A política ‘pós-modernos’

É incrível como as coisas mudam.

Um fascista já não é mais um fascista. Agora é “iliberal” ou “ultra-conservador”. E o fascismo já não é mais fascismo, agora é “direita populista”.

Tudo isto deve ter começado quando substituíram “trabalhador” por “colaborador”, estou certo.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Boa tarde, João

    Já aqui afirmei por diversas vezes que o fascismo em Portugal nunca morreu. Esteve sim num processo letárgico, “encriptado” durante décadas no seio do eleitorado do PSD e do CDS.
    Com o avançar do processo de liberalização da economia, o qual veio agudizar uma série de tensões sociais ocultadas pelo Estado Social, com o fim da classe média portuguesa como a conhecemos no tempo dos nossos pais, no meu caso bem mais velho do que vós, na minha geração, estas reminiscências do passado, mais tarde ou mais cedo viriam ao de cima.
    Se olharmos bem, só estamos atrasados em relação a outro países europeus.
    A Alemanha é um bom exemplo disso. A classe média alemã está a empobrecer, isto na antiga RFA. Por outro lado é na antiga RDA que a extrema direita tem maior expressão política. Com a reunificação desta à RFA, a esperança dos cidadãos do Leste de saírem de uma economia planificada, sem grande crescimento, sem grande poder de compra, cresceu exponencialmente. O que veio a seguir foi uma enorme desilusão, com taxas de desemprego muito superior à parte Ocidental.
    Daniel Oliveira escreveu hoje um artigo no Expresso, em que de certa forma desmonta a estratégia de uma direita ávida de Poder, que percebe ter deixado fugir uma boa parte do eleitorado para a extrema direita populista.

    Qual fascismo?

    “Não é por saudosismo que uma parte da direita tem necessidade de encontrar historiadores que, em encontros com fins políticos, e não académicos, recontam a história do Estado Novo. A necessidade de retirar alguma carga negativa a uma ditadura de 48 anos, criando a sensação de mera evolução para o desenvolvimento, lamentavelmente interrompida pelo PREC, é política e presente. (…) A direita sempre teve de lidar com uma aliança silenciosa e envergonhada com os saudosistas do Estado Novo, setores da Igreja que com ele colaboraram, uma elite económica que foi protegida por Salazar, muitos ex-colonos com um profundo ressentimento com a descolonização e até uma franja de fascistas. (…) Mas esta aliança fez-se com a subordinação dos saudosistas aos democratas. (…) Mas as teses revisionistas voltaram em força. Não é por ser salazarista que parte da direita tradicional se tornou cúmplice do branqueamento suavizador da ditadura. É a condição necessária para tornar aceitável a aliança com a extrema-direita. O problema aritmético que se põe ao PSD põe-se a quase toda a direita europeia: sem os extremistas não chegam ao poder. O crescimento das suas franjas xenófobas e autoritárias tornou o cordão sanitário inviável. E em muitos casos isso implica, para que a aliança estratégica se faça, uma reconstrução do passado. (…) A mesma direita que usa ‘comunista’ e ‘socialista’ sem qualquer atenção a nuances exige um rigor milimétrico quando fala de regimes autoritários de direita que partilharam estética, valores e um tempo histórico. Para que não haja filiação comum e partilha de crimes. E assim, por milagre, o fascismo nunca existiu. A ditadura portuguesa foi uma coisa sem nome, indefensável, mas, como escreveu Pacheco Pereira, carregada de adversativas que tornem a sua pestilência inodora. (…) Uma coisa morna, sem assassinos, torturadores e censores que atrapalhem as alianças que hão de vir.”

    • João L Maio says:

      Na mouche, Rui.

    • Carlos Almeida says:

      Quando a ala “esquerda” do partido de Marcelo Caetano, continuador de Salazar à frente do Estado Novo, criou o partido denominado Partido Popular Democrático (PPD), deixando para a ala direita da ANP (Acção Nacional Popular) a fundação do Centro Democrático e Social (CDS) , as cartas estavam distribuídas.
      Ao contrario do que alguns inocentes julgam nem todos estavam contra o governo de Marcelo Caetano em Abril de 74, mas haveria poucos que estivesses dispostos a defendê-lo, principalmente quando perceberam que o mau estar provocado nas Forças Armadas, pela incapacidade de Marcelo Caetano na resolução politica do problema colonial, tinha causado o derrube do Governo.de Marcelo Caetano.
      Mas como não tinham alternativa, fundaram os partidos PPD e CDS para estarem por dentro e combaterem o 25 de Abril e o movimento popular subsequente.
      Mas infelizmente para eles, tirando o apoio dissimulado a alguns golpes spinolistas, até nesse papel foram substituídos por outro partido, que me escuso de aqui nomear, por ser de conhecimento geral, de pelo menos de quem era vivo nesse tempo.

  2. José Meireles Graça says:

    Já antes de se substituir “trabalhador” por “colaborador” se havia substituído “empregado” por “trabalhador”, como se todos os empregados fossem igualmente trabalhadores. Quanto a estas quezílias semânticas sobre a direita fascista e assado e cozido e frito, ofereço com generosidade uma solução: são todos reaccionários. Isso, pelo menos, eu sei que sou.

    • João L Maio says:

      Então foi por isso que saiu do CDS e agora gosta do CH… percebi. No CDS andavam escondidos, no CH é à vontade!

      • José Meireles Graça says:

        Custa-me contrariá-lo, João Maio, mas não gosto do Chega!, entre outras razões por causa das reformas penais que defende, o simplismo na análise de alguns problemas sociais e mais um par de botas. Nós, os reaccionários, às vezes, somos uma gente complicada. Mas, no fundo, está a ver, é tudo farinha do mesmo saco, essa parte deve ser a que lhe dá uma grande satisfação.

        • João L Maio says:

          Sim, acaba por ser tudo farinha do mesmo saco.

          Salazar, Caetano, Spínola… PSD, CDS ou CH, vai tudo dar ao mesmo, até porque uns foram as parideiras dos outros.

          Mas numa coisa tem razão, e é isso que os une: são uma cambada de reaccionários de pólvora seca.

  3. Filipe Bastos says:

    O que define um fascista? O que é hoje o fascismo?

    Passamos a vida a atirar estes termos, deliberadamente vagos para abrangerem tudo e todos de que não gostamos. À direita até há quem use o termo ‘comuno-fascistas’.

    A verdade é que este formalismo ideológico morreu com o séc. XX. É obsoleto. É fazer de conta que todos não sabem o fim ignóbil de Hitler e Mussolini, a queda da URSS, as tragédias dos regimes ditos comunistas, a globalização e realpolitik dos últimos 30 anos.

    Quem manda no país e no mundo está-se nas tintas para esquerda ou direita, e a maioria das pessoas também. O Ventura atrai votos porque diz meia dúzia de verdades pedestres que mais ninguém diz, não por alguma ânsia de fascismo ou Estado Novo.

    O problema não é as verdades que ele diz; é ser só ele a dizê-las.

    Os extremos atraem votos porque o centro está podre. O centrão é podre. Chulos e trafulhas ao serviço de mamões. É irónico que seja um lacaio de mamões como o Ventura a aproveitar isso, em vez de ser a esquerda. Irónico e triste.

    • João L Maio says:

      Achar que o fascismo, ou os fascistas e respectivas ideias, ficaram no século XX parecem-me de uma extrema ingenuidade.

      Não tomava o Filipe como ingénuo e por esta não esperava…

      Se me disser que o ideário fascista de hoje não é igual ao de 1920 em diante, aceito; hoje é mais liberal na economia. Tudo o resto, especialmente no que diz respeito às visões sociais, mantém-se quase inalterado. É por isso que é fácil identificar um fascista, por muito que alguns usem o termo a torto e a direito, como diz.

      O fascismo é igual em todo lado e não morreu; é ver quem, nos dias de hoje, por essa Europa fora (e não só) o anda a tentar re-viver.

      • Filipe Bastos says:

        Se usar o fascismo como termo catch-all para tudo que é autocrático, ou só autoritário, ou que limite a imigração, ou não goste de homossexuais, etc., então sim, encontra fascismo em todo o lado. Até no Trampa.

        Mas isso não é realmente fascismo, tal como aquilo a que a direita chama socialismo não o é e nunca o foi.

        Note que não definiu fascismo: o Chega é fascista? Porquê? Por criticar ciganos? Pela palhaçada nacionalista e católica? Por cortejar Le Pen? Nativismo, populismo, minarquismo, pode-se-lhe chamar muita coisa; na prática é tudo e é nada; é o que for preciso para ter poleiro e tacho.

        Hitler e Mussolini não eram meros chulecos à cata de tacho; não eram Venturas. O fascismo de há 90 anos é irrepetível, pelo mesmo motivo que o (pretenso) comunismo de então o é: porque traz demasiada bagagem; porque o mundo é outro e o tempo não volta para trás; porque todos estão carecas de saber como correu e como acabou.

        • João L Maio says:

          Tudo bem, definirei fascismo.

          O fascismo rege-se por algumas ideias básicas. Vejamos: a rejeição do que é “moderno” ou “diferente da norma”; a apologia dos valores tradicionais (deus, pátria, família – termos hoje resgatados por partidos neo-fascistas pela Europa fora, incluindo Portugal – e não pela mão do CH -, que começam a colher, de novo, simpatia); os ataques à criatividade, ao culto da intelectualidade e ao que é erudito (o fascismo cultiva a castração de pensamento); identitarismo: isto é, pensamentos e comportamentos racistas que acabam por redundar na crença de que há culturas ou etnias superiores e outras inferiores; o apelo visceral dos descontentes – o fascismo serviu-se, essencialmente, das crises dos anos 20 para proliferarem e criar sentimentos de ódio no outro; o nacionalismo como aspecto político chave: toda a política fascista é baseada na crença de uma pertença nacional – nós vs os outros/os brancos vs os pretos; o machismo como sinal de virilidade masculina, e, por contrário, o recato da mulher caseira, obediente e gentil; o culto do líder: no fascismo ninguém se sobrepõe ao “querido líder” (este aspecto podemos incluí-lo em qualquer que seja o regime ditatorial – de esquerda ou direita); e, por fim, mas não menos importante: o ataque ao socialismo e às correntes de esquerda como manancial político.

          Estas são algumas das suas características. Poderemos argumentar, como o Filipe faz, dizendo que o de ontem não é papel químico do de hoje. Pois não é; e é natural que o não seja. Também o Liberalismo do século XIX não tem nada a ver com o de hoje; por alguma razão o de hoje se chama neo-liberalismo… mas o termo neo-fascismo não se usa, por medo, por vontade de legitimação…? Não sei. Mas chamem os bois pelos nomes, pois é fácil olhar para as características do fascismo e identificar esse ideal em algumas correntes políticas do século XXI. É o que dá meter o lixo debaixo do tapete, em vez de o colocar… no caixote do lixo.

          Costuma dizer-se que um cretino é um cretino, um vintém é um vintém. E eu acrescento: um fascista há-de ser sempre fascista.

        • João L Maio says:

          E Filipe, faltou-me dizer outra coisa:

          Não, o Ventura não é fascista. É só oportunista. Foi simpatizante comunista enquanto isso lhe deu jeito, passou à “social-democracia” à portuguesa e quando viu que seria na extrema-direita que teria visibilidade, foi para lá que foi.

          Mas há fascistas, ou saudosistas da Outra Senhora no Chega? Há. E não são três ou quatro. Diria que o PNR é mais fascista que o Chega, mas nunca teve a força nem a exposição do Chega, porque o Chega, que se diz “anti-sistema”, já nasceu do seio do sistema. Não nos esqueçamos que é o Chega quem anda a legitimar (e a incluir) os grupos neo-nazis: porque é que o Mário Machado incentiva a votar no Chega mas nunca o fez no PNR?! Fácil: porque o Chega normalizou-se a partir do momento que entrou no jogo.

          • Filipe Bastos says:

            Não é uma má definição de fascismo, João, embora se possa dizer que faltam ou sobram pontos, como é normal: não deve haver, ou pelo menos nunca li uma versão completa e definitiva.

            O seu argumento é que o fascismo evoluiu e volta a ser uma ameaça, porque não o colocámos no caixote do lixo. Mas foi colocado no lixo. Todos vimos, lemos e ouvimos milhares de filmes, livros, documentários sobre o terrível fascismo. Não é por falta de aviso.

            E repito que o problema não é o que o Ventura diz; é ser só ele a dizê-lo. V. sabe porque é que tantos vão na conversa dele: não é só estupidez, carneirismo ou racismo. É sobretudo a podridão do que temos. É a falta de alternativa. É a impotência, o desespero.

            Se sabe, porquê fazermos de conta que o problema é o fascismo ou o Ventura? O problema é o que temos; o Ventura é um mero sintoma.

          • Paulo Marques says:

            É sobretudo a podridão que lhes vendem, atribuída aos Outros com problemas e atitudes que não são reais para obfuscar o quanto a sua vitória foi um falhanço completo das promessas feitas, quando fica cada vez mais a nu a aldrabice.
            Quanto a definições, há muitas, umas mais idiotas do que outras, mas a maioria converge nalguns pontos:
            https://en.wikipedia.org/wiki/Definitions_of_fascism

    • Paulo Marques says:

      Quem manda no mundo está-se tanto nas tintas para a esquerda e a direita como os trabalhadores: pergunte-lhes se aceitam menos um iate por mês em troca de melhores condições de trabalho e descobre rapidamente.

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