Julian Assange, Direitos Humanos e a hipocrisia que será a nossa ruína

Imaginem que Julian Assange fugia ao Kremlin, não à Casa Branca, e era entregue pela justiça bielorrussa aos sabujos de Putin. Conseguem imaginar a gritaria das democracias liberais? Conseguem imaginar o blá blá blá direitos humanos, blá blá blá democracia, blá blá blá liberdade?

Eu consigo. Como consigo, com maior facilidade ainda, se o hacker fugisse de Cuba e fosse entregue ao regime por Nicolás Maduro. Seria uma arrancar de vestes e cabelos sem paralelo na história do mundo – mais ou menos – livre.

Não que Assange esteja já sentenciado, uma vez que ainda tem possibilidade de recorrer da decisão do High Court de Londres, depois de ter ganho a batalha da não extradição na primeira instância, mas tudo indica que o futuro de Assange será passado numa prisão americana. Para todo o sempre.

É significativo, assistirmos a esta decisão no Dia Internacional dos Direitos Humanos, em benefício de um dos principais violadores de direitos humanos. E Assange, que denunciou muitas das violações perpetradas pelos EUA, é o mexilhão desta história. O que se fode sempre.

A hipocrisia do Ocidente será a sua ruína. Ainda esta semana se teceram longas e boas loas ao Canadá, aos EUA, ao Reino Unido e à Austrália, que se juntaram num boicote diplomático aos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim. Porque a China, imaginem lá vocês, viola os direitos humanos. A toda a gente sabe que uma coisa são violações dos direitos humanos levadas a cabo por regimes dos quais não gostamos. Outra, bem diferente, são violações dos direitos humanos do bem. Porque sim. Ou porque Venezuela, se preferirem.

E notem que se trata de um boicote diplomático. Significa isto, apenas e só, que os representantes oficiais destes países não estarão nos bailes e na degustação dos canapés. Os atletas competem na mesma. Um boicote da treta, claro está. Uma simples encenação, para efeitos de propaganda. Porque estes quatro países não têm a mínima intenção de cortar relações com os tiranos chineses. Muito menos de privar o seu modelo económico do capital chinês ou da mão de obra barata e semi-escrava que subcontratam aos oligarcas do PCC. E é também por isto que a democracia está a perder a corrida contra o autoritarismo.

Comments


  1. Para quando o premio Sakharov para Julian Assange?

  2. Paulo Marques says:

    Um boicote diplomático à China não pela violação de soberania (comprometimentos de acordos da guerra fria, ops), não pelo genocídio, não por esconderem uma pandemia (em abono da verdade, contraproducente), mas por crimes em condições em que se fecham os olhos, ou não faltassem denúncias a várias federações desportivas. Uma salganhada que descredibiliza noções de consensos e instituições internacionais. Não é que se possa fazer algo, mas ao menos que se assuma para falarmos todos da mesma coisa.
    Mas lá está, não dava jeito, não se conseguia andar mais de uma década a fazer de conta que o objectivo da caça ao Assange não era o óbvio. Uma conspiração é isto, gente, atabalhoada e pouco credível quando passa de meia dúzia de pessoas. Nem ninguém precisa de dizer que é santo, que não o é.

  3. JgMenos says:

    Houve um tempo em que o arrombar portas e janelas sempre claramente definia o autor como ladrão.
    Agora que entram por impulsos electrónicos logo se tornam em heróis!

    • POIS! says:

      Pois pois…

      Que comentário mais parvo!

      A qualidade de ladrão, nestes casos, não depende do comportamento do próprio.

      Depende antes de quem for a “vítima”.

      • POIS! says:

        E já agora…

        Quantas portas e janelas arrombaram os Roques, Rendeiros e outros Espíritos Santos?

    • Paulo Marques says:

      Como os nossos “aliados” arrombaram, e provavelmente ainda arrombam, as conversas dos nossos dirigentes políticos?


  4. Caro João Mendes, o governo chinês tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza, nas últimas duas décadas. Os avanços científicos, o progresso a todos os níveis e a melhoria generalizada da qualidade de vida do povo chinês, são dados inegáveis e reconhecidos internacionalmente. Os EUA não suportam este sucesso chinês e não querem, de forma alguma, ter rivais à sua altura no Mundo, ou modelos políticos e económicos alternativos, à “democracia da coca-cola”, que os EUA exportam regularmente através de ameaças, sanções e mísseis Tomahawk. A China é a nova obsessão do Ocidente, porque a China se recusa a vergar aos ditames da elite anglo-sionista que controla o Ocidente. É tão simples quanto isto:

    https://toranja-mecanica.blogspot.com/2021/06/a-china-eterna-china-e-nova-obsessao-do.html

    Quanto ao pobre do Julian Assange, que Deus e todos os santos o ajudem!

    • João Mendes says:

      Toranja,
      O capitalismo também tirou milhões da pobreza. E, tal como a China, não o fez por caridade ou empatia. Fê-lo para obter algo. A China é um regime totalitário e o facto de os EUA não serem a democracia que apregoam não invalida isso.

      • Filipe Bastos says:

        O capitalismo também tirou milhões da pobreza.

        Mendes, não me diga que engoliu essa patranha?

        O capitalismo não tira ninguém de porra nenhuma; as pessoas é que se tiram a elas próprias com o seu trabalho.

        Todo o propósito do capitalismo é enriquecer uma minoria à custa da larga maioria. O que devemos comparar é como estaria esta sem essa exploração; como devia estar numa sociedade mais justa e igualitária.

    • Paulo Marques says:

      A obsessão é simples, depois de lhes oferecerem a vitória pensando que faziam o contrário.
      Já os direitos humanos, nem por isso.

      E não sei que tem o sionismo a ver com o assunto, os cristãos de qualquer denominação são muito melhores a explorar-nos.

  5. luis barreiro says:

    Fosga-se que exemplos se ele fosse entregue a regimes comunistas ia parar ao paredão, ou levava com a injeção atrás da orelha. Os regimes que tu defendes são bem piores.

    • POIS! says:

      Pois, fosga-se!

      Que ainda não foi desta que o barrasco, perdão, o barreiro comentou em português.

      Ó barrasco, perdão, barreiro: não pense que a gente esqueceu o facto de Vosselência andar a a meter a mãezinhas dos comentadores de que não gosta “ao barulho”.

      O menino barrasco, perdão, barreiro, além de idiota é muito mal educado.

      Todos sabemos que a mãezinha é perita em segurança mas, do resto, não tem culpa.

    • Paulo Marques says:

      A NATO é muito mais simpática, deixa-os vivos isolados, como Manning, ou tortura e viola-os, como Abu Ghraib e Guantánamo (e sabe-se lá mais onde), explode com casamentos e hospitais, arma genocídios…
      Violência do bem, pá.

  6. Alexandre+Barreira says:

    …..como diria o “outro” e bem……”iste tá mesme tude fedide”….!!!

  7. Filipe Bastos says:

    Imaginem que Julian Assange fugia ao Kremlin, não à Casa Branca, e era entregue pela justiça bielorrussa aos sabujos de Putin.

    Tal e qual, Mendes. A hipocrisia do Ocidente tresanda.

    E carneiros direitalhas como o Jg papam tudo: o mau, para eles, é o Assange. Os criminosos não são a canalha americana, os mamões e DDT; os criminosos são quem expõe os seus segredinhos.

    Não que fossem grandes segredos; mas a canalha tem de fazer de Assange ou Snowden exemplos para assustar futuros delatores. A diferença para Putin ou Lukashenko é mera cosmética: o verniz do ‘Estado de Direito’, também popular no esgoto tuga.