Estado minimizado, take 2

Nem a propósito, o liberal encartado vem dar o ar de sua graça.

“Os mais pobres culpam os mais ricos”, aponta Carlos Guimarães Pinto, só lhe faltando declarar que o fazem sem razão. Acrescenta ainda que “a alternativa à política do ressentimento é a política do crescimento. A aposta na valorização do trabalho, do mérito, do risco e da iniciativa privada.” Eis a pólvora novamente descoberta. Mas falta a este postulado a substância do que é defendido. Já vimos o que significa a maravilhosa iniciativa privada ao nível da banca (dezenas de milhares de milhões de euros roubados aos cidadãos), sector energético (electricidade entre as mais mais caras da Europa) e telecomunicações (Internet móvel é mais cara em Portugal do que na média da UE). Deve ser culpa da “luta de classes”, essa “aposta no ressentimento de uma classe contra outra“.

O que esta narrativa simplista falha em explicar é a razão de ser do sucesso alemão, dinamarquês, suíço e norueguês, só para citar alguns exemplos. Devem ser zonas mortas em termos de “socialismo”.

Ao ler o artigo, fico porém na dúvida se o articulista tem os conceitos devidamente afinados. Em primeiro lugar, o “autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico”, esse acto político que, por si só, é um monumento anti-liberal. Um governo decretar o que é a ortografia deveria fazer o Sr. Guimarães Pinto pensar. Em segundo lugar, fala de um suposto “Estado socialista” onde vivemos, sendo altamente recomendável que reveja a definição de socialismo. Pode começar pela Wikipedia. Por fim, faz tábua rasa quanto às décadas de governação PSD e CDS, como se estes nada tivessem a ver com o suposto estado gigante que nos engole. Enfim, é mais um político a escrever umas coisas.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Eu já estou cansado de falar neste assunto, mas quando vejo os nossos liberais de pacotilha, todos eles, por norma, ligados ao sistema financeiro, a falar no exemplo alemão, apetece-me mandá-los passear.

    As empresas da indústria transformadora alemã tiveram em 2017 um volume de vendas de 1 893 biliões de euros. A campeã foi a indústria automobilística com 425 biliões de euros.

    1 – O emprego na indústria

    Em 2017, 6,2 milhões de empregados trabalharam na Alemanha em 45 308 empresas industriais com 20 ou mais empregados. São mais pessoas do que a população da Dinamarca.
    Os mais importantes ramos industriais da Alemanha
    A indústria na Alemanha é dominada por 4 ramos: o ramo automobilístico, a engenharia mecânica, a química e a indústria eletrônica. Os maiores grupos empresariais são: Volkswagen, Daimler, BMW (todos do ramo automobilístico) BASF (química) e Siemens (eletrônica). A engenharia mecânica é caracterizada pelas pequenas e médias empresas.

    A quota de exportação da indústria

    A quota de exportação da indústria é de 48,4 por cento, sendo que os fabricantes alemães de automóveis produzem no estrangeiro o dobro de veículos do que na Alemanha.

    Investimentos na pesquisa

    Em 2016, a indústria transformadora investiu 53,4 biliões de euros em pesquisa e desenvolvimento. O resto da indústria investiu 9,5 biliões de euros.

    A pergunta que eu faço é esta:

    Eles querem enganar quem?

  2. Luís Lavoura says:

    Um governo decretar o que é a ortografia

    Se não fosse o governo de 1990, seria o de 1973 ou o de 1945 ou o de 1911.
    Qualquer que seja a ortografia que utilizemos (a não ser que inventemos uma, e então ninguém nos lerá), estaremos a utilizar uma ortografia decretada por um governo.

    • j. manuel cordeiro says:

      Dá-se o caso de este processo ter sido muito mais político, tendo-se passado por cima da Academia.

  3. JgMenos says:

    «Já vimos o que significa a maravilhosa iniciativa privada ao nível da banca»

    Um bom exemplo!

    Onde estão os Champalimaud e Cupertinos da banca?
    Por todo o lado bancários, abutres em pasto de anónimos.
    Salgado é excepção? É, mas foi a política que o fez dono-disto-tudo, a corrupção que o entronizou na seita dos abutres.

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