Um homem fecha os olhos à morte

A natureza dos laços que nos prendem aos outros pode ser estranha. Eu tive, durante anos, uma relação com uma família que mal conhecia, mas a quem me prendia uma circunstância invulgar: tinha sido o meu pai a assistir à morte súbita do pai deles e a fechar os olhos do cadáver. Foi uma cena que assombrou a minha infância e que eu imaginei e reeimaginei vezes sem conta. Um homem que o meu pai conhecia de vista, porque morava próximo, caminha frente a ele. É de manhã cedo, há pouca gente nas ruas. O homem cai, um corpo desamparado no chão. O meu pai corre para ele. O homem não tem pulso nem respira. O meu pai chama alguém (que estava à janela?) e pede-lhe que ligue para o então 115. Pouco depois – quanto tempo? – reconhece que nada mais pode fazer e desliza a mão, imagino que a direita, suavemente pelo rosto do homem, para fechar-lhe os olhos.

A família do morto passou a tratar o meu pai com alguma deferência, o que muito me espantou porque, afinal, ele não tinha conseguido evitar-lhe a morte súbita. Fechar os olhos parecia-me tão pouco. É verdade que tinha acompanhado o homem nesses minutos finais, mas já o tinha encontrado morto, pelo que tampouco teria sido um verdadeiro conforto. É provável que o homem já estivesse morto quando o corpo embateu no chão.

O meu pai não gostava de falar do assunto. A minha mãe achava que a família ficara grata por saber como tinham sido os últimos instantes de vida do homem. Eu estava perplexa com tudo. Até então, nunca me tinha passado pela cabeça que se pudesse morrer com os olhos abertos. Seria isso mais corajoso ou simplesmente mais incauto do que morrer com os olhos fechados? Porque havia que fechar os olhos dos mortos? Por eles ou por nós? Porque era mais digno ser um morto de olhos fechados? Não havia respostas, só um silêncio carregado de solenidade. De mistério.

Quando me cruzava com os filhos do homem, senti, durante anos, que eles me deviam uma saudação respeitosa e que eu lhes devia uma expressão condoída. Porque o meu pai acompanhara o final do pai deles, mas não o evitara. Se me cruzava com eles enquanto seguia com colegas de escola, à galhofa pela rua, assumia uma expressão carregada da gravidade que me era possível. Quando, em certa época, apanhava diariamente o mesmo autocarro que a viúva do homem, agora com o segundo marido, sentia que era melhor que ela não me visse porque ver-me implicaria recordar aquele dia e todo o trauma que ficara para trás. Ao contrário do meu pai, que os encarava com naturalidade, eu sentia-me portadora de um fardo, mas também, com alguma petulância, digna de respeito por um gesto que nem sequer fora meu.

Lembrei-me de tudo isto quando vi as imagens de Christian Eriksen, o jogador da selecção dinamarquesa de futebol, caído e reanimado em pleno relvado. Quando os colegas se juntaram para fazer uma barreira que tapasse o seu corpo dos olhares de todos nós, pensei no gesto da mão do meu pai. Não resgatou à morte aquele corpo, é certo. Mas, pela primeira vez depois de tantos anos sem pensar nele, pareceu-me suficiente. Não me aclarou o mistério, mas fez-me reconhecer a sua presença.

Comments

  1. Carlos Almeida says:

    Obrigado Carla, por este bocado de humanidade. Bem haja

  2. Afonso Correia says:

    Esteve tanto tempo ausente! Para quando reunir em livro os seus maravilhosos textos? Muito obrigado, AC

  3. Victor Nogueira says:

    Já tinha notado a sua ausência e a dos seus escritos. Seja bem reaparecida.

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