Tiros de pólvora seca – uma explicação aos “activistas” das redes sociais sobre três L: Linguagem, Ligações e Luta

Fotografia: MAYO

Teve lugar, ontem, na Universidade do Minho, uma manifestação contra o assédio. Depois de várias queixas e denúncias sobre um alegado agressor no campus da U.Minho, centenas de alunos saíram à rua, muitos deles segurando cartazes que diziam “mexeu com 1 mexeu com todEs”. Obviamente, e porque vivemos na Era do Clique, a manifestação e a causa da mesma passaram para segundo plano porque, hoje, de parte a parte, o que interessa é aparecer numa fotografia de cartaz na mão com uma frase impactante, se fores de um lado, ou ir para as redes sociais balbuciar contra os manifestantes, se fores do outro. Já não interessa a luta, já não interessa a realidade. Interessa, sim, aparecer. E se para aparecer eu tiver de escrever “mexeu com todEs”, eu vou escrever, porque sou “bué” inclusivo, sigo a tendência, revolucionário e uma vez até respondi “já vou!” à minha mãe quando ela me chamou para a mesa.

Primeiro, temo ter de explicar, ainda, que os plurais das coisas já englobam vários géneros. Quando dizemos “estamos todOs” ou “estamos todAs” “aqui”, não estamos, em linguística, a discriminar ninguém; estamos, simplesmente, e mediante, muitas vezes, o género do inter-locutor (muitas vezes, até, do género que predomina nos receptores), a indicar que as pessoas estão reunidas naquele mesmo espaço, tanto quanto as que deveriam estar. O “todos”, na frase, refere-se a Seres Humanos. Posso, ainda, dizer o seguinte: “parece que já chegaram todAs as pessoas”; aqui, a palavra “todAs” refere-se a “pessoas”, palavra que, gramaticalmente, é do género feminino [A pessoa/ umA pessoa – e isto passa-se independentemente do género da pessoa; o Vítor, sendo homem, é uma pessoa, tal qual a Teresa, uma mulher, que é outra pessoa e da mesma forma que alguém não-binário será uma pessoa]. Logo, o género do pronome indefinido, neste caso, é determinado pelo género da palavra subentendida na frase [todOs os Seres Humanos/todAs as pessoas] – NOTA: o objectivo das frases é exactamente o mesmo; dar a entender que um número determinado de pessoas está todo no mesmo espaço. Isto é sobre Linguagem.

Reparem: estamos a falar, tão somente, de palavras. Palavras essas que, não raras vezes, têm o sentido que lhes queiramos dar. Um exemplo. Se eu disser “todos os Humanos são estúpidos”, estou a querer mesmo dizer que todos os Humanos são estúpidos. E quem são “os Humanos”? São mulheres e são homens. Alguns, são mulheres e homens Trans. Outros, são mulheres e homens homossexuais. Ainda há, por exemplo, pessoas não-binárias, que, espero não estar a ser ignorante, não se identificam com nenhum dos dois géneros ditos convencionais (homem/mulher) independentemente do sexo biológico (que não o nega, não o restringe; antes, não o assume como “o principal” em si, na medida em que não há relevância de um género sobre o outro [em si, de novo] para que um seja mais relevante em relação ao outro). Assim, na frase “todos os Humanos são estúpidos”, não existe qualquer discriminação de género pelo uso de “estúpidos” em relação ao adjectivo “humano”. No entanto, as formas de tratamento pessoal podem, essas sim, mudar. Mas, nestes casos, mais não são do que actos básicos de empatia pelo outro. Pessoalmente, conhecendo pessoas não-binárias, sabendo que não se assumem do género A ou do género B, trato apenas pelo nome a pessoa, quando me dirijo a ela directamente – mas, como se vê pela frase “quando me dirijo a ela” é, em Português, impossível apagar o género das palavras [até porque o “elA”, aqui, refere-se à PESSOA]. A conclusão é óbvia: a Língua Portuguesa tem género. As pessoas podem não ter. Mas o segundo facto não apaga o primeiro e os dois têm de se adaptar um ao outro, arranjando formas de co-existirem sem que: 1 – a linguagem não seja desvirtuada; 2 – as pessoas não-binárias não se sintam de fora. Estas são as Ligações.

Termino dizendo o que já estou cansado de repetir: a discriminação, seja ela de que tipo for, combate-se com medidas públicas de inclusão (nas escolas, nos hospitais, nas empresas). Passa, por exemplo, em não matar pessoas pelo simples facto de elas serem quem são ou querem ser. Milhares de transexuais, milhares de mulheres, milhares de homossexuais… milhares de crianças continuam a morrer, às mãos do ódio, todos os dias, um pouco por todo o mundo. Mas nada temam, há quem troque o género de uma palavra por um “e”.

É preciso é ir à Luta.

Ps. É gravíssimo que, num Estado de Direito Democrático, em Portugal, país da União Europeia, haja um reitor de uma universidade e uma unidade da Judiciária que não achem graves os casos de assédio que se têm multiplicado na Universidade do Minho.

Comments

  1. JgMenos says:

    E se começassem por definir assédio?

    • João L Maio says:
      • JgMenos says:

        ‘…com o objectivo ou efeito….’
        Tanto faz!

        • POIS! says:

          Pois lembra-se…

          Quando V. Exa. estava a pregar um prego no soalho e o seu amigo fuzileiro se aproximou para o “ajudar”, assim de repente, sem sequer tocar á campainha nem bater na porta?

          É isso!

          • xico says:

            Já ninguém prega no soalho… e quem tem um amigo fuzileiro que não toca à campainha (salvo seja) é porque dormiu lá a noite e você nem deu por nada, o que para um fuzileiro não fica nada bem!

          • POIS! says:

            Pois, “você”???

            E se V. Exa. lesse antes de comentar? Talvez fosse melhor. Digo eu com os nervos.

            Quanto ao resto:

            “já ninguém prega no soalho”. Pois não, agora os soalhos vêm já com os pregos incluídos. Mas continua-se a pregar. Por exemplo, nas igrejas, nos comícios e no pão.

            “a um fuzileiro não fica nada bem”. Pois, realmente é suspeito. Lá na tropa é tudo quartos individuais e afastados 100 metros uns dos outros. Não vá alguém cair em tentação.

        • Paulo Marques says:

          Sim, são os dois maus, qual é a dificuldade? Se o tentar enrabar e não conseguir, também tá tudo bem?

  2. Paulo Marques says:

    É um post estranho, mas não discordo que os pronomes neutros são estranhos ao ouvido e que, bem, não são propriamente a prioridade e uma boa maneira de perder o norte.
    Mas, que diabo, aceitamos um muito mais idiótico desacordo, acho que sobrevivíamos à discussão.

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