A segunda pessoa do plural

Disse-me que pusesse a mesa para dois mas o convidado do senhor engenheiro, a segunda pessoa, vai demorar muito tempo?
— António Lobo Antunes, “A Morte de Carlos Gardel

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Em português, a segunda pessoa do plural tem tanta importância como as primeira, segunda e terceira do singular e as primeira e terceira do plural e esta realidade deve estar reflectida formalmente (ou seja, no ensino). O caso do padre Carlos Cabecinhas, abundantemente divulgado nas redes sociais, é uma prova daquilo que acabo de afirmar. Convém recordar a teoria dominante: a forma vós é “muito rara em Portugal e limitada a registos dialectais (sobretudo no Norte de Portugal), litúrgicos ou muito formais” e tem “géneros textuais específicos (oratória e textos religiosos)” (pdf). Isso não impede que, felizmente, haja quem defenda a “utilidade no ensino destas formas” — contudo, como veremos, o aspecto “textos históricos” para “os alunos (pelo menos os que seguem Humanidades)” aduzido por Ana Martins, sendo verdadeiro, é demasiado redutor. Já agora, no Brasil, a conversa é outra (pdf).

Quando me dizem que o vós caiu em desuso (pdf), servindo isso de justificação para não ser ensinado, por exemplo, a alunos de português língua estrangeira, instintivamente e, às vezes, admito, um pouco exaltado (ou seja, nem tecnicamente, nem pedagogicamente), alego ter exactamente o mesmo direito à vida que têm outros compatriotas meus, igualmente falantes de português, permanentes utilizadores de vocês (+ terceira pessoa do plural), pronunciadores de dez[ɔ]ito e c[o]mo (“é como queijo”), calçadores de ténis sempre dispostos a fechar as respectivas malas de viagem e os respectivos cacifos com cadeados. Tenho exactamente os mesmos direitos, apesar de pronunciar dez[o]ito (“tens dezoito anos”) ou c[u]mo (“são como divãs”) e de dizer sapatilhas ou aloquete e, para o caso em apreço (o único aqui relevante), recorrer frequentemente ao vós, tendo a minha infância e a dos meus amigos de infância sido fértil em “onde ides?” e “tende cuidado!” dos mais velhos.

E não estou sozinho: há mais meliantes que praticam algumas destas patifarias em português actual. Por exemplo, Carlos Cabecinhas, reitor do santuário de Fátima, também utiliza vós. Todavia, o autor quer do oráculo da SIC (nas últimas semanas, tenho sido perseguido por oráculos),

Imagem captada por Adolfo Dias III

quer do texto das plataformas em linha (partindo do princípio de que se trata da mesma pessoa)

não aprendeu ou não aprendeu bem a segunda pessoa do plural e isso fez com que este *vinhais em vez de venhais acontecesse. Aliás, depois deste venhais, vieram outras formas elegantes e fascinantes, como façais e acompanheis. Desconhecendo a realidade linguística do autor do *vinhais, não sei se o modo conjuntivo da forma verbal pode ser considerado um elemento suplementar de perturbação.

Por isso, devemos pensar além dos “textos históricos” e ter em conta que mesmo o conceito “registos dialectais” não significa nem a utilização do vós apenas numa determinada franja do território, nem sequer uma ínfima frequência global (não estamos propriamente a falar de um atuado). Tendo em conta que a SIC chega ao mundo inteiro (tal como o Aventar), o vós tem dimensão planetária. Considerando o elevado tempo de antena dado em Portugal ao clero, é de esperar vós bastante frequentes. Porque Carlos Cabecinhas, além de, como eu, ter direito à vida, também tem direito a uma correcta transcrição das suas declarações, feitas, aliás num português impecável. Já sabemos que ao país do efémero, do passageiro e do transitório a SIC só interessa como inesgotável fonte de prazer: para aplaudir ou apupar Rodrigo Guedes de Carvalho, por razões que tresandam a politiquice, ou para se rir (“yuk-yuk-yuk, hahaha“) do autor do *vinhais.

No caso do *vinhais, convém encontrar rapidamente uma solução para o problema e a única que vislumbro é a aprendizagem e o estudo das formas verbais na segunda pessoa do plural. Na raiz do problema aqui estudado, temos fraco domínio do vós, pouca exposição a venhais e até, provavelmente, a possibilidade de a presença de vogal antes de consoante palatal ter sido mal interpretada pelo autor do *vinhais como um /i/ (=<i>) que recuou para [ɨ] (Gonçalves Vianna e Morais Barbosa já explicaram há muito tempo este fenómeno) — todavia, este último factor está intimamente ligado aos outros dois. É por estas e por outras que o “critério fonético (ou da pronúncia)” não deve servir de base a um código ortográfico.

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Comments

  1. Professor B says:

    A segunda pessoa do plural desapareceu ou foi varrida para debaixo do tapete.

    • Dragartomaspouco says:

      Se forem ao interior norte ( Alto Douro, Alto Minho, Trás-os-Montes e Beira Alta) ainda é usado.

      Mas infelizmente em vias de extinção

  2. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Parabéns ao Francisco Valada por mais um excelente texto. Como habitualmente 🙂

    E vós que o ledes, aprendei alguma coisa… 😉

  3. POIS! says:

    Chrónicas Ortographicas (Ato 2 e Desato só 1)

    Andando D. Dinis por terras de Leiria à caça de frescas virgens, e sentindo o fogoso cavalo a falhar nas subidas, resolveu abancar em casa de um conde que, por ser muito baixo e gordo, por tal difícil de derrubar, era conhecido pelo Conde Estável.

    Aí comeu e bebeu lautamente e, depois de prometer que trazia umas arrufadas da Padeira de Aljubarrota na volta, fez-se novamente ao caminho.

    A certa altura, pretendendo de novo dar descanso ao equídeo, aproveitou para aliviar ali mesmo a tripa onde não parava de voltear a monumental feijoada que comera em casa do conde, acompanhada da forte vinhaça.

    Quando se levantou para proceder para se limpar ao pergaminho higiénico (muita cantiga se perdeu por excesso de higiene!) notou que era observado por uma turba de campónios que riam a estandartes descravados. O que Dinis sabiamente aproveitou, puxando da cítara, para entoar mais uma das suas repentinas cantigas:

    Arriava o calhau no descampado,
    E tu viste, e tu, e tu, e tu;
    Se houvesse aqui um pinhal
    Vós não me veríeis o cú!

    Terá estado assim a segunda pessoa na verdadeira origem do Pinhal de Leiria.

    [Cai o pano]

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