Oito apartamentos e um sótão (1)

Primeiro direito

 

O T2 tinha encolhido há dois anos. Num quarto, o casal; noutro quarto, os dois rapazes; a sala era ocupada por uma pessoa: o “meu pai”, o “teu pai”, o “avô”. Quando este enviuvara, o filho e a nora insistiram que viesse lá para casa, ele que não, eles que tinha de ser, ele que não fazia sentido, eles que não ficava ali bem sozinho. A dado momento, o viúvo considerou que já tinha recusado vezes suficientes para poder aceitar, e o filho e a nora ficaram secretamente revoltados com a aceitação, porque já estavam quase a poder desistir, irritados por terem conseguido vencer uma negociação que queriam perder. De qualquer modo, todos disseram quase ao mesmo tempo que aquilo era provisório.

A coabitação começara razoavelmente, as boas intenções ainda não eram um inferno, a novidade era divertida, o meu pai, o teu pai e o avô não era má pessoa. Repetia, divertido, as mesmas anedotas que já tinha repetido e todos faziam de conta de que se riam pela primeira vez, num pacto de ruído que não deixava de ser divertido. De vez em quando, contava uma história de que o filho não se lembrava. Ocasionalmente, trazia pão, bolos, pêssegos que lhe faziam lembrar a infância, um ou outro frango de churrasco.

Um dia, a nora apercebeu-se de que a casa toda cheirava a hálito de velho, como se, saindo da boca do sogro, tivesse ocupado a sala, avançado pela cozinha, estendendo-se pelo corredor e pelos quartos como uma presença viscosa, um nevoeiro denso. O filho começou a sentir-se irritado pela tosse matinal do pai, que ouvia cada vez mais distintamente, apesar de o quarto ser o mais distante da sala. Os netos foram desistindo de ver televisão na sala, quando se aperceberam de que o avô começava a bocejar cada vez mais alto a partir das dez da noite.

Ao fim de dois anos, o provisório estava demasiado parecido com o definitivo, como o pedaço de cartão dobrado que equilibra a perna da mesa da sala de jantar, o tijolo que suporta há anos um cano que vai ao longo de um muro por pintar, o jeito que é preciso dar à chave para abrir uma porta que, um dia, há-de ser consertada. As pequenas irritações acumulavam-se, as poucas conversas eram forçadas, os encontros na cozinha e no corredor eram evitados e, um dia, o vírus fechou toda a família em casa.

O filho ficou em teletrabalho e a mulher entrou em lay-off, no que poderia ser a letra de um fado moderno. Os dois rapazes deixaram de lutar pelo computador, cedendo um ao outro a possibilidade de assistir às aulas por videoconferência. O avô perdeu as horas do dia que passava sozinho, revoltando-se silenciosamente contra a invasão do seu tempo – um hábito transforma-se num direito.

O confinamento, palavra tão antiga e agora tão nova, era o inevitável fermento da tensão, o resmungo passou a recriminação, cresceu até discussões que nasciam da necessidade de discutir. O velho passou a sair mais vezes de casa, admoestado pelo filho e pela nora, por causa dos perigos de contágio, ao que respondia com uma certeza tão científica como “Se não apanhei até agora, também já não vou apanhar!”

Um dia, as migalhas do costume, espalhadas pelo chão da cozinha, transformaram-se num drama, lágrimas da nora, conciliação hostil do filho, espanto dos netos. O velho fechou-se na sala, mudo e determinado.

Já a noite chegava, quando se ouviu bater a porta da rua. O filho deixou passar algum tempo, para sentir que podia fazer de conta que iria impedir o pai de sair do prédio. Quando chegou à rua, o velho estava longe da vista, um pouco longe do coração. O filho não voltou imediatamente para casa, aliviado e angustiado, como se fosse duas pessoas, como se fosse possível não sermos mais do que uma pessoa.

O teu pai, o meu pai, o avô caminhava. Os passos eram comandados por uma loucura clarividente, perfeitamente reconhecida como tal e escolhida, a loucura que apaga o futuro e as consequências, mesmo que o louco saiba que existem. Caminhava, acreditando que o destino era apenas não retroceder.

Em casa, a família entrava na sala, numa reconquista quase amedrontada. O homem e a mulher diziam que talvez viesse a ser preciso comunicar o desaparecimento e declaravam que daí a pouco o teu pai, o meu pai, o avô estaria, de certeza, a entrar em casa. Cada ruído parecia a chave a entrar na porta, o desejo e o medo, tudo ao mesmo tempo. Os rapazes pegaram num filme, uma comédia que todos tinham visto muitas vezes, em família. Daí a pouco, estavam com os olhos postos na televisão. A sala era tanto deles como a preocupação.

Na rua, caminhando debaixo de uma chuva miudinha, o velho ria e chorava, morria e sobrevivia, sentia a morte como uma vitória. Continuou a caminhar, logo se via. Se regressasse, haveria de perdoar e de pedir perdão; se conseguisse morrer, não iria haver perdão.

Comments


  1. Excelente narrativa, aguardo com expectativa para perceber o que aconteceu nos restantes apartamentos do prédio. Isto promete.

  2. fmart@sapo.pt says:

    Gosto.


  3. Dizem que num passado de miséria se ‘levava o pai ao monte’; uma manta, uma escudela com um pouco de comida e um penedo alto onde não chegassem os lobos.
    A história está incompleta, não refere a reforma/direitos sociais do velho.

    • POIS! says:

      Pois tenha calma!

      Espere pela parte do sótão. V. Exa. vai lá estar, a comer bananas. É um dos povoantes.

  4. Filipe Bastos says:

    Realmente bom. Assim vale a pena cá vir.

  5. Eucleto says:

    Ora o monte,a manta,a côdea e o frio já sem lobos.
    Pois nem se ouviu rogar uma praga nem registou um repelão da nora ou de genra que já tem curso legal.
    Mais chegado aos nossos tempos havia o costume do pão de rolão e do vinho vinagrão rematados pelo especialista abafador.Não sei se o Torga infante assistiu ou lho relataram das profundas dos tempos.
    Essoutra lenda,já lenda quando o grego a escreveu, não se usa,é mesmo capaz de ser crime aparecendo depois
    num “tal canal” durante um mês dois ou três,num banquete para uma dúzia de bicos.
    Venha cá. Ouvi há pouco almas cristãs e democratas a prometer
    o reagendamento da palração e aprovação da eutanásia.Desta vez não falha. Vá lá buscar o pai e sogro ao fundo da rua,hora imprópria para um velho vaguear, se por grande milagre uma patrulha o bispa e leva ao posto, imagine a quantidade de relatórios desencadeados,o tempo perdido pelos vigilantes públicos, e quando chegar a assistência social ? Tudo por
    acreditar no conto em que nem os gregos já acreditavam,nem no homero e alguns já nem nos deuses.Uns safados com aquela lábia e tineta para as Letras.
    Não,não vá por aí. Para a historinha de alterne traga o pai aconchegado com a esperança de uma ampla liberdade de escolha futura, entre a chatice do lar e a livre,libérrima eutanásia.
    É narrativa que já não trabalharei,fica a seu cuidado que tenho de ir ali.Mas gostei do seu bom propósito e bons modos.

  6. João Paz says:

    Excelente introito.
    Um assunto, assistência à (ou na) velhice mais candente que nunca
    Espero que encontre tempo e vontade para o continuar.
    Obrigado pela partilha.

  7. Maria José Marques says:

    Excelente abordagem de um tema que nos toca a todos: filhos , netos, pais, avós e até bisavós. Eu mando, tu obedeces, vou à minha vida, sei o que faço, não preciso de ti, dá-me uma ajuda nisto, ando cá há mais tempo, já vi muita coisa,não ligas ao que eu digo, um dia vais-te lembrar.

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