Ode à Paz

Os passos cravam no soalho um tórrido sonoro grave, que inebria o corpo, deixando a pele áspera e fria. As memórias, guardadas numa velha peúga, como quem guarda a primeira poupança, comem-lhe as costuras, desgastam-lhe o tecido, desfazem-na, a pouco e pouco, como notas amontoadas, amarrotadas e velhas, como que ultrapassadas pelo tempo, como quem corta a meta. O fim, enfim.
 
No antro da saudade resguardam-se as memórias, escondidas na sombra, espreitam pela ténue linha de luz que entra pela soturnidade de um quarto fechado. As mãos afagam-lhes a face, como quem as passa pelo rosto de uma criança acabada de nascer. Pelo campo de mártires que, como soldados prostrados se rendem, vagueiam as almas que outrora se manifestavam ardentes de paz, urgentes de amor, sufocadas pela ânsia de nascer de novo. E são tiros, amores, são balas. São balas, amores, são bombas. É napalm cravado nas unhas, é pólvora que polvilha os dentes, é guerra que corrói a mente, que mata a fome dos que matam a gente.
 
E nada resta. E nada basta. E um só tiro não chega.
As lágrimas correm como corre o rio, os gritos imperam no silêncio da multidão, dos transeuntes que carregam o peso do corpo, que o arrastam para uma falésia prometida, para um fim sem chão. Sem tecto. Crianças correm, tentando dar cor ao quadro cinzento da morte. Olhares que se cruzam mas que não se dizem. Que não se deixam sentir, que não se deixam mostrar. Olhares que gritam, vidrados, irados de ódio. Mãos que não se atam, pés que não se libertam, vozes que não se ouvem, corpos que não se tocam. Vidas que não se vivem.

Mortes que vêm sem dizer, mortes de vidas por viver.
 
As odes cantam a urgência da paz, a vivência do caos, o vazio de uma casa abandonada. Odes cantam a grandeza do Homem, a mendicidade dos que não se deixam mendigar. Abaixo o Homem! Abaixo esta desumanidade tão humana, aniquilada pelos que matam de sede. Atrozes os choros das mães que dão a morte às portas da vida. Guitarras tomam de assalto Bagdad, flores explodem na Palestina, a Lua invadiu a Síria, o Sol brilhou no Iémen. Amor espalha-se pelo mundo e o tráfico de paz bateu recordes históricos. Foi o jornal da uma. E eu desligaria a TV, sorrindo como um miúdo.

Comments


  1. Talvez depois

    Talvez depois de o último comboio ter finalmente partido
    E de eu ter ficado parado na estação a vê-lo desaparecer na curva do caminho,
    Talvez depois de a última grande tempestade ter esgotado todo o seu furor e a quietude das águas, na vasta imensidão líquida, ter vindo espraiar-se na areia intocada da última praia longínqua,
    Talvez após a última aliança militar ter por fim provado a sua absoluta, total e absurda inutilidade,
    Talvez depois de a última guerra ter cessado enfim e os arsenais dos sofisticados armamentos que custarm fortunas incalculáveis, terem ficado para sempre silenciosos e corroídos pela lenta e inexorável ferrugem,
    Talvez após o último edifício, outrora tão orgulhosamente alto, se ter desmoronado e as suas ruinas ficarem ao nível do solo,~
    Talvez depois de o derradeiro tratado de livre-comércio ter sido acordado pelos burocratas das maiores potências ainda e sempre àvidas e sedentas de mais domínio,
    Talvez depois de a última grande corporação mineira ter acabado de esgotar o derradeiro filão ainda restante na eterna corrida desenfreada ao lucro fácil e imediato,
    Talvez após o último mega-banco ter especulado com os remanescentes activos tóxicos do último mercado bolsista, agitando a sua mão invisível,
    Talvez depois de a última fábrica de plásticos ter finalmente produzido a última embalagem tetra-pack,
    Talvez após a última mega construtora ter acabdo de montar o derradeiro veículo híbrido,
    Talvez depois de o último satélite de telecomunicações ter alcançado o espaço e assim acabar por retransmitir o último acervo de dados em estreita conexão com as mais sofisticadas antenas 5G e 6G,
    Talvez após a última semente nativa ter sido clonada pelas grandes agroquímicas internacionais e a sua patente religiosamente registada nos data-center dos derradeiros conglomerados burocráticos,
    Talvez depois de o último agricultor ter lançado à terra o último grão de milho transgénico e o último salmão ter sido libertado do derradeiro centro de aquacultura,
    Talvez depois de o último drone ter caído dos céus e ficar para sempre inerte na poeira do deserto, após se esgotarem a suas baterias de iões de lítio e das micro-células de hidrogénio líquido,
    Talvez após a derradeira pandemia ter devastado os restantes países do Ocidente desenvolvido e ter dizimado as vastas multidões periféricas,
    Talvez depois de o último político ter acabo de proclamar as suas verdades absolutas em que nem ele próprio acredita já,
    Talvez depois de o teu último e fascinante sorriso se ter desvanecido para sempre na bruma húmida da eternidade …
    Talvez então possa o nosso espírito inquieto repousar e descobrir refúgio e possa o nosso Amor finalmente encontrar casa,
    Talvez então minha querida…. Talvez

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