Consumo, a mais urgente das transições

Não provocou grande alarido ou discussão, a notícia que há mês e meio dava conta de aproximadamente 307 mil mortes prematuras na UE, em 2019, provocadas por poluição sob a forma de partículas finas (partículas em suspensão no ar com diâmetro inferior a 2,5 micrómetros), associadas, predominantemente, a doenças cardíacas, AVC’s e cancros pulmonares.

O número até diminuiu, face a 2018 (348 mil), segundo o relatório divulgado no passado dia 15 de Novembro pela Agência Europeia do Ambiente, e o motivo, aparentemente, prender-se-á com a melhoria da qualidade do ar no espaço europeu. Não deixa, contudo, de ser um número assustador, que poderia ser drasticamente reduzido, caso os Estados-membros optassem por cumprir as metas de qualidade do ar, defendidas por amplo consenso científico. E mais assustador se torna quando percebemos que esta “variante” de poluição atmosférica tem um impacto considerável nas crianças, não só na sua saúde como no seu desenvolvimento.

Assumindo que os números da OMS correspondem à realidade, a poluição por partículas finas é directamente responsável por um total de 7 milhões de mortes prematuras por ano, a maior parte das quais, sem grandes surpresas, nos países mais pobres, onde o impacto tenderá a aumentar numa relação de proporcionalidade inversa à da realidade europeia. É que a transição energética, tal como está a ser implementada, trará grandes benefícios para os europeus. Mas a factura, inevitavelmente, terá que ser paga por alguém. É que os metais e minérios raros, indispensáveis para a construção de aerogeradores, painéis solares e carros elétricos, ainda não crescem nas árvores ou em estufas modernas.

A solução para este problema, como para o aumento significativo de mortes por cancro do pulmão em zonas de forte exploração de cobre ou lítio, como para o próprio problema das emissões, pelo menos é essa a minha convicção, não passa pela substituição dos combustíveis fósseis pelas energias ditas limpas, que ainda estão longe de o ser. Passa, essencialmente, por uma diminuição e mudança significativa dos patrões de consumo actual. Seja no consumo de carne, seja na produção de todo o tipo de gadgets, cujo período de vida é cada vez mais curto, mas também no desperdício gerado pelas toneladas de alimentos que todos os dias acabam no contentor do lixo, pelo uso abusivo de embalagens descartáveis, predominantemente de plástico, pela quantidade crescente de lixo resultante da voracidade dos sectores ligados à tecnologia de consumo pessoal ou à fast fashion, também elas cada vez mais descartáveis. Não vamos lá com paliativos. Precisamos de uma estratégia comum para reverter um padrão de consumo autodestrutivo de recursos finitos, e precisamos dela já.

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    Tudo muito certo e muito bonito, Mendes, mas também isso não chega: falta o mais importante. É, aliás, curioso como a esquerda actual se esquece tanto do mais importante.

    Sabe o que é, não sabe? Pois é. É aquele palavrão que assusta a esquerdinha caviar, sempre moderadinha, bem pensante e bem instalada. Cá vai: REDISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA.

    Vá, não comece a suar. O Paulo Marques logo virá dizer que nada disso, que o importante é racismo, pronomes e slogans woke. Qual redistribuição. Mas cá vai outro: LIMITAÇÃO DA RIQUEZA.

    Ou se começa por cima, Mendes, ou não se começa.

  2. Paulo Marques says:

    João, não o vou incomodar com outros assuntos, mas vou mesmo ter que dizer que se esqueceu do mais importante, quem paga a factura. Mas também relevante é o fim da supremacia do automóvel.
    Sem redefinição da recompensa dos proveitos da produção, será, no mínimo, interessante.

    • João Mendes says:

      Não esqueci, fiz uma referência. Deixarei a factura para outro escrito. Continuação de boas festas!

  3. Ana Moreno says:

    O mais revoltante, João, é que isso já se sabe há décadas e continuamos na mesma, ou pior. Os políticos a fazer o ninho ao mercado e ao lucro e a acarinhar as multinacionais que, entretanto, têm o poder de os esmagar com um dedo. As pessoas, na sua maioria, também a alinharem alegremente em tudo quanto é diversão e alienação. Os (neo)liberais e extrema-esquerda continuando a ter o maior sucesso.
    Não, não é falta de estratégia. São os interesses dos verdadeiros poderosos e é a baixeza dos seus lacaios, em quem o pessoal vai votar. PS, PSD: mais do mesmo, (quase) indiferente.

    A luta, vou continuar, por convicção intrínseca e independente do resultado. Esperança, não tenho, mas hei-de continuar, por obtinação, a alegrar-me com qualquer pequena vitória que por aí aparecer.

  4. balio says:

    E ninguém fala da origem da poluição por partículas?!
    A poluição por partículas finas é causada predominantemente pelos motores diesel. Ou seja, os motores a gasóleo. Os quais equipam dois terços dos automóveis portugueses.
    Querem acabar com a poluição por partículas, comecem simplesmente por uma medida muito simples: pôr o gasóleo ao mesmo preço da gasolina. Para que o pessoal deixe de preferir carros a gasóleo a carros a gasolina.

    • Paulo Marques says:

      Sem chegar à questão de quem paga para mudar de automóvel perfeitamente bom, há a questão do preço do gasóleo influenciar directamente o custo de alguma produção e grande parte da logística. Mas não faço ideia se isso pode ser resolvido com papelada na bomba.

  5. francis says:

    Precisamos mesmo de ter agua e sumos em garrafas de plastico? Precisamos mesmo de comer toneladas de iogurtes e sobremesas lacteas produzidas a 2000 km de distancia ? E cereais de pequeno almoço tambem vindos de Paris ? E de mandar tubos de ferros para França, quando há la tanta fabrica de tubos ? E papar santolas vinda de Inglaterra ? E devorar frutas que chegam por avião desde a America do sul ? E derreter toneladas de flores que vêm diariamente da Holanda ? E tocar de carro de 5 em 5 anos ?

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