Esquerdecer do centro

Uma das conversas que vem sempre à mesa, quando alguma das franjas mais radicais tem uma postura pouco democrática para o outro espetro, é sobre o que são os extremos. Para analisarmos isto, temos de perceber, antes de tudo, onde é que está o centro.

É bastante comum ouvir que não há extrema-esquerda em Portugal. Normalmente, quem o diz é a própria extrema-esquerda ou então uma esquerda que precisa de aliados para combater a ascensão da extrema-direita. Chega a ser enternecedor ouvir os argumentos “complexos” da extrema-esquerda, desculpando-se com a existência de movimentos ainda mais radicais. Obviamente, há extrema-esquerda em Portugal e é representada também pelos comunistas e pelos bloquistas. Atenção, lá por ser extrema-esquerda, considero que o Bloco tem forças democráticas dentro do Partido e que são suficientes para me fazer confiar muito mais nele do que no PCP. Esta é a esquerda, não só partidária, que usa exatamente as estratégias que detesta no seu adversário. Ora, estigmatiza o outro lado, chegando mesmo a pedir a ilegalização de um partido, mas considera inaceitável uma declaração vergonhosa sobre o seu, como foi no caso de Suzana Garcia. Considera-se a verdadeira esquerda, a única possível, considerando tudo o resto, até uma esquerda mais aproximada ao centro, algo que distorceu os “reais” valores. Citando Francisco Mendes da Silva, “É uma lei infalível da política: quando um adversário se aproxima de nós, é porque é um livre-pensador; quando um dos nossos se aproxima do adversário, é porque é um traidor.”. Tem uma visão única para a sociedade, como se de uma disquete se tratasse. Demonstra-se contra instituições que promovem a paz, mas fecha os olhos a células terroristas. No fundo, quase ninguém se assume de um extremo, tal como nenhum criminoso diz “Pronto, fui eu, fui eu que matei o puto. Para que prisão vou?”. [Read more…]

Vira-vira

Então agora já são todos a favor da quebra das patentes das vacinas?

Enquanto foi a Esquerda a propor o levantamento das patentes, batendo nessa tecla e até esperneando: “Vocês são malucos!”, “Isso é impossível!”, “Olha-me estes esquerdalhos…”;

O presidente liberal dos EUA defende o levantamento das patentes: “Olha que boa ideia!”, “Levantamento das patentes, já!”, “Já devia era ter sido feito!”.

Era só quem vos desse com um pau nas costas.

Curiosamente, só uma parte parece pouco interessada nesta hipótese.

Foi por isto que a direita dita moderada se vendeu?

Na primeira sondagem – valem o que valem, já sei, mas não costumam errar por muito – realizada após a decisão instrutória da Operação Marquês, pela Aximage para o JN/DN/TSF, as intenções de voto do Chega registam uma queda de 1,2%, dos 8,5% de Março para 7,2% em Abril. E isto não deixa de ser curioso e revelador. Se num dos momentos de maior fragilidade do regime que quer derrubar, Ventura não só não descola, como perde gás e se atrasa na corrida com o Bloco pelo terceiro lugar, então é possível que a extrema-direita tenha atingido o seu pico de crescimento. Pelo que se parece confirmar que a direita dita moderada se vendeu por muito pouco. Aliás, parece dar-se o caso de ter até pago para se vender, ao invés de receber, ou não tivesse o crescimento do Chega sido alimentado por uma debandada do PSD e, sobretudo, do CDS. Debandada essa que, convenhamos, tem vindo a crescer, pelo menos até à presente sondagem. Porque, na verdade, a direita toda junta vale hoje tanto como valia em 2015, e não está muito distante de 2019. A variação anda na casa dos 4%. E isto acontece porque a direita, com a excepção do IL, entregou o centro ao PS para lutar com o Chega pelo eleitorado que era seu. Vamos ter mais 6 anos de António Costa. E, a continuar assim, a mais 4 de Fernando Medina ou Pedro Nuno Santos. E esta é apenas uma das consequências de jogar o jogo do Chega. E nem sequer é a pior. No caso do PSD, o mais recente elenco autárquico-mediático, e todas as contradições que encerra, fala por si. Já o CDS enfrenta a extinção, ou, na melhor das hipóteses, a despromoção à liga do Livre (atrás do qual aparece nesta sondagem), a lutar por eleger um deputado em Lisboa. E quanto mais tempo demorarem a pôr os olhos no exemplo de Angela Merkel, pior será. Chama-se cordão sanitário e é uma questão de bom-senso.

Ode, mira este Portugal

O que me diz toda esta polémica com o caso de Odemira? Que é o Portugal de sempre. O Portugal que assusta qualquer um que o “mire” de fora.

Num breve resumo: temos um empreendimento turístico que concorre de forma desleal com muitos outros na região. Cujo investimento foi feito com batota, ou seja, com empréstimos a fundo mais que perdido ou a fundo de amigo, via BES. Temos explorações agrícolas que concorrem de forma desleal utilizando mão de obra escrava. Temos um Estado que faz de conta que não vê nada. Reguladores que não regulam nada. Autarquias que não se preocupam com nada. E depois, quando a coisa dá para o torto temos o tradicional “não sabia”.

Reparem, o Senhor Zé tem uma exploração agrícola onde paga aos seus trabalhadores cumprindo integralmente as leis do trabalho a concorrer com o Zé S.A. que escraviza os seus trabalhadores. E vão os dois vender ao mercado em pé de igualdade e, claro, o Zé da S.A. consegue ter preços mais baixos que o Senhor Zé. Agora é substituir a exploração agrícola pelo restaurante, pela loja de roupa, pela mercearia e passar de Odemira para Lisboa, Porto, Braga, Vila Real e por ai fora. O mesmo se diga no tocante a “resorts” e o pequeno investidor que criou um turismo de habitação ou um Hostel. Quando vemos e lemos a “engenharia” financeira na base da criação do ZMar é todo um Portugal dos pequeninos, do amiguismo, das velhas famílias, dos chegados ao Terreiro do Paço. O BES empresta sem as garantias que exige ao comum dos mortais. As autoridades fazem de conta e deixam construir onde não é permitido ao comum dos mortais e quanto a impostos, vou ali e já venho. Ora, isto não é liberalismo económico. Nem se pode chamar a isto capitalismo selvagem. É pior, é crime sem castigo. É Portugal.

Ora, eu gostava de ver a Iniciativa Liberal a falar a sério sobre isto. A explicar que esta merda não é liberalismo, que esta merda nem capitalismo é. E sim, sou mais exigente com a IL do que com os outros nesta matéria. Porque dos outros já não espero nada. Trabalho escravo, violação das regras da concorrência, abuso de poder é o resumo do que se passa por estes dias nas notícias.

É Odemira a ser o espelho de Portugal.