Para que se saiba: Gás e nuclear são verdes – e o sol é quadrado

Há dias em que, mais do que noutros, apetece dizer com raiva ou resignação aquela frase batida: “os povos têm os governantes que merecem”[1], num esforço para um distanciamento da fatalidade de decisões tomadas por representantes eleitos democraticamente que agridem, de todo, a preservação do planeta e da vida.

Aconteceu ontem. O Parlamento Europeu (PE), numa votação sobre o Acto Delegado Complementar de Taxonomia da União Europeia – ou seja, o sistema de critérios técnicos de avaliação para determinar em que condições uma actividade económica específica pode ser qualificada como contribuindo substancialmente para a mitigação das alterações climáticas – , decidiu classificar de „Verdes“ os investimentos na energia nuclear e no gás fóssil. Não é preciso ser nenhum especialista para entender o absurdo desta decisão. O que seria preciso, mas é impossível, seria conseguir entender como pode uma maioria no Parlamento ser tão vendida e tão comprada para tomar tal decisão.

É óbvio que a inclusão do gás fóssil e do nuclear na taxonomia “Verde” descredibiliza por completo este instrumento e põe em causa os objetivos climáticos europeus; a utilização do gás fóssil implica grandes quantidades de emissões de gases de efeito de estufa, quer na queima (dióxido de carbono), quer ao longo de toda a cadeia de extracção e transporte (metano) e, quanto ao nuclear, além dos riscos que acarreta na fase de funcionamento, continua sem solução a questão do armazenamento dos resíduos radioactivos.

Além disso, por esta via, o parlamento acabou de dar o seu beneplácito ao método anti-democrático usado pela Comissão com o seu “Acto Delegado complementar”, nas últimas horas da noite de 31 de Dezembro de 2021, pois tratando-se de um acto delegado complementar, a proposta do executivo comunitário não tem de ser concertada nem votada pelos co-legisladores do Parlamento Europeu e do Conselho da UE para ser adoptada e requereria uma maioria qualificada (e não simples) no PE contra a classificação apresentada pela Comissão.
De qualquer forma, foram 328 dos 639 deputados presentes (conservadores, liberais e de direita) que votaram contra o bloqueio do projecto de taxonomia da Comissão – votando assim a favor do rótulo “Verde” para investimentos no gás fóssil e na energia nuclear. Duas Comissões do PE – a do Ambiente e dos Assuntos Económicos e Monetários – tinham anteriormente votado contra a inclusão do gás e da energia nuclear na taxonomia, trazendo assim algum optimismo à votação de ontem, mas que afinal foi infundado.

O absurdo desta decisão torna-se uma estaladona quando se vai, assim, propiciar os investimentos no gás de Putin.  A UE vai, pois, pagar para dois bolsos contrários: o dos apoios à Ucrânia e o do apoio a Putin através dos investimentos no seu gás. Segundo Sandrine Dixson-Declève, co-presidente da organização de reflexão Clube de Roma​, num comunicado de imprensa divulgado após a votação: “Nenhuma instituição credível pode sancionar a invasão da Rússia com uma mão, e continuar a avançar com planos para incentivar investimentos que incluem o fornecimento de combustíveis fósseis com a outra”.

Putin pode, portanto, descansadamente continuar a rir-se destes europeus palermas e desnorteados.

Os protestos da sociedade civil tinham sido muitos, com milhares de cartas, telefonemas, manifestações – mas contra os lobbies dos fósseis a luta é de David contra Golias.

Resta por fim a via jurídica: O PE vai tentar instaurar um processo contra a Comissão e alguns Estados-membros da UE, como a Áustria e o Luxemburgo, pretendem supostamente processar a Comissão Europeia pela inclusão do gás e do nuclear neste instrumento destinado a promover o investimento sustentável. Mas tudo está a ser apostado na aceleração do processo, parecendo pouco provável que haja ainda muito a fazer: Se não existir outra oposição ao acto delegado da taxonomia até 11 de Julho, este entrará em vigor a partir de 1 de Janeiro de 2023. Já na próxima semana, a 12 de Julho, a taxonomia deverá estar na agenda do Conselho de Economia e Finanças.

Estão assim criadas as condições para um greenwashing monumental, incentivando investimentos em novas centrais a gás que farão aumentar a dependência da União Europeia de gás fóssil importado, prejudicando ainda o objectivo de alcançar a independência energética total da Rússia e perpetuando a dependência energética de outros blocos económicos.

E, claro, desviando para estas tecnologias recursos preciosos, que deveriam ser aplicados em soluções de energia renovável verdadeiramente sustentáveis e capazes de conduzir à independência energética.

Somos uma geração vergonhosa e criminosa.


[1] Desta vez os eurodeputados portugueses até estiveram bem, 18 dos 21 eurodeputados portugueses votaram  a favor da rejeição.

 

Comments

  1. JgMenos says:

    Se tivessem descoberto tudo isso aquando do Brexit é que me impressionaria.

  2. Paulo Marques says:

    Deixando a parte do nuclear, no qual vivia bem com o nuclear nacionalizado como França, o gás é só uma inevitabilidade do constante chutar para a frente.

  3. Anonimo says:

    A energia solar é verde?
    É que aquelas baterias e materiais usados na construção de painéis não são particularmente ecológicos.

    Se calhar a solução passa pelo “1º Mundo” abdicar do seu conforto, como aqecimento central, ou telemóveis 100% conectados, ao invés de confiar que a ciência e tecnologia vão resolver todos os problemas.

    • J. M. Freitas says:

      ” passa pelo “1º Mundo” abdicar do seu conforto, como aqecimento central, ou telemóveis 100% conectados,”
      Não concordo.
      Vejo dois problemas:
      1. A população mundial deveria ser de (por exemplo) 2 biliões em vez de ser o que é. Mas vejo constantes apelos ao aumento da natalidade. Verdadeiro suicídio.
      2. A maneira como se gastam coisas só porque quem vende quer vender mais. Assim deitam-se para o lixo automóveis em perfeito estado mas que se considera que estão fora de moda. E a moda, sobretudo feminina, quanto desperdício!
      Há muito desperdício propositado que nem sequer serve para aumentar o conforto. Só serve para dar lucro. E que dizer da publicidade?

      • Anonimo says:

        A sobrepopulação é um problema. Mas não havendo (nem pode haver) a opção de limpar 2/3 terços… a solução é mesmo consumir menos. A começar pela energia.
        Mas esta é a conversa que ninguém quer ter. O problema não está na tecnologia (os carros de hoje poluem menos que os do Ford, as fábricas poluem menos), mas na quantidade disponível. E se acham que a solução é o “e”, desenganem-se, é trocar um problema por outro. Cada um troca o seu carro a gasolina por um eléctrico, tudo fica contente, mas como se gera electricidade para todos os carros? E que se faz quando as baterias forem à vida?

        O ciclo de vida dos produtos é uma consequência do modelo económico do Ocidente (baseado naqueles “modelos” de crescimento infinito), é preciso produzir e consumir. Ainda assim é preciso separar a troca de um produto novo porque realmente é melhor (no caso dos carros podem ser menos poluentes, mais seguros, etc), da troca por causa de modas (que acontece nas roupas, e em alguns electrónicos).

      • francis says:

        O mundo precisa de deixar de fabricar tanto, TANTO. Desde roupas, a veiculos ligeiros, pesados e industriais, e a uma panoplia de alimentos que podemos bem viver sem eles – exemplo os megamilhões de iogurtes (alimento para vacas+ plastico pro lixo e todos transportes envolvidos) que se produzem diariamente na Europa. E as centenas de camiões que nos trazem alimentos de lugares longinquos, levam roupa daqui para a Alemanha e trazem a mesmissima roupa da Alemanha para cá. Exemplo, tubo carregado na Maia, vai para Valência, de lá vai para uma empresa em Setuball e dai para uma empresa de Gaia. Sempre sem sair de cima do camião. Negocios 1 – Planeta 0. E que dizer dos super poluidores navios de cruzeiro a poluir só para passear uns quantos senhores,,,,

    • Paulo Marques says:

      São mais verdes, como é o HVAC central. Também é como diz, um carrinho para cada um nem com todos os recursos do mundo, mas abdicar completamente do conforto do 1º mundo é querer milagres quando nem o mais simples avança. Um meio termo distribuído equitativamente, com menos automóveis e menos viagens pelo mundo da logística já era bem bom; como se vê, nem sequer é fiável confiar que resistam às contradições da economia.

  4. Joana Quelhas says:

    Os políticos para parecerem “bonzinhos” leia-se “Caça ao Voto” apoiam a loucura utopista da esquerda caviar que no seu super confortável mundo “protesta” contra as alterações climáticas.

    Mas chocando com a realidade o político que também depende do voto do cidadão arremediado não pode regredir tanto a civilização de forma a que estes comecem a sofrer ainda mais e a perder ainda mais qualidade de vida e até fome e falta de cuidados básico.
    Neste caso perderiam mais votos que aqueles que garantiam com a esquerda chique, que não é afectada pelas ditas medidas messiânicas que vão salvar o mundo (mito malthusiano).

    Assim e inteligentemente optaram pelas técnicas pós-modernistas (não os podes vencer junta-te a eles) ou seja alteraram o significado do significante…Boa malha…

    Já agora Aninhas ainda não te via a escrever sobre isto:

    “ Proibição de fertilizantes no Sri Lanka provoca fome “

    https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/como-um-experimento-ambiental-agravou-a-crise-alimentar-no-sri-lanka/

    Ao Ambientalistas chiques devem estar muito contentes, os cingaleses nem tanto.

    Joana Quelhas

    • Paulo Marques says:

      Finalmente fala de algo do qual tem qualificações, a alteração do significado da realidade. Até dá um exemplo e tudo. Muito bem.
      O Sri Lanka foi estúpido? Foi. E? Até a Alemanha os bate até ao fim do ano.

    • Paulo Marques says:

      Lol. Pior, foi desculpa por ter ficado sem dinheiro para os comprar depois de décadas a seguir as políticas responsáveis do FMI e acabar dependente de comida e energia estrangeira e exportações de baixo valor.
      E que defendem as Joaninhas para a província, contra um suporto “socialismo”? Hahahaha. Pândegos.

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