Negacionismo assim vale a pena

Quinta-feira, pelas 21h15, a TVI apresentou-nos uma reportagem, mas não foi uma qualquer. Pudemos assistir a um chorrilho de chalupices negacionistas em horário nobre. Isto parece uma crítica, mas não, é um agradecimento. Sou apologista de que não se deve calar os estúpidos, porque assim sabemos onde eles andam. Seria muito mais fácil evitar assaltos, se em vez de dizerem que são da contagem da luz, dissessem logo que são gatunos. Facilita.

Só o termo “negacionista” diz que algo está mal. Quando se intitula algo como negacionista, é porque há demasiadas evidências que isso existe. E o Covid-19 é uma dessas evidências. É que estes chalup… negacionistas nem amigos deles mesmos são. Podiam tentar falar de características que geram dúvida, mas concentram-se nas evidências que já foram provadas mais do que uma vez.

A reportagem começa bem. Começa com a que me parece ser a principal dos “Médicos da Verdade”, uma Margarida Oliveira. Recuso-me a chamar Dra., recuso-me porque não quero insultar ninguém. Esta chal… negacionista é logo confrontada com o facto de estar a usar máscara. Resposta dela a isto variou entre o “Não” e o “Uso porque é uma norma” em três segundos, enquanto a tem na cara. Ao menos, é coerente. Como é que alguém que não repara que tem uma máscara à frente da boca há de reparar em evidências científicas? Boa, Margarida! Um pouco depois, Margarida diz que há ideia errada de que a máscara vai erradicar o vírus e reduzir totalmente o “contógio”. Nisto, o jornalista, que é uma pessoa normal, pergunta quem diz isto. Ela diz que não sabe, que é a comunidade em geral. Por momentos, lembrei-me daquela gente que acha que os mariconços não querem direitos, querem é mandar nisto tudo. Foi giro. Gostei. E ri-me. Em relação a reduzir o contógio, não sei. Nunca li muito sobre contógios e coisas do género. Margarida volta a tentar dizer que não está provado que a máscara ajuda. O jornalista volta a desmentir com uma coisa muito gira que chal… negacionistas não gostam – factos.
Nisto tudo, sabe-se que Margarida não tem nada a ver com saúde pública. Depois desta, pus pausa e fui mandar a minha candidatura para treinador do Xico Andebol. Além de ter o meu nome, eu tive umas aulas de andebol no 9º ano e deve ser suficiente para ser um negacionista das táticas que eles lá usam.
Chegamos ao ponto alto de MO… Estou a brincar. É o ponto alto de Margarida. Ela não merece ser tratada pelas primeiras letras de cada nome. Margarida comparou o vírus a uma gravidez. E aqui nada a dizer, faz sentido. Com a adrenalina do momento, nunca ninguém sabe se lhe acabou de ser diagnosticado um puto ou se deu à luz um Covid-19. Burrice argumentativa? Nada disso, Margarida. Nada disso!

Para vir dar um bocado de bom senso, além do jornalista que deveria ser canonizado, teve de vir um médico chamado Filipe Froes. Ando eu a carregar o nome Oliveira há tantos anos, para uma homónima minha fazer estas figuras e ser contrariada com factos ditos por um médico com nome de supermercado. Assim não!

Depois é afirmado outra vez por parte dos chal… negacionistas que a máscara não bloqueia assim tanto o vírus. Umas imagens muitos giras de uma universidade australiana voltam a mostrar o contrário. Mas vá, aquelas imagens eram engraçadas. Pareciam mesmo os perdigotos que aqueles chal… negacionistas gostam de mandar ao microfone enquanto destilam disparates no Rossio.

Margarida admite que idealmente deveríamos seguir as normas das instituições decentes. Parece-me bastante sensato criar grupos que as contrariam sem factos. É ouro sobre azul.

O jornalista volta à carga com uma declaração da Margarida a dizer que os profissionais dos lares não necessitam de usar máscara. Começa por dizer que não é bem isso e acaba a afirmar que foi descontextualizada. O santo da TVI diz-lhe que está no manifesto e Margarida pensa como uma boa fanática “ui, se está no manifesto é porque é verdade” e ainda afirma orgulhosamente que aquilo foi escrito por ela. A desculpa é que era no dia-a-dia, não num contexto epidémico. Para a Margarida, o contexto epidémico deve ser terças e quintas ou algo do género. Ela volta a perguntar o que é aquilo que o jornalista tem na mão. Parece que quando ele disse “o seu manifesto”, ela achou melhor dizer “o nosso”. Um filho desta chal… negacionista, se lhe disser que faltou a uma aula, mas os outros também, tem vida safa. Haja quem nasça com o rabo virado para a lua. Depois de estar completamente cansada de verdade, factos e tudo isso que ofende mentirosos, Margarida diz que não vale a pena continuar, porque o jornalista vai buscar coisas do tempo da Maria Cachucha. Quem é a Maria Cachucha, pá?

À questão sobre as evidências científicas a resposta é que há artigos na internet. Imaginem: há pessoas que querem informar sobre uma pandemia com cursos tirados na secção de perguntas do Yahoo.

Agora, vou dar o braço a torcer. Uma negacionista chamada Laura Sanches deve ser perdoada. É a única que não fala como uma chalupa. Ela própria deve ter perguntado “o que estou aqui a fazer?” depois de ver o resultado final. De resto, mais do mesmo, mas menos chalupa. Ela própria admite que as regras fazen sentido. Se calhar, teve de escolher entre um café com as amigas ou ir àquela reportagem. É legítimo.

15 minutos de chalupices, com pseudo-jornalistas pelo meio, anestesistas, psicólogos, artigos da internet e zero epidemiologistas e zero artigos científicos credíveis. Obrigado à TVI. Podemos ainda não saber bem em quem acreditar, mas sabemos perfeitamente em quem não acreditar.

Comments

  1. Júlio Rolo Santos says:

    Estes negativistas deviam urgentemente fazer parte das estatísticas de mortos por covid19, antes que afetem outros, que ajuizadamente acreditam que o vírus existe e não admite que o ignorem.

  2. Filipe Bastos says:

    ‘Negacionismo’ é um termo que nunca ajuda. Lembra sempre conformismo, preguiça intelectual, censura e groupthink. Nem à malta da Terra plana gosto de chamar ‘negacionistas’. Teorias da conspiração é também contraproducente.

    Devemos sempre questionar tudo. Sempre, tudo. Os governos mentem, os cientistas falham ou mentem, as verdades e costumes não são imutáveis. Algumas dúvidas são plausíveis, outras menos, como a Terra plana, mas duvidar é saudável.

    Descobri ontem o tal grupo “Médicos da Verdade” e o “Jornalistas pela Verdade”. Parecem realmente algo chalupas, sobretudo a tal Margarida, mas têm um lado bom: duvidam e questionam.

    Ao contrário do Francisco, a unanimidade da histeria covideira e o branqueamento me(r)diático do governo e do Bosta parecem-me mais deprimentes. Somos muito mansos e acarneirados. Algumas das propostas deles são, apesar de tudo, menos nocivas.

  3. Rui Santos says:

    Essa Margarida Oliveira foi ser completamente cilindrada pelo entrevistador, revelando ser uma ‘tia’ pateta, dita “Dra”que assumiu posições e fundamentação ridículas, e que seriam mais de esperar de um qualquer falso perfil nas redes

    Só por idiotice natural é que alguém pode levar a serio esta personagem

  4. Elvimonte says:

    Vi a peça televisiva e deixo dois títulos de artigos científicos recentes sobre máscaras, cujos excertos dedico aos fiéis, aos crentes e aos ignorantes.

    “Nonpharmaceutical Measures for Pandemic Influenza in Nonhealthcare Settings—Personal Protective and Environmental Measures”
    (Link: o “ascomete” não permite)
    «Although mechanistic studies support the potential effect of hand hygiene or face masks, evidence from 14 randomized controlled trials of these measures did not support a substantial effect on transmission of laboratory-confirmed influenza.»

    “Effectiveness of personal protective measures in reducing pandemic influenza transmission: A systematic review and meta-analysis”
    (Link: o “ascomete” não permite)
    «Meta-analyses suggest that (…) facemask use provided a non-significant protective effect (…).»

    Se assim não fosse, na Suécia, na Noruega e na Estónia, que nunca impuseram o uso de máscara, os números de infectados e de óbitos por milhão de habitantes seriam muito superiores aos dos países onde o seu uso é obrigatório, como Portugal, Espanha, Itália, França, RU, República Checa, etc..

    Acontece que é precisamente ao contrário: nos países onde a máscara é obrigatória é onde há mais infectados e óbitos, como pode ver-se, por exemplo, nos relatórios semanais do ECDC (Link: o “ascomete” não permite).

    Mais: a Itália impôs o uso obrigatório de máscara na rua logo no início de Outubro e verifica-se que a taxa diária de testes positivos não parou de crescer.

    Negacionista era Galileo, “eppur si muove”, negacionista era Einstein, que não recebeu o Nobel pelas teorias da relatividade, negacionistas são agora os hereges e os infiéis doutros tempos, os novos judeus que, com alguma similitude, são agora condenados às fogueiras da ignorância e massacrados no novo holocausto das redes sociais e da indústria noticiosa.

    Leitura adicional:
    “Reconstruction of a Mass Hysteria – The Swine Flu Panic of 2009”
    (Link: o “ascomete” não permite).

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