A sede da CPLP deveria ser transferida para o Porto

A CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, é uma organização internacional que congrega países lusófonos que, segundo afirma a própria instituição, são “nações irmanadas por uma herança histórica, pelo idioma comum e por uma visão compartilhada do desenvolvimento e da democracia”.

A CPLP afigura-se, no presente e no futuro, uma estrutura fundamental da política externa portuguesa, não apenas no domínio da língua e da cultura, mas nos domínios cujo desenvolvimento pode por elas ser potenciado, com base num património histórico e identitário comum. 

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Obama vai ou vem?

O Expresso, que é um jornal publicado num país estrangeiro qualquer, diz que Obama “vai ao Porto”. O Jornal de Notícias, que é um jornal publicado em Portugal, diz que Obama vem ao Porto, que é uma cidade portuguesa. Quem fala verdade?

Interveio vs. Interviu – A um Presidente de Câmara

interviu

O desejo de escrever esta intervenção surgiu na sequência de uma outra publicada por um Presidente de Câmara Municipal, pessoa que respeito e por quem nutro algum afecto.

Todos nós – à excepção dos linguistas da casa e que todos conhecem – damos alguns «pontapés na gramática». Da mesma forma que eu gosto (ou melhor, não gosto, mas agradeço) de ser corrigida quando pontapeio a língua mater, que às vezes fica dolorosa, venho tentar aqui fazer um bocadinho de serviço público.

Vamos lá aos esclarecimentos:

Interviu não existe, uma vez que o verbo no infinitivo é Intervir. Como termina em «vir», aplica-se a conjugação daquele verbo (eu intervenho (Presente do Indicativo), ele interveio (Pretérito Perfeito), etc).

Tanto quanto sei, existe por vezes alguma confusão entre o verbo Intervir e o verbo Entrever. Neste último, sim, há a conjugação  terminada em «viu» no Pretérito Perfeito, já que se trata de um verbo formado com «ver» (eu entrevejo (Presente do Indicativo), ele entreviu (Pretérito Perfeito), etc).

E por aqui me fico, já que há quem fale – e escreva – em muito melhor Português. Se me alongar, corro o risco de cometer erros e ser, eu também, chamada à atenção.

 

A sério que é à séria?

lingua_portuguesa_televisaoIsaac Pereira

É um erro habitual na forma de falar, sobretudo na região de Lisboa, e em especial, ali para os lados da Assembleia da República. Mas a forma de falar também já se transpôs para a escrita. Frequentemente faz a sua aparição nos jornais e nas têvês, e agora também nos sítios “on-line”.
Isto sim, é a língua no seu esplendor mais virulento.

A expressão “à séria“, possui requintes de modo “chique-burlesco”, e é tão risivelmente paroquial e provincial que até faz um asno cantarolar. É uma espécie de modinha ou coisa que o não valha, assim, como dizer, tão “fin de siécle”, não achas ó Ramalho Ortigão?

Só escrevo isto para que te previnas. Quando leres ou ouvires alguém dizer que “isto” ou “aquilo” é uma coisa “à séria“, passa um raspanete à senhora membrana auricular e, para não chorares, esfrega a retina dos teus meninos olhinhos.

«A ideia de não aparecer-mos»?

Efectivamente, “de não aparecer-mos“.

Nova Goa

António Costa inaugurando o Centro de Língua Portuguesa em Panaji (Nova Goa), na Índia (11 Jan 2017).

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Diga ‘expectativa’!

expectativa2Prometi, ontem, que voltaria à expectativa, porque posso.

Vamos por partes, que é Agosto.

Os autores do chamado acordo ortográfico (AO90) valorizam aquilo a que chamam “critério fonético”. De modo simplista, isso quer dizer que devemos escrever conforme pronunciamos, o que, por sua vez, significa que não devemos escrever aquilo que não pronunciamos.

António Emiliano, entre outros, já explicou a impropriedade da expressão “critério fonético” e o disparate em que consiste. Mas deixemos isso, por instantes, porque a expectativa é grande.

Preocupados com o tal “critério fonético”, os autores do AO90 declaram basear-se numa certa e determinada norma culta. Confrontado com a dupla grafia da palavra “expectativa”, revisitei, mais uma vez, o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, em busca da transcrição fonética da palavra. Como puderam ver mais acima, embora se admitam duas realizações possíveis para a primeira sílaba, o C pronuncia-se. [Read more…]

A iminência eminente

Eminente

Seria muito importante que pudéssemos ter na comunicação social um instrumento de defesa e valorização da Língua Portuguesa através, nomeadamente, do seu bom uso. Não se trata já de uma questão eminentemente formal, relevando do respeito que todos devemos à Língua onde assentam os pilares do nosso Pensamento e que usamos para comunicar uns com os outros. Trata-se da iminência de um cataclismo linguístico, após o qual será indiferente o que dissermos ou escrevermos, pois o que dissermos ou escrevermos poderá significar qualquer coisa, ou seja, nada.

À séria

Começou por ser ouvida no mundo comentador, foi ganhando seguidores e hoje encontrei a expressão “à séria” num texto jornalístico.

O projecto Jovem Autarca segue os passos das eleições à séria. [P]

O artigo é sobre uma jovem de 15 anos  que venceu a segunda edição da iniciativa Jovem Autarca, promovida pela Câmara da Feira. Talvez, dado este fundo de juventude, a autora tenha optado por uma linguagem coloquial. Pessoalmente, acho a expressão feia  e tenho pena que vá ganhando terreno, inclusivamente na comunicação escrita.

Paralelamente a esta nota, aproveito para felicitar a jovem Margarida pelo resultado do que me pareceu ser uma campanha com toque profissional.

 

Dia de Camões e da Língua Portuguesa

dia_de_camoes_lingua_portuguesaou apenas o Dia da Raça?

Não há cor-de-rosa sem espinhos

Rosa_chinensisNos últimos tempos, tenho-me dedicado a passear pela página que a Porto Editora dedica às dúvidas frequentes sobre o chamado acordo ortográfico (AO90). Confesso que tem sido instrutivo e não no melhor sentido da palavra. Dar-vos-ei conta deste meu périplo.

Certo dia, entrei pela pergunta O vocábulo cor-de-rosa tem hífenes?

Ainda antes de abrir, não pude deixar de estranhar que o vocábulo sobre o qual se pergunta se tem hífenes tivesse efectivamente hífenes e cheguei a imaginar que esta ligação conduzisse a um texto bem-humorado em que o leitor fosse levemente invectivado com uma frase como “Então não se viu que a resposta estava na pergunta? É claro que cor-de-rosa tem hífenes.”

Mas não. A resposta é muito mais engraçada. Ei-la:

O vocábulo cor-de-rosa é considerado uma exceção consagrada pelo uso à eliminação geral dos hífenes em locuções de uso geral no texto do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), Base XV, 6.º. Embora este vocábulo seja escrito com hífenes, segundo o vocabulário oficializado em Portugal – o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), a grafia sem hífen já é aceite como uma outra grafia possível, tal como acontece noutras combinações idênticas iniciadas por “cor de”, como cor de laranja e cor de vinho. Os critérios de aplicação das novas regras estão, portanto, conformes ao vocabulário oficializado.

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Desvios, divergências e diversões

When you see a bird that you’ve never seen before, or that very few people have seen, there’s a special thrill.

Richard Rorty

Similar remarks carry over to the system of pragmatic competence, hence the capacity to use a language appropriately.

Noam Chomsky

Esperava desejar um óptimo fim-de-semana com este vídeo (obrigado, Sir David Attenborough), divulgado hoje pelo Cornell Lab of Ornithology.

Contudo, estas imagens divertiram-me imenso e desviaram-me do meu objectivo inicial:

divergido

Factos:

1 – Na RTP, escreve-se e diz-se ‘desviado’;

2 – Um passageiro refere “um avião que foi desviado para o Porto”;

3 – No painel das chegadas do aeroporto, encontra-se ‘divergido‘.

Agora, sim.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Remediado:

particípio passado de remediar, verbo transitivo (dar remédio a; corrigir; prover do indispensável), verbo pronominal (reparar os próprios erros ou faltas; corrigir-se).

 

Será que é a Língua que é traiçoeira?

Vendesse
© F.S.

A ortografia “sei lá”

A questão ortográfica não é suficientemente importante para que faça sentido uma corrida ao armamento, mas é demasiado importante para que qualquer pessoa se permita emitir opiniões, especialmente se não se informar minimamente. É demasiado importante por variadíssimas razões que incluem, entre outras, o peso da escrita na sociedade actual, as relações complexas entre ortografia e fala ou a importância de aspectos etimológicos (úteis para a compreensão das palavras e para a relação com outras línguas).

Maria João Marques (MJM), membro do blogue Insurgente, cultiva uma imagem de leviandade que confunde com humorismo (e já não é a primeira vez que me dou ao trabalho de comentar aquilo que escreveu, o que me mereceu a duvidosa glória de ter tido um texto comentado pela Paula Bobone). Agora, estende a sua leveza a uma coluna do Observador, o que é um direito que lhe assiste, evidentemente.

Recentemente, resolveu emitir a sua opinião sobre o chamado acordo ortográfico, num texto ligeirinho, como convém, que a silly season é quando uma pessoa quiser. [Read more…]

Com o acordo ortográfico, as crianças perdem o contacto

O nosso Dario Silva encontrou a imagem que se segue. Trata-se de uma louvável publicação da responsabilidade da Quinta Pedagógica de Braga, entidade ligada à Câmara Municipal.

contato

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O problema da “portugalização” da CPLP

Feliciano Barreiras Duarte, segundo o Ventos da Lusofonia, é investigador, o que é, com certeza, importante, mesmo que não se conheça a área de investigação. Feliciano Barreiras Duarte é, ainda, deputado do PSD, que é outra maneira de se ser importante tendo a possibilidade de fazer qualquer coisa. Aliás, de acordo com a biografia da página da Assembleia da República, Feliciano tem, ainda, um Doutoramento em Doutoramento (vd. imagem infra), o que é tão específico como ser investigador em geral e deputado em particular.

(Coincidência ou não, já me tinha cruzado com outro deputado do PSD licenciado em licenciatura. Fica a faltar um mestre em mestrado. Já existia um licenciado sem licenciatura.)

Em declarações à página Ventos da Lusofonia, Feliciano Barreiras Duarte não desilude: o que se espera de um investigador que é também deputado do PSD, doutorado em doutoramento, que tem vários livros em preparação e que publicou, entre outras, uma obra com o estimulante título “Apostar no Bombarral”? Espera-se, obviamente, uma série de declarações vácuo-épicas sobre qualquer assunto.

Sendo o assunto a CPLP, o investigador/deputado/doutorado profere coisas sobre a possibilidade de a dita CPLP poder “ganhar outra voz à escala mundial” e a necessidade de “aprofundar o lado político e linguístico, mas acima de tudo, em simultâneo e com muita pressa, também o lado económico e cultural”. É preciso não esquecer que Feliciano Barreiras Duarte é do PSD e membro da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, o que implica ter de elogiar sempre a CPLP. [Read more…]

modernices (populares) da língua portuguesa

significado jurídico de contumaz: “todo o indivíduo que deliberadamente se negue a apresentar diante um juiz quando chamado por motivos de seu interesse. A contumácia é a desobediência deliberada manifestada na ausência, após convocação para presença num julgamento”

significado popular de contumaz: “fulano x tinha dívidas perante y e não obstante o calo deixado, passou os bens para a mulher, faltou à audiência e ficou cão do tomás”

Cão do Tomás, perguntei. Sim. Cão do Tomás.

consequência óbvia do neologismo popular: a expressão “ferrar o cão” – (do tomás) – o acto que cada indivíduo comete quando detém quando não cumpre uma prestação à qual está obrigado pela celebração de determinado negócio jurídico. dever algo a alguém. em linguagem informal: deixar o calo. deixar um calote. deixar fiado.

Food for thought

passos socrates

© Público/Pedro Cunha (http://bit.ly/1dgyuTw)

Matéria para todos reflectirmos: anteontem, José Sócrates criticou Pedro Passos Coelho por este, aparentemente (não vi esta entrevista) e num determinado contexto, ter adoptado o verbo ‘entregar’ como tradução portuguesa de ‘to deliver’.  Não sei porquê, mas a associação do conceito ‘língua portuguesa’ aos nomes ‘José Sócrates’ e ‘Pedro Passos Coelho’ fez com que imediatamente me lembrasse da RCM n.º 8/2011 (promovida e criada pelo primeiro; herdada, não rejeitada e executada pelo segundo) e das consequências (aqui ali). Esperemos que esta incursão pelo maravilhoso mundo da língua portuguesa (embora em registo prescritivo e moralista) seja uma indicação de que os políticos irão, por fim, começar a dedicar-se à leitura dos pareceres que solicitam e a seguir a direcção por estes apontada.

Um outro ponto interessante da entrevista do senhor primeiro-ministro foi quando ele falou — e mais uma vez utilizando também uma linguagem que se inspira nos anglicismos que ele adora… Diz ele que o Governo ‘entrega’ resultados. Quer dizer, em português, diz-se: “o Governo ‘apresenta’ resultados”. Mas, enfim, o verbo ‘deliver’ inglês é muito inspirador para o primeiro-ministro: ele acha que o Governo entrega resultados.

— José Sócrates, RTP, 15 de Dezembro de 2013

Post scriptum: As aspas [Read more…]

Ah-Ah! ou «Arrá, ti peguei!»

Esta gente está a revolucionar o humor em Língua Portuguesa e com recursos absolutamente pechincha. Os textos têm qualidade. Os desempenhos são artesanais, espontâneos, conseguidos.  O efeito é viral.

Batalha das Línguas

A afirmação do Português no Sistema Solar corre paralelamente à prosperidade, ao trabalho e à felicidade de quem o utilize. Nas Redes Sociais e muito para além delas. Mas com rigor ortográfico e elegância de estilo.

Dicionário do Governo (1)

Irrevogáveladj. que é revogável; que se pode anular; o contrário de definitivo.

Então sejemos

Sim, somos governados por analfabetos.

Ó dúvida cruel

A “Presidenta” do Brasil irá tratar o Francisco por “Papo”?

Roubado ao João Roque Dias

Exames de Matemática e de Português

Podem ser consultados no site do GAVE (6º e 9º).

 

Para acabar de vez com a CMVM

Ao ler o título deste despacho da Lusa, pensei que o presidente da República tivesse abruptamente aportuguesado a terminologia utilizada na instituição onde é membro do muito restrito clube dos “notable alumni” e do ainda mais exclusivo clube dos “internationally renowned alumni“. Efectivamente, o vídeo da SIC não é esclarecedor, mas, por aquilo que leio na notícia do Público, escrita em  português europeu padrão, estas *maturidades terão sido criadas pela Lusa e repetidas por órgãos de comunicação social que plasmam acriticamente os despachos. De facto, Cavaco Silva já falou em maturidade, sim, mas na verdadeira acepção do termo.

Pelo contrário, o ministro das Finanças não se coíbe de utilizar *maturidades («Foi acordado em princípio, e sujeito aos processos nacionais de validação parlamentar, sempre que apropriado, estender as maturidades dos empréstimos oficiais europeus por sete anos»), mas com pertinente correcção efectuada pelos jornalistas no parágrafo seguinte («O ministro português qualificou como “um momento especial” a decisão tomada em Dublin e salientou a importância do prolongamento dos prazos de pagamento»). [Read more…]

‘Nao’, professor Krugman? Não!

Nao? a? ã! Não!

Actualização (7/6/2013): «Update: yes, I know about the tilda [sic], but could not persuade the software to show it. The tilda [sic], I’ve always said, means that there’s an “n” at the end that isn’t written but which you don’t pronounce — if you’ve ever heard Portuguese, you’ll understand what I mean», PK (s.d.).

Nobel prize of economy 2008 Paul Krugman

Clarice Falcão, uma cachopa que sabe a chocolate

Não sei de cantora que tão bem o amor trate, na minha língua.

(lista de reprodução para ouvir até ao fim ou fugir já)

Sobre? Isso não quer dizer por cima?

Pode parecer um assunto menor, mas não deixa de ser irritante.

Tenho ouvido e lido políticos, comentadores, jornalistas, académicos, economistas e por aí fora, na rua, em jornais, discursos e televisões, afirmarem que Portugal está sobre intervenção da troika, sobre programa de ajustamento, sobre avaliação do BCE, do FMI ou da Comissão Europeia, quando é precisamente o contrário: Portugal não está sobre troika nenhuma, a troika é que está sobre Portugal. Portugal está, isso sim, sob intervenção, sob programa de ajustamento, sob avaliação, sob mau governo, sob más políticas, sob o jugo de uma europa sem rumo.

Não é que faça grande diferença face ao resultado final: o desastre, o empobrecimento e a destruição do “cimento” social estão assegurados. Mas, já que roubam todo o resto, dignidade incluída, continuemos ao menos a falar bem português, se não for pedir demais e não se lembrarem de lançar mais um imposto, desta vez sobre a boa utilização da língua.

Croniquetas de Maputo: uma língua muito plástica

Uma tabuleta no tronco mostrava o preço dos serviços. Estava escrito: “cada cabeça  7$50”.

Com o crescer da vida, Firipe emendou a inscrição: “cada cabeçada 20$00”.

Mia Couto

“Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu”

cão

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