sua maioria reage, fica patente na corrida desenfreada aos postos de gasolina e no aumento de venda de “jerricans”, mesmo antes de saber se vai ou não haver greve. O que importa é “o eu” e os outros que se lixem. O “portuguesinho” borrifa-se para a greve e só pensa na sua situação.
    É isto que leio nas redes sociais, é esta incapacidade de perceber a luta dos outros e o egoísmo latente numa boa parte deste povo que os leva a serem caixas de ressonância.
    Situação bem diferente experimentam quando o caso lhes toca à porta.
    Aí, “ai que d’el-rei” que ninguém quer saber de mim…

  7. A.Serpa says:

    Espero que a greve vá para diante e dure pelo menos 1 ano.
    O Planeta agradece.
    A Greta quando vir o exemplo português fará certamente uma campanha mais poderosa e pode ser que a partir daí se inicio o processo de “desdesenvolvimento”.
    Istoa par da vitória já alcançada (don´t forget: “Celebrem as baixas taxas de natalidade”) do controlo populacional ocidental, e com lei de aborto até ao afloramento v?aginal do feto + eutanasia , acabemos vamos conseguir finalmente a sociedade do Homem Novo, que tanto é procurado pelas pessoas de bem.

    A.Serpa


  8. Excelente site!
    Utilizado em Banheiro Planejado, São Paulo – SP

  9. Democrata_Cristão says:

    Publicidade comercial no Aventar, ainda por cima de bandido brasuca ?


  10. o seu ultimo paragrafo resume tudo. Parabens. ( a profissão é tão boa e tão bem remunerada que todos os paises da Europa estão com muita falta de motoristas. Cada vez mais os jovens vão tendoo noção do que é essa profissão e não estão para ai virados. E fazem muito bem!!!!!

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