O estado a que a justiça chegou e o canto da sereia de cabeça rapada

Após a decisão do juiz Neto de Moura, que mandou retirar a pulseira electrónica ao indivíduo condenado a 2 anos e 8 meses de pena suspensa por rebentar o tímpano da mulher ao soco, a vítima que a Justiça Portuguesa se recusa a auxiliar foi novamente ameaçada pelo agressor.

Chegará o dia em que ninguém mais acreditará nesta espécie de justiça, fraca com os fortes e forte com os fracos, permissiva com a violência exercida sobre os mais frágeis, mas também com a corrupção e com outras formas de criminalidade que engordam as carteiras de uma certa elite de traficantes de influências e poder.

Nesse dia, suspeito, aparecerão por aí uns tipos sinistros, de suástica no braço e crucifixo ao peito, a prometer justiça divina, respeito e ordem, mas apenas para aqueles que pensarem como eles. Não sei quanto a vocês, mas eu vou sentir saudades da liberdade. Resta saber quanto tempo irá a maioria aguentar o estado a que isto chegou, sem se render ao canto da sereia de cabeça rapada.

Trump, Bolsonaro e as piadas que se fazem sozinhas

TB.jpeg

Cartoon: Carlos Latuff@Mondoweiss

Donald Trump, o BFF do Kim da Coreia que come na mão de Putin, quer trabalhar em conjunto com Bolsonaro, o adepto da ditadura militar que quer metralhar adversários políticos, para combater os regimes autoritários. Isto está é para os humoristas. Bem que podem passar o dia todo no café, que as piadas já se fazem sozinhas.

A Venezuela europeia da direita portuguesa

VO.jpg

Viktor Orban, o fascista que a imprensa controlada pela extrema-esquerda apelida de conservador, não vá a PIDE do politicamente correcto fazer-lhes uma visita, deu mais um passo no sentido de fazer a Hungria Great Again.

A poucos dias do Natal, para que não restassem dúvidas sobre a matriz católica apostólica romana que o norteia esta nova Hungria, onde a extrema-direita assume, sem rodeios ou cosmética, o namoro com neoliberalismo, Orban decidiu aumentar de 250 para 400 o número de horas extraordinárias anuais que o patronato pode exigir aos seus trabalhadores – e aqui a palavra “seus” assume contornos notoriamente esclavagistas – bem como de um para três anos o prazo-limite para proceder ao seu pagamento. [Read more…]

«O golpe de Cavaco não foi palaciano

[mas] profundamente provinciano. (…)» [Pedro Lains]

Portugal: uma sociedade doente

Os portugueses são um povo neurótico, a precisar de colo e de se pensar a si próprio e à sua existência. Carlos Céu e Silva, psicólogo clínico, pensa que o considerável aumento do mal-estar que a austeridade provocou espelha de forma preocupante as patologias mentais de uma sociedade doente. E responsabiliza os políticos portugueses por esse quadro depressivo.

(c) Sandra Bernardo
carlos_ceu_e_silva_2out2015_02_copyright_sandra_bernardo

Há dias, no Facebook, apareceu uma frase que creio que define bem o mal-estar que está na raiz de várias patologias que afectam os portugueses. Essa frase diz assim: «Doutor, sofro de retenção de tristeza». O que pensa da frase?
Diria que a partir do momento em que a pessoa expressa de forma tão clara o seu mal-estar, uma parte do caminho já se fez. O sofrimento mais profundo e mais existencial da nossa vida, nós temos muitas vezes dificuldade em expressá-lo, ele não é sempre traduzível em palavras. Nessa medida, essa frase indica muito claramente que a pessoa que a diz está muito triste, ou muito melancólica, relativamente a uma sociedade que não corresponde ao seu ideal. Penso, também, que há depressão na existência dessa pessoa. Mas não posso saber, apenas pela frase, a gravidade dessa depressão, o grau que tem na sua vida diária e de que forma a afecta.

CARLOS CÉU E SILVA (n. 1960) é Psicólogo clínico e Mestre em Aconselhamento Dinâmico. Fundador e Presidente da Olhar – Associação pela Prevenção e Apoio à Saúde Mental, é também Presidente da Laços Eternos – Associação de apoio a pais e irmãos em luto. Como pensador e escritor, assinou Dicionário Psicológico da Criança – a partir da obra de João dos Santos (Âncora, 2008), As Mulheres de Henry James (Coisas de Ler, 2009), Édipo – Uma História Completa (Coisas de Ler, 2009) e Infâncias (Esfera Poética, 2014).

O que transforma essa frase num enunciado significativo é a palavra retenção. Porque essa palavra diz-nos que há uma justaposição de várias camadas de tristeza que estão retidas, que não foram ainda ou libertadas ou transformadas noutra coisa.
Concordo. Mas podemos também interpretar essa palavra de outra forma, porque ela também pode dizer-nos que a pessoa detém um poder individual sobre a situação.

Que é capaz de se auto-controlar?
Sim. E talvez até de um egoísmo.

Não percebo a ideia de egoísmo. Pode explicitar?
Se olharmos para o ser humano nas suas componentes internas e mentais, percebemos que há sempre egoísmo, porque para sobrevivermos tem de haver da nossa parte um constante esforço suplementar. É porque temos esse poder individual, seja ele mental, emocional ou fisiológico, que somos capazes de reter – tal como uma criança se torna capaz de controlar a micção, por exemplo. A capacidade de retenção tem a ver com a forma como nós nos concebemos como seres individuais e sociais. E é este conflito, por vezes desorganizado, que faz com que possamos sentir-nos melancolicamente desprovidos de capacidade para viver socialmente em equilíbrio.

Considera, ou não, que a frase define o povo português?
Considero que define bem e mal o povo português. Define bem porque de facto o povo português é um povo que deseja poder, que deseja conquistar poder, e também o poder de se auto-controlar. Mesmo que depois experimente dificuldade em ter poder, em lidar com o poder, qualquer que seja. E define mal porque quando o português adquire poder, a forma como o gere revela uma dificuldade operacional em assumir conscientemente as suas decisões. E revela também um equívoco, porque a relação com o poder não obriga ao uso de autoritarismo, mas a uma disciplina afirmativa e estimuladora.

O que quer dizer quando diz que os portugueses não lidam bem com o poder?
Quero dizer que nós, portugueses, historicamente, não fomos e continuamos a não estar preparados e a não ser educados para o poder. O português típico deseja o poder, e inveja o poder de quem o tem. Quem tem poder é sempre visto pelos portugueses como um ser a abater. Porquê? Para que possam substituir os outros nesse poder.

Podemos encarar isso como um defeito constitutivo do carácter nacional?
Podemos. Mas vale a pena perguntar porquê, por que é que esse carácter tem essas características? Porque é que nós, portugueses, somos tipicamente invejosos e temos, tipicamente, a tendência para ver o outro de forma deturpada e como um ser ameaçador?

Porquê?
A nossa história existencial enquanto povo, e a criação da nossa pátria enquanto chão, mostram-nos que fomos sempre assim. [Read more…]

O verdadeiro perigo por detrás do ‘Estado Islâmico’ e dos terrorismos

lego_terroristaDiogo Barros

O atentado ocorrido a 7 de janeiro ao jornal satírico Charlie Hebdo reacende a questão do terrorismo islâmico da al-Qaeda, e também do Estado Islâmico a das suas supostas pretensões de reconquista dos territórios perdidos do Califado. A existência deste(s) grupo(s) terrorista(s) e as suas declarações serão, com muita probabilidade, o motivo mais claro e decisivo para fazer ressurgir o apoio popular a Estados totalitários, corporativistas e policiais, como os dos anos 20 e 30 do século XX. Estes, sim, o grande perigo para a liberdade.

Já se notam muitos tiques autoritários na atual III República para quem estiver mais atento ou for mais crítico. Tiques esses que não vêm de agora e são um claro sintoma de agonia do regime.
[Read more…]

Egipto: Irmãos muçulmanos e militares disputam o poder a qualquer preço

mahmoud hussein_copyright_bruno_charoy
© Bruno Charoy

«Eis o que se pensa no Ocidente sobre a situação egípcia: uma experiência democrática estava em curso, o exército quis por-lhe termo, instrumentalizou o descontentamento popular para fazer um golpe de Estado. E lamenta a ingenuidade do povo egípcio, que preferiria submeter-se aos militares a confiar no presidente islamista que ele próprio elegeu. Incapaz de se vergar à longa aprendizagem da democracia, o povo egípcio teria esquecido todos os males que o exército lhe infligiu…

Não, o povo egípcio não esqueceu. Não esqueceu o que sofreu durante os dezasseis meses em que o exército governou de forma directa o país. A iniciativa que entretanto tomou não é, de forma alguma, uma escolha entre os militares e os Irmãos Muçulmanos. Ela representa uma nova etapa na marcha que empreendeu para afirmar a sua autonomia cidadã. Pois o povo egípcio deixou de ser um comparsa no teatro de operações do palco político. Adquiriu, desde Janeiro de 2011, um estatuto de actor autónomo e decisivo. E adquiriu esse estatuto, qualitativamente novo, não porque tenha derrubado o autocrata Mubarak, mas porque recusou a legitimidade do seu poder. Até então, no país dos faraós e dos sultões, esse poder não era apenas exercido sem limites e sem controlo. Era, ainda por cima, legitimado pelo conjunto da população.  Por que razão aceitava, com a naturalidade de uma evidência indiscutível, um poder em relação ao qual não tinha qualquer ascendente? Porque esse poder, parecia-lhe, emanava de uma instância superior, transcendente. Porque representava, aos seus olhos, o reflexo na terra de um destino celeste. [Read more…]

Deriva autoritária

prossegue em todo o seu esplendor.