Trump, Chomsky e as línguas

Quem quer ouvir pintar em inglês do Mali?

— GNR

I’ll tell you what I want, what I really, really want
So tell me what you want, what you really, really want
I wanna, (ha) I wanna, (ha) I wanna, (ha) I wanna, (ha)
I wanna really, really, really wanna zigazig ah

— Elijah Wood (o original é este e eis um bónus)

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Segundo a versão do Politico («Without the US, the French would be speaking German»), Donald Trump terá escrito que, sem a intervenção dos EUA na Segunda Guerra Mundial, hoje em dia, os franceses estariam a falar alemão — como língua dominante no território francês, entenda-se. Já agora, fica aqui uma nótula informativa a indicar que a paisagem linguística do hexágono é extremamente complexa e interessante e, já agora, há vida francófona além do hexágono.

Adiante.

Com esta asserção do presidente dos EUA (a veiculada pelo Politico, a original encontra-se no chilreio), depreende-se que Trump não lê, não escuta, não ouve (ou — existe sempre esta hipótese — não concorda linguisticamente com) Chomsky. Há uns anos, perante a pergunta de  Al Page “porque é que a língua francesa é tão diferente da alemã?”, Chomsky criticou implicitamente o ‘tão’, retorquindo que Page estava a partir do princípio de que a língua francesa era diferente da alemã.

Além desta pequena provocação, deixo-vos uma linda imagem do sítio do costume, desta vez, sem fatos, sem contatos, mas com um belíssimo panorama de um aspecto que só tenho difundido em dias de Orçamento do Estado. Tradutores Contra o Acordo Ortográfico, obrigado pelo mote.

Efectivamente, ontem, no sítio do costume.

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Os agentes da ortografia

Quis pedir ajuda, mas a língua estava morta.

Mesa & Rui Reininho

Si cada español hablara de lo que sabe y solo de lo que sabe, se haría un gran silencio nacional que podríamos aprovechar para estudiar.

— Manuel Azaña (apud Felipe González)

Wenn der Mann auf dem Bett liegt und dieses ins Zittern gebracht ist, wird die Egge auf den Körper gesenkt. Sie stellt sich von selbst so ein, daß sie nur knapp mit den Spitzen den Körper berührt; ist diese Einstellung vollzogen, strafft sich sofort dieses Stahlseil zu einer Stange. Und nun beginnt das Spiel.

Franz Kafka, (ARD, adapt. 00:26:51)

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Há erros ortográficos que nos dão indicações importantes sobre aspectos fonéticos e fonológicos. Um *’fato’ em vez de ‘facto’ ou um *’contato’ em vez de ‘contacto’, por exemplo, dão-nos interessantes pistas sobre as quais nos podemos debruçar hipoteticamente logo no segundo ponto deste decálogo. De igual modo, é sabido (por exemplo, por Cook) que um falante de uma língua estrangeira, através de certas características ortográficas presentes em textos escritos nessa língua — e não só com dados denunciados pela pronunciação —, pode desvendar particularidades do sistema fonológico da língua materna e não só do sistema de escrita em que o falante, leitor e escrevente aprendeu a ler e a escrever.

Também é sabido há muito (por exemplo, por Maria Helena Mira Mateus) que um <s> em vez de <ç> (como a *’insersão’ em vez de ‘inserção’ dos autores da Nota Explicativa do Acordo Ortográfico de 1990) demonstra a falta de adequação do “critério fonético (ou da pronúncia)”, pois “a ortografia portuguesa é fonológica e etimológica e não fonética”. Sabe-se agora também que <ç> em vez de <s> (como um *’dorço’ em vez de ‘dorso’) leva a polícia brasileira a ter dúvidas sobre a autenticidade de documentos.

Adiante.

No sítio do costume, tudo como dantes.

Através da RTP, percebe-se, [Read more…]

O Museu e as Descobertas

A polémica (aqui, ali e acolá) e um contributo de 1989: «Desde as Descobertas temos o vício de implantar/Dúvidas abertas».

As Lições de Português do Professor Expresso

Andrew ‘Andy’ Osnard: No paper trail.

— The Tailor of Panama

Domitius Enobarbus: And what they undid did.

— Antony and Cleopatra

Avanço por aí
No gelo salgado
O meu hálito derrete
O teu corpo congelado

— Rui Reininho

This is the glamorous life there’s no time for fooling around.

— Lloyd Cole & The Commotions, “My Bag“, Mainstream, October 26 1987 (obrigado, Nuno Miguel Guedes)

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Por aí, leio o seguinte:

Há um discurso por aí que valoriza demasiado os erros ortográficos.

É verdade. Todavia, há outros discursos, como este (a reproduzir este), que os desvalorizam em demasia. Já agora, erros sintéticos?

De síntese? Ou sintácticos? De sintaxe? Ou *sintáticos? De nada?

Pelos vistos, o “por aí” criticado no texto será auto-referencial, pois o Expresso indica mais erros ortográficos do que “outros erros”:  

  • «A Joana foi há escola» é erro ortográfico;
  • «Ele tem uma obcessão por carros» também é erro ortográfico;
  • «É um fato que existem alterações climáticas» é um erro ortográfico;
  • «Eles vêm a dobrar» é efectivamente erro ortográfico;
  • «Derepente a zanga começou» é objectivamente erro ortográfico;
  • «É uma casa portuguesa, concerteza!» é de facto erro ortográfico;
  • «Hádes conseguir escrever um livro» não é erro ortográfico;
  • «Já fizestes os trabalhos de casa?» não é erro ortográfico;
  • «Quero duzentas gramas de fiambre!» não é erro ortográfico;
  • «A polícia interviu naquela confusão que houve na rua» não é erro ortográfico.

Curiosamente, como vimos, o texto em apreço debruça-se sobre [Read more…]

José Sócrates e o despacho de acusação do Ministério Público: fraudes e fiascos

We’ll try to stay blind
— Duran Duran “Come Undone

Thomas: Excuse [ˈskjuːz] me, you don’t know who I am.
Johanna: Yes, I do.
Thomas: Do you?
Johanna: You’re the boy who follows me. You’re also Ethan’s son.

— The Only Living Boy in New York

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Foto: Carlos Manuel Martins/Global Imagens (http://bit.ly/2kOGAC4)

Não sei se o advogado João Araújo já teve tempo para ler as mais de 4000 páginas da acusação deduzida pelo Ministério Público, no âmbito da Operação Marquês. Marques Mendes não teve. Quando João Araújo tiver tempo, pode recorrer às directrizes que aqui exponho — infelizmente, só me chegou às mãos o documento facultado pelo CM —, com um apanhado aparentemente semelhante ao do recente exercício orçamental, mas efectivamente diferente:  [Read more…]

A Barbara Mandrell e o Acordo Ortográfico de 1990

THE OLD MAN: I am actually married to Barbara Mandrell in my mind. Can you understand that?

EDDIE: Sure.

THE OLD MAN: Good. I’m glad we have an understanding.

— Sam Shepard, “Fool for Love

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Poderíamos reproduzir (ou adaptar) esta conversa entre o Eddie (o Sam Shepard deixou-nos há poucas semanas) e o The Old Man (o Harry Dean Stanton deixou-nos hoje, soube há pouco pelo nosso António Fernando Nabais), com o AO90 a servir de Barbara Mandrell (coitada da Mandrell), da seguinte forma:

A PESSOA QUE ESCREVE NO SEXTA ÀS NOVE DA RTP: Eu escrevo segundo o AO90. Percebe?

UMA PESSOA QUALQUER QUE TENHA LIDO E PERCEBIDO O AO90: Claro!

A PESSOA QUE ESCREVE NO SEXTA ÀS 9 DA RTP: Ainda bem que estamos de acordo.

Para banda sonora, se não houver L’idiot, se não houver City of New Orleans e se não houver os meus dilectos Ao Soldado Desconfiado ou The Phoenix, então pode ser o Comboio  ou então o Noutro Lugar. Não escolham o Depois de ti, mais nada, sff. Obrigado. Adaptações?  Start Me Up é fixe, mas prefiro Love Removal Machine.

Agora, vamos àquilo que interessa:

 

O Sam Shepard era o maior

-— Ecco l’America — disse il signor Melfa.

— Leonardo Sciascia, “Il lungo viaggio

… down to Tucumcari, picking up 40 West, paralleling the fabled and long-abandoned Route 66—the highway he grew up on. The highway that shaped his youth.

— Sam Shepard, “Williams, Arizona (Highway 40 West)

On the sixth take, I burst in the door; discover the corpse; pause for a second; cross to the radio; pause again; then I smash the radio to the floor with my fist. I just cold-cock the sonofabitch.

— Sam Shepard, “Winging It” (*1)

There is a little handmade cardboard sign hanging over the steaming chicken wings that reads: LIFE IS WHAT’S HAPPENING TO YOU WHILE YOU’RE MAKING PLANS FOR SOMETHING ELSE.

— Sam Shepard, “Living the Sign” (*2)

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A decisão sobre o aspecto deste texto começou a ganhar forma durante a semana passada, algures na strada provinziale 66, ao volante de um Fiat Panda, na direcção de Putzu Idu, a caminho dos arredores de Sa Rocca Tunda.

Dois dias antes, ao chegar ao hotel, ligara o telemóvel e respondera ao Dario: estava sem condições técnicas para escrever e publicar sobre Passchendaele, ele que tratasse disso. De repente, algures nas notificações, a notícia do Público. Dois dias antes, ligado ao Feicebuque, precipitara-me e prometera um texto para o fim-de-semana. Dois dias antes de este texto começar a ganhar forma, algures na strada provinziale 66, ao volante de um Fiat Panda, na direcção de Putzu Idu, a caminho dos arredores de Sa Rocca Tunda. Acabou por ser adiado para terça-feira. Exactamente: para hoje. There were more urgent emergencies than mine (*3), citando o Shepard.

© Bruce Weber (http://bit.ly/2wyXcia) Sam Shepard with his Hermes typewriter, in New York City

Para o Shepard, tudo começou aos 19 anos em NYC. Para mim, começou também mais ou menos por essa idade, na mesma latitude, mais coisa menos coisa, mas num consultório médico, no Porto, mais concretamente, na rua Arquitecto Marques da Silva.

— Boa tarde, consultório médico. Com certeza, dê-me só um minutinho — disse a Fernanda, que conhece a minha familia desde que o Dr. Mena Matos tratou a minha bisavó — Sim, sim, só um bocadinho, não desligue — virando-se para mim — Miguel, hoje, o senhor doutor tem muitos doentes e isto é capaz de demorar. Se calhar, em vez de ficar aqui a apanhar seca, ia ali abaixo, tomava um cafezinho… [Read more…]

O aparente regresso da silenciosa resistência

Efectivamente escuto as conversas
Importantes ou ambíguas
Aparentemente sem moralizar

Rui Reininho

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Agradeço ao excelente leitor do costume o envio desta amostra.

Não se trata de novidade. Aparentemente, o jornal A Bola, de vez em quando, regressa aos tempos em que resistia silenciosa e irresponsavelmente.  Efectivamente: silenciosa e irresponsavelmente. Aparentemente, silenciosa e irresponsavelmente? Não! Efectivamente! Efectivamente, silenciosa e irresponsavelmente.

Exactamente. Efectivamente.

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Bem-vindo ao passado

Welcome to the jungle

— Rose/Slash

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De facto, hoje, há de tudo. É como no tempo da pharmacia.

Sim, no tempo des contradictions et des irrégularités orthographiques que alimentavam o état anarchique da ortografia portuguesa. Efectivamente, quando eram indicadas as grafias “grosseiras e vergonhosas” das publicações saídas da Imprensa Nacional.

Zangado? Bem-vindo ao passado.

Continuação de uma óptima semana.

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Efectivamente

#RuiReininho2017