Da hiper-simplificação da realidade

 

@florencejimenezotto

Parece-me mais ou menos claro de que vivemos, actualmente, numa era de obscurantismo. Algo que a pandemia da covid-19 apenas veio agudizar. Esse obscurantismo nasce da forma como recebemos, tratamos e processamos a informação que nos chega sobre o mundo. Ou seja, esse obscurantismo nasce daquilo que é ser humano. A experiência do humano. Não sendo eu filósofo, antropólogo ou sociólogo, em princípio sou um humano, o que me permite dizer uma ou duas coisas sobre o assunto.

A experiência do ser (verbo) humano mudou radicalmente nos últimos anos com a introdução e massificação do mundo digital, nomeadamente das redes sociais. Como o próprio nome indica, a experiência social entre as pessoas alterou-se. Uma das diferenças que me parece mais clara foi o imediatismo que se gerou. Nasci em 1996. Se eu já achava que a minha geração e as suas “irmãs” eram pessoas de gratificações instantâneas, de pouco tempo de espera para alcançar um objectivo, o advento das redes sociais apenas veio intensificar essa situação.

E, obviamente, alterando-se a experiência humana no digital, altera-se também na vida real. Esse imediatismo tomou conta das nossas vidas e das nossas interações. Reduz-se a concentração numa conversa física, com a ânsia de chegar ao momento da resposta para brilharmos. Os risos serão os likes da vida real daquilo que dissemos. Provavelmente nem pensamos muito na frase, mas temos a certeza que ela é polémica o suficiente para provocar reacções nos demais.

E o nosso ego recebe, assim, a massagem que nos habituamos a receber no digital. Porque as redes sociais intensificaram uma cultura do eu de uma forma que eu, pelo menos, nunca presenciei em 25 anos. O Mark Zuckerberg diz que o seu objectivo foi aproximar o mundo, quando, na verdade, e no que ao plano humano diz respeito, apenas o afastou. Tenho a sensação de que as pessoas nunca antes conheceram tanta gente mas, ao mesmo tempo, nunca se sentiram tão sozinhas.

E sozinhas porque, não só vivem na cultura do eu, eu, eu, como elas próprias se isolam dentro de um complexo emaranhado de crenças e opiniões, um caldo de subjectividade tão profunda que cria uma dissociação entre o real e o imaginado. Pensemos na verdade: hoje a verdade, o conceito de verdade, caiu em desuso. Hoje existe a verdade subjectiva, a opinião de cada um. Opinião essa que se gera numa hiper-simplificação da realidade brutal. Mas então que é isso de hiper-simplificação da realidade, afinal?

Pensar custa muito. Dá imenso trabalho e retira-nos da zona de conforto que é andarmos por um caminho já calcado, mesmo que aos encontrões. Criamos pré-conceitos e formulamos estereótipos que, depois, aplicamos de uma forma uniforme ao mundo, sem nos darmos ao trabalho de tentar compreender a sua complexidade. A complexidade de cada coisa em si mesma, que nos poderá levar a crescer. Afinal, crescemos, penso eu, quando nos permitimos sair da forma de crenças e ideias que somos.

Não estou, com isto, a passar um atestado de inutilidade ao conhecimento adquirido. O facto de eu saber da existência da lei da gravidade salva a minha vida, na medida em que não me atiro de uma janela, com medo de morrer. Isto é, aliás, um motivo para aceitar que a vida não é um conjunto de soluções pré-definidas. Temos de, a cada momento, pensar, reflectir, para tomar a melhor decisão possível, sendo que mesmo o conceito de melhor é nosso e por nós definido.

Mas, quando hiper-simplificamos a realidade ao ponto de a reduzir a um discurso identitário (de ambos os lados da barricada), ou de a reduzir a categorias pré-concebidas de sujeitos, porque os “políticos são todos iguais”, ou “as mulheres são assim”, ou “os homens são assado”, falhamos naquilo que deveria ser a experiência humana no seu apogeu: uma procura pela total compreensão do significado da vida.

E essa total compreensão, sonho inatingível daqueles que dedicam a sua vida a procurar uma teoria de tudo, é um caminho perpétuo de não alcance, algo que nos norteia na experiência de ser humano até ao fim, mesmo com a noção de que nunca vamos obter uma compreensão total. E talvez seja nesse paradoxo que resida o sentido da vida. Procurar a perfeição é caminhar para o infinito.

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